Algodão biotecnológico com maior resistência à pragas contribuiu para redução da pobreza no Paquistão

Objetivo: Apresentar um caso real descrito na literatura científica, em linguagem acessível ao público geral, mostrando como a biotecnologia contribui para o desenvolvimento sustentável e se conecta ao ODS 1 ao reduzir a vulnerabilidade social de agricultores paquistaneses por meio do uso de linhagens transgênicas de algodão mais resistentes a pragas.

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Adrianno Anselmo Amaro

Aluno de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

Quando uma praga derruba a produção, o prejuízo não fica “na lavoura”: ele vira aperto no orçamento, dívida e menos margem para investir no próximo ciclo. Em economias agrárias, onde o algodão sustenta parte importante da renda rural, reduzir perdas e custos de produção pode ter efeito direto no bem-estar das famílias.

A biotecnologia constitui qualquer aplicação tecnológica que use sistemas biológicos, organismos vivos ou seus derivados para fabricar ou modificar produtos ou processos para um uso específico. Nesse campo estão os transgênicos agrícolas: plantas que recebem um gene para expressar uma característica desejada. Em linhas gerais, esse gene é inserido em células vegetais por técnicas de transformação, as células transformadas são regeneradas em plantas e a linhagem é testada para confirmar estabilidade e desempenho em campo.

Descrito por Ali & Abdulai (2010, Journal of Agricultural Economics),o objetivo do artigo é medir, com dados, o que muda em produtividade, uso de pesticidas, renda e pobreza quando essa adoção ocorre. O algodão Bt incorpora genes derivados de Bacillus thuringiensis (Bt), permitindo que a planta produza proteínas Cry com ação contra certas pragas-alvo. A promessa agronômica é reduzir o dano por insetos e diminuir parte do gasto com inseticidas. Isso não significa “zerar” pesticidas: há pragas não controladas pela proteína Bt, e o manejo continua necessário, inclusive para reduzir o risco de evolução de resistência.

Figura 1 —  Simplificação da transformação da célula de algodão.  Fonte: Imagem gerada por inteligência artificial NotebookLM.

Para estimar efeitos socioeconômicos, os autores analisaram 325 agricultores na província de Punjab, comparando adotantes e não adotantes. Como a adoção não foi “sorteada”, aplicaram um modelo de escore de propensão e técnicas de pareamento para tornar os grupos mais comparáveis e reduzir o viés. Após o pareamento, os resultados indicam ganhos de produtividade de aproximadamente 50–62 kg por acre, redução no uso de pesticidas na faixa de 0,62–0,68 L por acre e aumento de renda domiciliar em torno de 16.500–17.000 rupias (em torno de 950 a 1000 reais em valores de março de 2026) para adotantes. O estudo também estima que a probabilidade de um domicílio ser classificado como pobre foi menor em cerca de 11–14% entre os adotantes.

Como limitação, trata-se de um estudo observacional: ainda pode haver fatores não medidos influenciando quem adota e os resultados. Mesmo assim, o encadeamento econômico é claro: menos perdas e menor custo de controle tendem a elevar a renda líquida e a reduzir a vulnerabilidade.

Em conclusão, a ODS 1 faz um apelo global para medidas que reduzam a pobreza e a vulnerabilidade socioeconômica. Culturas biotecnológicas podem aumentar a renda agrícola, com benefícios especialmente relevantes para pequenos agricultores por meio de maior produtividade e custos influenciando renda, e por consequência, reduzindo a pobreza.

Referência:

ALI, A.; ABDULAI, A. The Adoption of Genetically Modified Cotton and Poverty Reduction in Pakistan. Journal of Agricultural Economics, v. 61, n. 1, p. 175–192, fev. 2010.