As possibilidades de inserção do Brasil no contexto da crise da ordem internacional
Autor: Alexsandro Eugenio Pereira
O segundo governo Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, adotou iniciativas na área de comércio internacional que indicam uma mudança de direção dos Estados Unidos com relação às regras do livre comércio criadas sob sua liderança. Esse governo retomou uma trajetória iniciada no primeiro mandato do atual presidente cuja característica principal é o afastamento dos EUA da ordem internacional liberal da qual esse país foi um dos pais fundadores no final da Segunda Guerra Mundial. A aplicação de tarifas a produtos importados de diversos países indica opção pelo unilateralismo. No caso do Brasil, os Estados Unidos reconheceram o pedido de consulta brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC) em agosto de 2025, mas entenderam que as alegações brasileiras não poderiam ser revistas por essa organização, pois os motivos pelos quais as tarifas foram aplicadas aos produtos brasileiros estariam relacionados à segurança nacional estadunidense.
A rejeição recente dos Estados Unidos do papel das organizações internacionais e do multilateralismo na agenda de comércio internacional é mais um capítulo da crise da ordem internacional liberal que se manifestou ainda no primeiro governo Trump (2017-2021). A ordem internacional corresponde ao conjunto de instituições internacionais que contribuem para governar as interações entre os países, conforme a definição de John Mearsheimer (2019). Para esse autor, as instituições internacionais são a base da ordem internacional e correspondem às regras criadas pelas grandes potências para orientar o comportamento dos Estados no sistema internacional. Essas regras foram escritas de acordo com os interesses dessas potências, como os Estados Unidos. O mundo atual é complexo e caracterizado pela interdependência entre Estados, que estão envolvidos em diversas atividades econômicas e dependem uns dos outros em diversos temas da agenda internacional, como meio ambiente e saúde. As mudanças climáticas e suas consequências negativas geram a necessidade de cooperação e colaboração entre os Estados. Como pudemos observar na pandemia da Covid-19, as soluções para a superação da emergência de saúde global implicaram a cooperação entre os Estados. Essa cooperação funcionou de forma imperfeita com inúmeros questionamentos à Organização Mundial de Saúde e sob o efeito das desigualdades econômicas e tecnológicas profundas que separam os países da comunidade internacional, gerando acesso desigual aos recursos, aos equipamentos e às vacinas necessários para o enfrentamento da pandemia.
O problema é quando um dos principais artífices da ordem internacional, os Estados Unidos, resolvem jogar fora das regras criadas por eles mesmos, como vem ocorrendo na agenda de comércio internacional. As tarifas impostas pelo segundo governo Trump contrariam regras do comércio internacional, conforme o Brasil procurou mostrar na consulta realizada à OMC em julho de 2025. Essa consulta visava questionar tarifas impostas aos produtos brasileiros e chegaram a um percentual de 50%. Trata-se de um contexto que impacta de forma negativa o multilateralismo. Esse contexto de crise da ordem internacional liberal é importante para se pensar a inserção internacional do Brasil nesse momento e pode influenciar as orientações da política externa brasileira nos próximos anos.
Diferentes analistas de política externa brasileira, como Dawisson Belém Lopes em livro recente (2025), destacaram que a atuação internacional do Brasil é caracterizada pela valorização do Direito Internacional, pela ênfase na cooperação por meio de regimes e organizações internacionais e pela busca de soluções pacíficas para os conflitos internacionais, soluções que deveriam ser construídas por intermédio da diplomacia e da negociação. Esses elementos característicos da política externa brasileira foram incorporados à Constituição de 1988. A opção pelo multilateralismo, isto é, pela possibilidade de o Brasil exercer influência nas instituições e processos multilaterais, é uma forma de compensar os limitados recursos militares e econômicos do país. Um contexto internacional caracterizado pela reconhecida importância de regras e instituições reguladoras do comportamento dos Estados é favorável à inserção internacional do Brasil, conforme destacavam diferentes analistas da política externa brasileira, como Gelson Fonseca Jr. (1998). Eles enxergavam esse cenário favorável nos anos 1990. O Brasil seria um país com capacidade relativa de exercer influência no sistema internacional, sobretudo nos foros internacionais onde prevalece o princípio da igualdade de participação, podendo atuar como mediador entre as grandes e pequenas potências segundo a análise de Maria Regina Soares de Lima (2005).
Alguns elementos do contexto internacional recente impactam as estratégias de inserção do Brasil. O primeiro deles está relacionada aos questionamentos endereçados à ordem internacional e sua limitada capacidade de lidar com desafios complexos, como os conflitos internacionais, a pandemia e seus impactos sociais e econômicos e os problemas do aquecimento global cujo enfrentamento demanda maior participação e envolvimento das grandes potências. O segundo deles se refere ao anacronismo das instituições e organizações internacionais criadas no pós-Segunda Guerra Mundial, que não refletem mais as configurações de poder atuais do sistema internacional. É o caso, por exemplo, do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Cinco países são membros permanentes com possibilidade de vetar decisões que precisam ser tomadas no âmbito desse órgão: Reino Unido, China, Estados Unidos, Rússia e França. Esses países podem embaraçar a tomada de decisões dentro do Conselho, tornando esse órgão incapaz de aprovar resoluções cujo objetivo seria buscar saídas para os atuais conflitos internacionais, como o da Rússia contra a Ucrânia e o de Israel contra o Hamas, com consequências negativas para as populações que vivem na Faixa de Gaza, onde há estimativas, em outubro de 2025, de cerca de 67 mil mortos por esse conflito, conflito que persiste diante da inação da comunidade internacional. O terceiro elemento refere-se ao surgimento de arranjos internacionais constituídos por alianças entre países com interesses comuns, como é o caso do BRICS – formado nos anos 2000 por Brasil, Rússia, Índia e China; mais tarde, em 2011, a África do Sul ingressou no grupo; e, em 2023, o BRICS incorporou 6 novos países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia, Indonésia e Irã (https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics/dados-sobre-o-brics). Por fim, a perda de apoio dos Estados Unidos à ordem internacional, criada e mantida por eles desde o final da Segunda Guerra Mundial, impacta negativamente as possibilidades de funcionamento dessa ordem e a capacidade que ela teria de buscar alternativas para os problemas complexos do contexto internacional recente.
Esse conjunto de elementos indica os desafios mais complexos da inserção internacional do Brasil nesse momento – mais complexos quando comparados aos existentes nos anos 1990, quando os Estados Unidos sustentaram e validaram as regras existentes na ordem internacional liberal. No contexto dos anos 1990, os EUA exerceram liderança decisiva, além da responsabilidade de continuar mantendo parte dos orçamentos das principais organizações internacionais dessa ordem, como as organizações do sistema ONU, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. A opção brasileira pelo multilateralismo permanece acertada, considerando os elementos que caracterizam historicamente nossa política externa. No entanto, essa opção agora tenta se adequar a um novo cenário, que requer a construção de estratégias alternativas de inserção internacional por meio de fóruns e arranjos institucionais como o BRICS, menos dependentes das principais organizações intergovernamentais que integram a ordem internacional. A opção pelo multilateralismo requer a atuação da diplomacia brasileira que precisa lidar com novos desafios e tarefas, conforme sugeriu a análise de Dawisson Belém Lopes na entrevista concedida ao Boletim Acauã em outubro de 2025. Essa opção precisa ser avaliada num contexto de contestação da legitimidade das organizações intergovernamentais da ordem internacional liberal.
Referências:
FONSECA Jr., Gelson. A Legitimidade e outras questões internacionais. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
LIMA, Maria Regina Soares de. A política externa brasileira e os desafios da cooperação Sul-Sul. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, 48(1): 24-59, 2005.
LOPES, Dawisson Belém. De Bonifácio a Amorim – Elementos de uma teoria social da política externa brasileira. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2025.
MEARSHEIMER, John. Bound to Fail: The Rise and Fall of the Liberal International Order. International Security 43(4): 7-50, 2019.