Vacinas de mRNA: uma nova era na prevenção de doenças
Objetivo: Informar como as vacinas de RNA mensageiro (mRNA) funcionam, seu papel no combate à pandemia de COVID-19 e seu potencial para revolucionar a prevenção de doenças, contribuindo para os objetivos do ODS 3 (Saúde e Bem-estar).
Ana Clara Gomes Vieira
Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
As vacinas constituem uma das ferramentas mais eficazes para prevenir doenças infecciosas e proteger a saúde pública. Ao longo da história, campanhas de vacinação contribuíram significativamente para reduzir a incidência e a mortalidade de diversas enfermidades, incluindo varíola, poliomielite e sarampo [1]. Nesse contexto, o desenvolvimento de novas tecnologias vacinais é essencial para enfrentar desafios emergentes na saúde global.
Nos últimos anos, uma inovação importante ganhou destaque na área da biotecnologia: as vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA). Essa tecnologia representa um avanço relevante para o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (ODS 3), que busca assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas as pessoas. Entre as metas desse objetivo, a meta 3.b destaca a importância de apoiar a pesquisa, o desenvolvimento e o acesso a vacinas seguras e eficazes [2].
O RNA mensageiro é uma molécula naturalmente presente nas células e desempenha um papel fundamental na expressão gênica, transportando informações do DNA para a produção de proteínas. As vacinas de mRNA exploram esse mecanismo biológico para estimular o sistema imunológico [3]. Em vez de introduzir no organismo um vírus enfraquecido ou inativado, como ocorre em muitas vacinas tradicionais, essas vacinas contêm uma pequena sequência de mRNA que codifica uma proteína específica do patógeno. Após a administração da vacina, as células do próprio organismo passam a produzir temporariamente essa proteína, permitindo que o sistema imunológico a reconheça e desenvolva uma resposta de defesa contra o agente infeccioso [4].
Nos últimos anos, as vacinas de RNA mensageiro tornaram-se amplamente conhecidas devido ao seu uso durante a pandemia de COVID-19. Essa tecnologia possibilitou o desenvolvimento de imunizantes em um intervalo de tempo significativamente menor quando comparado aos métodos tradicionais de produção de vacinas. Como a sequência genética do patógeno pode ser sintetizada rapidamente em laboratório, novas formulações vacinais podem ser produzidas com maior rapidez em situações de emergência sanitária [5].
Figura 1 — Frasco contendo vacina de mRNA utilizada na prevenção da COVID-19. Fonte: Agência Câmara de Notícias
Outra característica importante dessa tecnologia é sua elevada flexibilidade. As vacinas de mRNA podem ser modificadas para incorporar novas sequências genéticas, permitindo a adaptação a mutações virais ou ao surgimento de novas variantes de patógenos [3]. Essa capacidade de atualização torna a plataforma especialmente relevante para o enfrentamento de futuras epidemias e pandemias.
Além do combate ao coronavírus, a tecnologia de mRNA apresenta grande potencial para diversas aplicações médicas. Pesquisadores em todo o mundo investigam o uso dessa plataforma para o desenvolvimento de vacinas contra doenças como influenza, HIV e vírus sincicial respiratório [3]. Paralelamente, estudos recentes também exploram sua aplicação na oncologia, especialmente no desenvolvimento de vacinas terapêuticas personalizadas capazes de estimular o sistema imunológico a reconhecer e destruir células tumorais específicas de cada paciente [7].
Apesar dos avanços científicos, ainda existem desafios associados ao uso dessa tecnologia. Muitas vacinas de mRNA precisam de armazenamento em temperaturas muito baixas, que podem variar entre -20°C e -80°C, o que torna sua distribuição mais complexa, principalmente em regiões com infraestrutura limitada [8,9]. Além disso, fatores sociais também podem impactar a eficácia das campanhas de vacinação. A disseminação de notícias falsas sobre esse meio de imunização, conhecido como “infodemia,” pode influenciar negativamente a confiança da população e diminuir a adesão aos programas de vacinação. [10]
Dessa forma, as vacinas de mRNA representam um marco importante no avanço da biotecnologia e da medicina contemporânea. Seu desenvolvimento demonstra como a pesquisa científica pode contribuir diretamente para a prevenção de doenças, o fortalecimento dos sistemas de saúde e a melhoria da qualidade de vida da população. Assim, essa tecnologia se alinha aos objetivos do ODS 3 ao incentivar a criação de soluções inovadoras capazes de promover uma saúde global mais equitativa e sustentável.
Referência:
[1] WORLD HEALTH ORGANIZATION. Vaccines and immunization. Genebra: WHO, 2023.
[2] UNITED NATIONS. Sustainable Development Goal 3: Good Health and Well-Being. Nova York: ONU, 2023.
[3] PARDI, N. et al. mRNA vaccines — a new era in vaccinology. Nature Reviews Drug Discovery, v. 17, p. 261-279, 2018.
[4] NATIONAL INSTITUTES OF HEALTH. Understanding mRNA COVID-19 vaccines. Bethesda: NIH, 2022.
[5] SAHIN, U.; KARIKÓ, K.; TÜRECI, Ö. mRNA-based therapeutics: developing a new class of drugs. Nature Reviews Drug Discovery, v. 13, p. 759-780, 2014.
[6] SINTRA, Rui. O sucesso da vacina RNA contra a COVID-19: Nanomedicina em destaque. São Carlos: Portal IFSC, 8 abr. 2021. Disponível em: https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/o-sucesso-da-vacina-rna-contra-a-covid-19/.
[7] BARBOSA, C. et al. mRNA vaccines and cancer immunotherapy. Vaccines, 2021.
[8] UDDIN, M.; RONI, M. Challenges of storage and stability of mRNA-based vaccines. Vaccines, v. 9, 2021.
[9] KIM, H.; CHA, H.; CHEONG, T. Analyzing economic effect on mRNA vaccine inventory management with redistribution policy. Scientific Reports, 2024.
[10] ZAROCOSTAS, J. How to fight an infodemic. The Lancet, v. 395, 2020.