Biotecnologia e a Invisibilidade da Endometriose

Objetivo: Apresentar como o desenvolvimento de métodos diagnósticos não invasivos via biotecnologia pode reduzir o tempo de diagnóstico da endometriose, promovendo a saúde feminina, a produtividade e a igualdade de gênero conforme as metas do ODS 5.

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Bruna Dubugras de Deus

Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

A endometriose é uma condição clínica crônica de natureza inflamatória que afeta aproximadamente 190 milhões de mulheres e pessoas que menstruam em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a patologia caracteriza-se pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, atingindo órgãos como ovários, peritônio e, em casos mais graves, o sistema digestivo e urinário. Apesar de sua prevalência alarmante, a doença é frequentemente subdiagnosticada. O diagnóstico definitivo ainda depende da laparoscopia, um procedimento cirúrgico invasivo realizado sob anestesia geral, o que impõe barreiras físicas, emocionais e econômicas às pacientes  (Zondervan et al., 2018).

Figura 1 Diferença visual entre um útero normal e um útero afetado pela doença. Fonte:  Instituto de Endometriose de Brasília.

Esse cenário resulta em um “abismo diagnóstico” onde o tempo médio de espera para a confirmação da doença varia entre sete e dez anos. De acordo com Agarwal et al., essa demora é alimentada por um viés de gênero sistêmico na medicina, onde a dor pélvica feminina é frequentemente normalizada ou negligenciada. É neste ponto que a biotecnologia intervém como um vetor de mudança social e científica. A busca por métodos de diagnóstico não invasivos, baseados em bioinformática e biologia molecular, representa uma fronteira de inovação que visa substituir o bisturi e procedimentos invasivos por testes de laboratório rápidos e precisos, o que além de garantir maior conforto e segurança à saúde da mulher também amplia o acesso, o que permite que mais mulheres descubram a doença e iniciem o tratamento  de maneira mais rápida.  

No campo da Proteômica, área que estuda o conjunto completo de proteínas produzidas pelas células, os pesquisadores têm se dedicado à identificação de biomarcadores proteicos no sangue periférico. Proteínas como a CA-125, embora já utilizadas, precisam de maior especificidade para o diagnóstico precoce. No entanto, estudos recentes apontam que a análise de assinaturas de citocinas inflamatórias e outras proteínas específicas, como a haptoglobina, pode oferecer um perfil imunológico detalhado da paciente, permitindo a detecção da endometriose em estágios iniciais sem a necessidade de intervenção cirúrgica (Peters et al., 2023).

Outra inovação biotecnológica promissora é o estudo dos microRNAs (miRNAs). Estas pequenas moléculas de RNA não codificante regulam a expressão gênica e podem ser detectadas em fluidos como saliva e sangue. Conforme apontado por Zondervan et al. (2018), a “biópsia líquida” baseada em miRNAs permite identificar padrões moleculares únicos de quem possui a doença. Aliado a isso, o uso de algoritmos de Inteligência Artificial (IA) e aprendizado de máquina permite que biotecnologistas processem grandes volumes de dados genômicos, separando o “ruído” biológico dos sinais reais da endometriose, elevando a precisão diagnóstica a níveis sem precedentes.

A ligação entre a endometriose e o ODS 5 (Igualdade de Gênero) da ONU é muito clara: não dá para falar em igualdade se a saúde das mulheres é deixada para trás. A meta 5.6 da ONU afirma que ter acesso à saúde reprodutiva é um direito básico para que exista justiça entre homens e mulheres. Na prática, quando uma mulher sofre anos com dores sem saber o motivo, sua vida trava: ela perde aulas, tem dificuldades no trabalho e sua saúde emocional fica abalada. Por isso, garantir que a ciência dê prioridade para doenças que afetam apenas as mulheres é uma forma de empoderamento. Afinal, estar saudável é o primeiro passo para que as mulheres possam ocupar seus espaços na sociedade com as mesmas oportunidades que todos os outros.

Concluindo, a biotecnologia voltada para a saúde da mulher é muito mais do que apenas criar exames modernos, é um compromisso com o respeito e a qualidade de vida de milhões de pessoas. Quando desenvolvemos testes simples e acessíveis, devolvemos à mulher o controle sobre seu próprio corpo e sobre o seu futuro. O objetivo final é garantir que a ciência não fique trancada em salas de pesquisa, mas que seja uma ferramenta de mudança que chegue a todos, de forma justa e para todos.

Referência:

AGARWAL, S. K. et al. Clinical diagnosis of endometriosis: a call to action. American Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 220, n. 4, p. 354.e1-354.e12, 2019.

ELA ENDOMETRIOSE. Útero normal x Útero afetado: conheça os locais mais comuns dos focos da endometriose. 2024. Disponível em: https://elaendometriose.com.br/utero-normal-x-utero-afetado-conheca-os-locais-mais-comuns-dos-focos-da-endometriose/. Acesso em: 19 abr. 2026. 

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5: Igualdade de Gênero. Brasília, 2023. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/5.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Endometriosis. Genebra: WHO, 2021.

PETERS, M. et al. Non-invasive diagnosis of endometriosis: Review of current peripheral blood and endometrial biomarkers. Best Practice & Research Clinical Obstetrics & Gynaecology, v. 88, p. 102-115, 2023.

ZONDERVAN, K. T. et al. Endometriosis. Nature Reviews Disease Primers, v. 4, n. 1, p. 1-25, 2018.