Biotecnologia a ciência por trás do sucesso da ODS 6: Garantir o acesso à água e ao saneamento para todos
Objetivo: Este texto tem como objetivo apresentar, de forma acessível e fundamentada em evidências científicas recentes, como as inovações em biotecnologia estão contribuindo para o alcance do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) da ONU: Garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e o saneamento para todos.
Eloísa Barbosa dos Santos
Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
O acesso à água potável e ao saneamento seguro é reconhecido pelas Nações Unidas como um direito humano fundamental. No entanto, o cenário global ainda sofre com o acesso a saneamento básico, uma vez que estima-se que cerca de 2 bilhões de pessoas ainda consomem água contaminada por poluentes químicos ou biológicos, e quase 80% das águas residuárias do mundo sejam descartadas na natureza sem o tratamento adequado [1]. Os poluentes emergentes, como resíduos farmacêuticos, microplásticos e os chamados “compostos eternos” (PFAS), desafiam os métodos convencionais de purificação. Através do uso de organismos vivos (bactérias, fungos e microalgas) é possível degradar, transformar e remover contaminantes de forma sustentável e econômica. Este processo, conhecido como biorremediação, utiliza o metabolismo natural desses seres para “limpar” o meio ambiente, transformando substâncias tóxicas em compostos inofensivos.
A bioaumentação consiste em introduzir microrganismos específicos, altamente eficientes nadegradação de certos poluentes, em sistemas de tratamento. Estudos recentes demonstraram que o uso de consórcios bacterianos (grupos de diferentes espécies trabalhando juntas) pode remover até 95% de resíduos farmacêuticos e reduzir a carga de microplásticos em até 80% em sistemas controlados [1]. Já a bioestimulação foca em ajustar o ambiente (nutrientes, pH) para que os microrganismos já presentes na água trabalhem com sua capacidade máxima.
Já as microalgas têm se mostrado uma solução de “múltiplo benefício” para o ODS 6. Elas não apenas removem nutrientes em excesso (como nitrogênio e fósforo, que causam a morte de rios), mas também capturam dióxido de carbono (CO2) e podem ser transformadas em biocombustíveis após o uso [2]. Ainda está sendo estudado que biorreatores de microalgas permitem o tratamento de águas residuárias industriais complexas, que antes eram consideradas intratáveis por meios biológicos.
Por fim, a ciência agora utiliza ferramentas como o CRISPR-Cas9 para “programar” microrganismos para que eles identifiquem e destruam poluentes específicos com maior precisão [1]. Além disso, as tecnologias “omicas” (como a metagenômica) permitem que os cientistas mapeiam todo o DNA de uma comunidade microbiana em um rio contaminado, entendendo exatamente quais seres estão ali e como podem ser estimulados para restaurar a qualidade da água [3].
A integração de tecnologias biotecnológicas avançadas nos sistemas de saneamento é essencial para atingir as metas do ODS 6 até 2030. Diferente dos métodos físico-químicos tradicionais, que muitas vezes exigem alto consumo de energia e geram resíduos secundários, a biotecnologia oferece uma alternativa de baixo impacto ambiental e custo-efetiva. O desafio agora reside na escalabilidade dessas soluções e na sua implementação em regiões que sofrem com a escassez de saneamento básico. Ao unirmos a sabedoria da natureza com a precisão da engenharia genética, estamos um passo mais próximos de garantir água limpa para todos.
Referência:
[1] MISHRA, T. et al. Advances in Microbial Bioremediation for Effective Wastewater Treatment. Water, v. 17, n.22, p.3196, 2025. Disponível em:https://doi.org/10.3390/w17223196.
[2] RAJENDRAKUMAR, S. Drivers and barriers towards achieving SDG 6 on clean water and sanitation. ScienceDirect, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.envsci.2025.103987.
[3] PEGU, D. et al. Sustainable bioremediation through microbial community engineering. Sustainable Microbiology, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13213-025-01831-9.