Bioeconomia na Amazônia: ciência, inovação, regulação e desenvolvimento sustentável no Brasil

Objetivo: Analisar o papel da bioeconomia amazônica como estratégia de fortalecimento da inovação científica e da industrialização sustentável no Brasil, destacando o seu histórico e sua contribuição para o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica e para o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura).

O que é bioeconomia?

O Brasil é o país com maior biodiversidade do mundo, abrigando mais de 20% do total de espécies do planeta. Uma parte significativa dessas se encontra na Floresta Amazônica, a maior floresta tropical úmida do mundo [1]. Essa riqueza biológica representa um enorme potencial para a biotecnologia e para o fortalecimento da bioeconomia — um modelo produtivo baseado no uso sustentável de recursos biológicos.

Dentro do contexto do ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura, a bioeconomia surge como uma estratégia capaz de transformar a biodiversidade em tecnologia, conhecimento e novos setores industriais sustentáveis.

A bioeconomia pode ser entendida como a produção de bens e serviços a partir de recursos biológicos, utilizando ciência, tecnologia e inovação para gerar valor de forma sustentável [2].

Na prática, isso inclui:

  • Agronegócio (plantas, animais  e  as  aplicações  veterinárias);
  • Produção  de  biocombustíveis;
  • Biotecnologia industrial (produtos químicos, bioplásticos e enzimas);
  • Aplicações ambientais (biorremediação, biossensores);
  • Saúde humana (vacinas, fármacos e biofármacos).

Diferentemente do extrativismo tradicional, a bioeconomia visa a conservação da biodiversidade, evitando a sobre-exploração (utilização excessiva de recursos naturais) e, consequentemente, garantindo o equilíbrio do ecossistema [2].

Histórico da bioeconomia amazônica

Historicamente, a Amazônia sempre foi palco do extrativismo com viés econômico. Isso começou com as chamadas “drogas  do  sertão”, ainda no Brasil colonial, e, sucessivamente,  com as economias da  borracha  extrativa, da castanha-do-pará,  da madeira, entre  outras. Essas atividades, no entanto, não  conseguiram consolidar um modelo permanente de desenvolvimento para a região, sendo logo substituídas por outros produtos, pelas ofertas advindas de plantios especializados, pelo aparecimento de substitutos sintéticos/naturais, ou simplesmente extintas pelo esgotamento [3]. A bioeconomia surge, portanto, como uma alternativa a esse extrativismo histórico, aliando desenvolvimento econômico e preservação ambiental e gerando desenvolvimento social para a região, por meio de novas alternativas de renda e emprego.

Figura 1 — Processo artesanal de coleta da seiva da seringueira para fabricação da borracha. Fonte: BBC, 2023. <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cmmeremj267o>

O primeiro esforço federal moderno e institucionalizado para o desenvolvimento de pesquisas do meio natural e das condições de vida da região amazônica veio em 1952, com a criação do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA). Nos primeiros anos, o INPA teve papel importante na ampliação da caracterização da fauna e flora da região. Atualmente, o foco do instituto é expandir de forma sustentável o uso dos recursos naturais da Amazônia, estando diretamente ligado ao desenvolvimento bioeconômico.

Um marco legal importante ocorreu em 2001, com a Medida Provisória nº 2.186-16/2001. Sendo a primeira lei brasileira que regulamentou a exploração e o uso do patrimônio genético, bem como o uso dos conhecimentos tradicionais associados.

Essa Medida Provisória foi revogada em 2015, pela Lei nº 13.123/2015, a Lei da Biodiversidade. Essa lei aperfeiçoou  a  legislação  de  acesso  ao  patrimônio  genético e  estimulou  o desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis. Além disso, regulamentou a criação do Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen), que facilitou o uso das informações genéticas dos organismos por pesquisadores e centros de pesquisa através de uma plataforma online credenciada.

Inovação na prática

Atualmente, diversas instituições públicas e privadas desenvolvem atividades bioeconômicas na Amazônia. Um exemplo é a atuação da Embrapa, bastante robusta na Amazônia Legal: são nove unidades de pesquisa, que reúnem 335 pesquisadores e 220 projetos em execução, abrangendo investimentos da ordem de R$85,7 milhões. Um exemplo prático dessa atuação é o projeto para desenvolvimento de técnicas sustentáveis para o aumento da produtividade dos cupuaçuzeiros. Recentemente foi publicado o livro “O cupuaçuzeiro na Amazônia: ciência, tecnologia e produção”, nele são descritas técnicas como a hibridação interespecífica, a aplicação em sistemas agroflorestais e o melhoramento genético, inovações extremamente relevantes para uma produção mais sustentável [5].

Figura 2 — Plantio de cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum) na Área Experimental da Embrapa Amazônia Oriental, Belém, PA. Fonte: Embrapa, 2025.

Referência:

[1] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Biodiversidade e Biomas. Disponível em: <https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade-e-biomas#:~:text=O%20Brasil%20ocupa%20quase%20metade,e%20tr%C3%AAs%20grandes%20ecossistemas%20marinhos>. Acesso em: 3 mar. 2026.

[2] BARBOSA, M. de O. et al. Bioeconomia: Um novo caminho para a sustentabilidade na Amazônia? Research, Society and Development, v. 10, n. 10, 2021. Disponível em: <https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/18545>. Acesso em: 3 mar. 2026.

[3] KINGO, A. O diálogo com a floresta: qual é o limite da bioeconomia na Amazônia? Research, Society and Development, v. 11, n. 4, 2022. Disponível em: <https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/27555>. Acesso em: 3 Mar. 2026.

 

[4] LOPES, D. B. et al. Visões sobre bioeconomia na Amazônia: Oportunidades e desafios para a atuação da Embrapa. 1ª ed. Brasília, DF: Editora Embrapa, 2023. Disponível em: <https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1155733/visoes-sobre-bioeconomia-na-amazonia-oportunidades-e-desafios-para-a-atuacao-da-embrapa>. Acesso em: 3 mar. 2026.

[5] BENCHIMOL, R. L.; SILVA, C. M. da; MELO, B. do V. A. O cupuaçuzeiro na Amazônia: ciência, tecnologia e produção. 1ª ed. Embrapa Amazônia Oriental: Editora Embrapa, 2025. Disponível em: <https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1175355/o-cupuacuzeiro-na-amazonia-ciencia-tecnologia-e-producao#:~:text=Observa%C3%A7%C3%B5es,Windows%20e%20Linux:%20software%20Calibre>. Acesso em: 3 mar. 2026.