
O pluralismo inferencial na Ciência Política.
Teoria e evidências.
Autor: Flávio da Cunha Rezende
Scientia vinces: Estes dizeres encontram-se cravados no brasão da prestigiosa Universidade de São Paulo (USP). Eles estampam, sem ambiguidade, a preocupação da instituição em praticar a busca do conhecimento através da ciência: “Pela ciência vencerás”. Entretanto, o trato de fenômenos desconhecidos nem sempre foi pautado pela lente da explicação científica, calcada em investigação empírica e transparente. Os mil anos de trevas que marcaram a Idade Média atestam a preponderância do emocional sobre a razão e da supremacia do deve ser sobre o que, na verdade, simplesmente é. A ignorância em relação a certos eventos costumava – e talvez ainda costume – induzir o homem a tratá-los de maneira pouco rigorosa e parcamente afeita aos ritos da busca por evidências experimentais ou teóricas cabalmente demonstradas. Nesse sentido, o Iluminismo erigiu-se como movimento fundamental na luta contra o obscurantismo e o dogmatismo religiosos. Sem desmentir, contudo, a relevância da religião no que concerne às questões envolvendo princípios morais e éticos.
A demanda por conhecimento abarca diferentes campos de saber. Desde sempre requerendo habilidades específicas no dissecar das informações disponíveis. Paulatinamente, a especialização se aprofunda com o fito de enfrentar a complexidade das diversas e, cada vez mais, intrincadas situações. As ciências exatas e da natureza e, por outro lado, as ciências médicas e biológicas logo adotam seus respectivos rituais metodológicos. Elas procuram explicar fenômenos e apontar causalidades a partir de sofisticados protocolos de pesquisa arrimados em leques de variáveis – dependentes, independentes, intervenientes – que são exploradas em suas múltiplas interações. Os modelos computacionais servindo, nas últimas décadas, como vetor de tratamento quase incontornável, considerando o volume de dados geralmente envolvido nas análises.
O problema maior do rigor científico parece, contudo, afligir outra área do saber: as ciências humanas e sociais. Tendo como objeto de estudo a ação humana em sua dinâmica social e o arcabouço institucional que a organiza, ela encerra um intricamento abissal. O esforço para parametrizá-la é hercúleo e, não raro, com significativas limitações. O fato de ter como primo substrato de análise a conduta humana torna as ciências humanas e sociais reféns da dualidade universal/singular: o que há de perene na natureza humana? E o que é resultado da socialização? A teoria positiva, lastro das ciências exatas e da natureza, como também das ciências médicas e biológicas, se depara, então, com a concorrência da teoria normativa, que emerge como canal de prática axiológica, podendo constituir-se em armadilha falaciosa, produtora de argumentos e conclusões meramente prescritivos e desprovidos de base científica.
No que concerne mais particularmente à Ciência Política e às Relações Internacionais, já há alguns anos que seus estudiosos vêm se empenhando em torná-las, cada vez mais, disciplinas tributárias de teorias positivas e, simultaneamente, vassalas de rigorosa metodologia – não importando se são de natureza quantitativa ou qualitativa. É nesta trilha que Flávio da Cunha Rezende propõe uma reflexão teórico-metodológica de monta. E ele o faz com a publicação do instigante livro O pluralismo inferencial na Ciência Política. Teoria e evidências, que convida a pensar “como se estruturam e se organizam as diversas estratégias e lógicas de produção do conhecimento na Ciência Política” (p.11).
Além da Introdução, a obra se encontra organizada em doze capítulos, distribuídos, de forma paritária, em duas partes: (i) Fundações conceituais e teóricas do pluralismo inferencial e (ii) O pluralismo inferencial em ação. Depois de um conciso e preciso introito que, preliminarmente, argumenta que a produção de alto fator de impacto na Ciência Política se alicerça em múltiplas lógicas de causação e expressa uma pluralidade de desenhos de pesquisa para a elaboração de inferências causais válidas, o Capítulo 1, intitulado de A grande transformação, aponta, a partir de uma abordagem histórica, a metamorfose dos valores, crenças e práticas ocorridas na Ciência Política durante a última década do século passado. O resultado dessa mutação convertendo-se em uma nova cientificidade, onde o ajuste inferencial emerge como instrumento fundamental.
Comparação, comparabilidade e método comparativo é o tema explorado pelo Capítulo 2. Inspirando-se na ideia de análise comparada como método, tal qual preconizada por Lijphart e Sartori, ele examina uma pletora de indagações relativas à elaboração de desenhos de pesquisa na Ciência Política. Em seguida, no Capítulo 3, Rezende promove um propedêutico e inédito esforço – o Modelo das Engrenagens Analíticas (MEA) – a fim de entender as dimensões básicas dos desenhos de pesquisa e como eles contribuem para a produção de conhecimento científico dentro da Ciência Social.
Tema do Capítulo 4, A competição entre métodos quantitativos e qualitativos alimenta, há muito, a discussão metodológica dentro das Humanidades. É nesse contexto que a Teoria das Demarcações Essenciais emerge, procurando auxiliar o pesquisador na complexa tarefa de escolha do método a ser empregado. Tal teoria alega que há variadas formas de cogitar causação e inferência e que, dentro dessa perspectiva, os casos e a comparabilidade se postam como elementos fundamentais. Por este motivo, o Capítulo 5 apresenta Razões fortes para o status inferencial dos estudos de caso. Na linha da Nova Metodologia Qualitativa (NMQ), Rezende escruta os principais argumentos que justificam metodologicamente seu uso considerando a complexidade causal: equifinalidade, heterogeneidade causal, process-tracing e mecanismos causais.
Arrematando a primeira parte do livro, o Capítulo 6 – Explicação, causação e Mesas Inferenciais Separadas – debate a teoria do pluralismo inferencial, registrando que, dada a dualidade estrutural na explicação política, a coexistência de diversificadas lógicas de causação para a confecção de desenhos de pesquisa se ergue como condição estruturadora da produção de Ciência Política. Foca-se no entendimento dos nexos entre teoria e metodologia – a Conexão Essencial – e, com base na relação entre explicação e causação, propõe-se a noção de Mesas Inferenciais Separadas.
Continuidade e relevância inferencial dos estudos de caso na Ciência Política é o enunciado do Capítulo 7, que abre a segunda e última parte da obra. Nele, Rezende revela uma gama selecionada de evidências empíricas que atestam o valor da abordagem inferencial para a geração de conhecimento, na seara política, nos dois últimos decênios. Ato contínuo, o Capítulo 8, denominado O Pluralismo Inferencial, envereda na busca pela compreensão empírica do procedimento de ajuste inferencial no seio da produção de alto fator de impacto. Ele comprova, efetivamente, que este procedimento motiva uma disputa ordenada em torno de Mesas Inferenciais Separadas. O Capítulo 9, então, destrincha o que são estas mesas e disponibiliza consistentes comprovações que respaldam o pressuposto de que o conhecimento difundido por periódicos de alto fator de impacto exprime uma pluralidade de desenhos de pesquisa marcados pelas lógicas de causação.
O Capítulo 10, A conexão essencial em ação: comparecimento eleitoral, se propõe a aferir a dimensão explicativa da teoria do pluralismo inferencial. A premissa é que a disputa entre postulados comportamentais e institucionais explana o episódio material da condição de diversidade da lógica de causação. Por fim, O ajuste inferencial em RI é o objeto de análise do Capítulo 11. Ele estuda a aplicação desse ajuste, assim como suas repercussões na produção de alto fator de impacto na arena das Relações Internacionais, concluindo que, como na Ciência Política, nesse campo interdisciplinar e permeado por distintas vocações metodológicas, há, igualmente, uma tendência de predominância de uma lógica plural e inferencial. A guisa de conclusão, o Capítulo 12 sumariza as principais reflexões e achados esmiuçados ao longo de todo trabalho.
Ao fim e ao cabo, O pluralismo inferencial na Ciência Política. Teoria e evidências galvaniza um esforço ímpar de sistematizar caminhos para se praticar as Humanidades e, mais particularmente, a Politologia e as Relações Internacionais dentro de regras que possam lhes conferir validade científica.

Marcelo Medeiros
Editor do Boletim Acauã. Professor do Departamento de Ciência Política da UFPE.