Produção de biogás a partir de resíduos orgânicos: uma solução biotecnológica para energia sustentável

Objetivo: Analisar como a produção de biogás por meio da digestão anaeróbia de resíduos orgânicos pode ser considerada uma alternativa biotecnológica eficiente para geração de energia limpa, contribuindo para os objetivos da ODS 7.

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Ana Clara Gomes Vieira

Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

Atualmente, um dos grandes desafios da sociedade é encontrar formas de produzir energia sem agravar os impactos ambientais. O uso de combustíveis fósseis, além de ser limitado, está diretamente relacionado à emissão de gases de efeito estufa. Nesse contexto, a ODS 7, proposta pelas Nações Unidas, reforça a necessidade urgente de garantir fontes de energia limpas, acessíveis e sustentáveis. É nesse cenário que o biogás se destaca como uma alternativa promissora.

O biogás é um combustível renovável produzido a partir da decomposição de matéria orgânica na ausência de oxigênio, em um processo chamado digestão anaeróbia.  Esse gás é composto principalmente por metano (CH₄), que é o mesmo componente presente no gás natural, o que permite seu uso para geração de energia térmica e elétrica. Esse processo pode ocorrer naturalmente, mas é frequentemente realizado de forma controlada em biodigestores, o que aumenta sua eficiência e permite melhor aproveitamento energético (CHERNICHARO, 2007).

Figura 1 —  Esquema do processo de biodigestão. Fonte: AGUILAR, 2021.

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 produção de biogás está diretamente ligada à biotecnologia, já que depende da ação de microrganismos para acontecer. Esse processo ocorre em quatro etapas, chamadas de hidrólise, acidogênese, acetogênese e metanogênese. Na hidrólise, compostos orgânicos mais complexos, como carboidratos, proteínas e lipídios, são quebrados em moléculas menores. Depois, na acidogênese, essas moléculas são transformadas em ácidos graxos, dióxido de carbono (CO₂) e hidrogênio (H₂). Em seguida, na acetogênese, esses compostos são convertidos principalmente em acetato, CO₂ e H₂. Por fim, na metanogênese, arqueias transformam o acetato ou o CO₂ e o H₂ em metano (CH₄), que é o principal componente do biogás. Esse conjunto de reações biológicas mostra como a biotecnologia utiliza sistemas vivos para gerar produtos úteis, neste caso, energia (CHANDRA; TAKEUCHI; HASEGAWA, 2012).

Além disso, é possível melhorar ainda mais a eficiência da produção por meio de estratégias biotecnológicas, como a seleção de microrganismos mais eficientes e a combinação de diferentes resíduos orgânicos. Essas técnicas permitem aumentar a produção de metano e tornar o processo mais estável e viável em larga escala (APPELS et al., 2008).

A importância do biogás vai além da geração de energia. Ele também contribui para a redução de resíduos, já que reaproveita materiais que normalmente seriam descartados, como restos de alimentos, esterco e resíduos agrícolas. Isso reduz a poluição ambiental e diminui a emissão de gases nocivos. Além disso, em comunidades rurais ou regiões com acesso limitado à energia, o uso de biodigestores pode representar uma solução acessível e eficiente, promovendo maior autonomia energética.

Diante disso, torna-se evidente a necessidade de expandir o uso de fontes como o biogás. Com o aumento da população e da demanda energética global, torna-se cada vez mais necessário investir em alternativas sustentáveis. A digestão anaeróbia se destaca como uma das tecnologias mais promissoras para integrar produção de energia e tratamento de resíduos, sendo uma estratégia importante para um futuro mais sustentável (WARD et al., 2008). Diante dos desafios energéticos atuais, investir em tecnologias como a produção de biogás não é apenas uma alternativa, mas uma necessidade para construir um modelo energético mais sustentável e alinhado com os objetivos da ODS 7.

Referência:

AGUILAR, Tarsila Zandoná. Implantação e avaliação de biodigestor para aproveitamento de biogás e biofertilizante nas zonas urbana e rural de Boa Vista – RR. 2021. 59 f. Dissertação (Mestrado em Recursos Naturais) – Universidade Federal de Roraima, Boa Vista, 2021.

APPELS, L. et al. Principles and potential of the anaerobic digestion of waste-activated sludge. Progress in Energy and Combustion Science, v. 34, n. 6, p. 755–781, 2008.

CHANDRA, R.; TAKEUCHI, H.; HASEGAWA, T. Methane production from lignocellulosic agricultural crop wastes: a review. Biotechnology Advances, v. 30, n. 6, p. 1343–1352, 2012.

 

CHERNICHARO, C. A. L. Princípios do tratamento biológico de águas residuárias: reatores anaeróbios. Belo Horizonte: UFMG, 2007.

UNITED NATIONS. Sustainable Development Goal 7: Affordable and Clean Energy. Disponível em: https://sdgs.un.org.

WARD, A. J. et al. Optimisation of the anaerobic digestion of agricultural resources. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 12, n. 3, p. 592–606, 2008.