Biotecnologia, dignidade menstrual e biomateriais: absorventes biodegradáveis e seus efeitos sociais e ambientais

Objetivo: Apresentar um caso real descrito na literatura científica, em linguagem acessível ao público geral, mostrando como a biotecnologia contribui para o desenvolvimento sustentável e a igualdade de gênero e se conecta ao ODS 5 por meio do desenvolvimento de absorventes biodegradáveis de baixo custo.

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Adrianno Anselmo Amaro

Aluno de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

A desigualdade de gênero também se expressa em barreiras materiais do cotidiano. Entre elas, a pobreza menstrual, falta de acesso a produtos, informação e infraestrutura adequada, pode afetar a frequência escolar, a participação social e a permanência de meninas e mulheres em atividades educacionais e profissionais (Sanyanda et al., 2026). Ao mesmo tempo, existe um componente ambiental relevante: absorventes descartáveis convencionais geram resíduos persistentes, e alternativas biodegradáveis têm sido propostas como resposta para reduzir lixo plástico e poluição (Schwartz, 2024).

Nesse cenário, Pawar e colaboradores publicaram o artigo “Affordable, biodegradable, and environmentally friendly sanitary napkins for rural women, with a focus on degradation study” (2024, Results in Engineering), um estudo de desenvolvimento e avaliação de um absorvente biodegradável concebido para contextos rurais (Pawar et al., 2024). Segundo os autores, a proposta seria “absorventes higiênicos de baixo custo, que são ecológicos, têm boa capacidade de absorção, são higiênicos e podem ser facilmente preparados por mulheres rurais em casa com treinamento mínimo.” (Pawar et al., 2024). Em outras palavras, trata-se de uma abordagem de biomateriais com testes para demonstrar desempenho e degradabilidade.

Nesse sentido, a biotecnologia aparece no desenho racional de materiais e na combinação de componentes biodegradáveis com propriedades específicas para cumprir funções (absorver, reter e manter conforto). O artigo descreve o uso de recursos naturais (como fibras de bananeira e tecido de algodão) e a avaliação por medidas como capacidade de absorção, retenção, wetback (retorno de umidade) e biodegradabilidade (Pawar et al., 2024). São reportados os valores comparativos do teste de absorção em 3 horas: polímero superabsorvente (~140 g), carboximetilcelulose (~60 g) e absorvente padrão não tratado (~45–50 g) (Pawar et al., 2024). O estudo também menciona o uso de extratos naturais com ação antibacteriana (como cúrcuma e neem), incorporados ao desenho do produto com objetivo de contribuir para higiene (Pawar et al., 2024).

O impacto social potencial pode ser discutido por duas vias complementares. A primeira é acesso: reduzir custo e barreiras logísticas tende a ampliar a disponibilidade de produtos de manejo menstrual, favorecendo permanência escolar e participação social, coerente com evidências que relacionam provisão de produtos a absenteísmo em adolescentes em contextos de vulnerabilidade (Sanyanda et al., 2026). A segunda é ambiental: substituir parte de materiais persistentes por alternativas biodegradáveis pode reduzir o passivo de resíduos, sobretudo onde a coleta e o tratamento de lixo são insuficientes (Schwartz, 2024).

Como limitação, é importante separar “prova de conceito” de “efeito social garantido”. Um produto com bom desempenho em testes não assegura, por si só, redução de desigualdades: resultados sociais dependem de custo final, aceitação, segurança, controle de qualidade, escala de produção, distribuição e educação em saúde menstrual (Pawar et al., 2024). Além disso, a sustentabilidade de um produto biodegradável depende das condições reais de descarte e de aspectos do ciclo de vida dos insumos (Schwartz, 2024).

Figura 1 —  Infográfico simplificado do absorvente de Pawar et al., 2024.  Fonte: Imagem gerada com auxílio da inteligência artificial NotebookLM, autoria própria, 2026.

No Brasil, há iniciativas empíricas que dialogam com esse tema tanto no eixo de política pública quanto no de inovação. O Ministério da Saúde descreve o programa Dignidade Menstrual, voltado ao acesso a absorventes e a informações para vivenciar o ciclo com segurança e dignidade (Brasil, s.d.). Normas como a Portaria GM/MS nº 3.076/2024 detalham critérios e procedimentos de disponibilização gratuita e monitoramento (Brasil, 2024). No eixo tecnológico, a Revista Pesquisa FAPESP reporta um protótipo de absorvente biodegradável no país e discute materiais e objetivo de reduzir lixo plástico (Schwartz, 2024).

Em síntese, o estudo de Pawar et al. (2024) exemplifica como biotecnologia aplicada a biomateriais pode responder simultaneamente a um problema ambiental e a uma barreira social associada à desigualdade de gênero, ao propor absorventes biodegradáveis de baixo custo e avaliar desempenho e degradabilidade (Pawar et al., 2024). Ao reduzir obstáculos materiais ligados à menstruação e ao buscar alternativas menos poluentes, esse tipo de inovação se alinha ao ODS 5 (Igualdade de gênero) por ampliar condições de participação educacional e social e favorecer soluções mais sustentáveis (Sanyanda et al., 2026; Schwartz, 2024).

Referência:

BRASIL. Ministério da Saúde. Dignidade Menstrual. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/dignidade-menstrual. Acesso em: 05 abr. 2026. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.076, de 15 de janeiro de 2024. Dispõe sobre a execução, os critérios, os procedimentos e o monitoramento da disponibilização gratuita de absorventes higiênicos e dá outras providências. Saúde Legis (BVS/MS), Brasília, DF, 17 jan. 2024. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2024/prt3076_17_01_2024.html. Acesso em: 05 abr. 2026.

PAWAR, S. et al. Affordable, biodegradable, and environmentally friendly sanitary napkins for rural women, with a focus on degradation study. Results in Engineering, v. 24, 2024, art. 102988. DOI: 10.1016/j.rineng.2024.102988. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S259012302401243X. Acesso em: 05 abr. 2026.

 

SANYANDA, L. et al. Provision of menstrual products lowers school absenteeism in adolescent girls in coastal Kenya: findings from a quasi experimental study. Frontiers in Reproductive Health, v. 8, 2026, art. 1717803. DOI: 10.3389/frph.2026.1717803. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/reproductive-health/articles/10.3389/frph.2026.1717803/full. Acesso em: 05 abr. 2026.

SCHWARTZ, Carolina. Absorvente menstrual biodegradável é alternativa menos poluente. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo, 06 mar. 2024. Atualizado em: 16 abr. 2024. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/absorvente-menstrual-biodegradavel-e-alternativa-menos-poluente/. Acesso em: 05 abr. 2026.