Como o desenvolvimento de testes rápidos contribui para a redução da desigualdade?
Objetivo: Apresentar um exemplo real descrito na literatura científica, em linguagem acessível ao público geral, mostrando como a biotecnologia contribui para o desenvolvimento sustentável e se conecta ao ODS 10 ao reduzir custos de testes rápidos para detectar doenças precocemente, contribuindo para que esses testes possam ser mais acessíveis em relação a praticidade e desigualdade econômica.
Enzo Kashiwakura Tamura
Aluno de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
O diagnóstico de doenças é uma etapa essencial para o tratamento adequado dos pacientes e para o controle de surtos e epidemias. Durante muito tempo, a identificação de vírus, bactérias e outros microrganismos dependia principalmente de exames laboratoriais complexos. Esses métodos geralmente exigem equipamentos sofisticados, laboratórios especializados e profissionais treinados (DRAIN et al., 2014). Além disso, muitas vezes as amostras precisam ser enviadas para centros de análise, o que pode fazer com que os resultados demorem horas ou até dias para ficarem prontos (PAI et al., 2012).
Porém, nos últimos anos, os avanços na área da biotecnologia têm possibilitado o desenvolvimento de novas ferramentas diagnósticas conhecidas como testes rápidos ou testes de ponto de atendimento (point-of-care tests). Esses testes são projetados para fornecer resultados em poucos minutos e podem ser realizados diretamente no local onde o paciente está, como em clínicas, postos de saúde ou até mesmo em casa. Essa característica permite que o diagnóstico seja feito de maneira mais ágil, sem depender necessariamente de laboratórios complexos (PAI et al., 2012).
O funcionamento desses testes está diretamente relacionado a técnicas desenvolvidas na biotecnologia, especialmente nas áreas de imunologia e biologia molecular. Essas áreas estudam moléculas presentes nos organismos vivos e as interações entre elas. A partir desse conhecimento, cientistas conseguem desenvolver métodos capazes de identificar substâncias específicas associadas a determinadas doenças, como proteínas de vírus, anticorpos produzidos pelo organismo ou fragmentos de material genético (MAHSHID et al., 2025).
Um exemplo bastante conhecido desse tipo de tecnologia são os testes rápidos utilizados para detectar infecções virais, como HIV ou COVID-19. Muitos desses dispositivos funcionam de maneira semelhante a um teste de gravidez. Uma pequena amostra do paciente, como sangue, saliva ou secreção nasal, é colocada em um dispositivo que contém reagentes biológicos capazes de reconhecer moléculas específicas do agente infeccioso. Caso essas moléculas estejam presentes na amostra, ocorre uma reação química que gera um sinal visível indicando o resultado do teste (PEEL et al., 2014).
Além dos testes baseados em anticorpos, pesquisadores também têm desenvolvido novas ferramentas utilizando biossensores (Figura 1). Biossensores são dispositivos que combinam componentes biológicos com sistemas físicos ou eletrônicos capazes de detectar substâncias específicas. Esses sensores podem reconhecer biomarcadores associados a diferentes doenças e transformar essa detecção em um sinal que pode ser interpretado rapidamente. Em alguns casos, esses dispositivos podem ser integrados a equipamentos portáteis ou até conectados a aplicativos de celulares, facilitando o registro e o monitoramento dos resultados (YAKOH et al., 2022).
Figura 1 — Biossensor utilizado para o diagnóstico de dengue. Fonte: ANDRADE, Rodrigo de Oliveira. Revista Pesquisa FAPESP, 2017.
Outra tecnologia importante no desenvolvimento de testes rápidos envolve sistemas de microfluídica (Figura 2). A microfluídica permite manipular pequenas quantidades de líquidos dentro de dispositivos muito pequenos, que podem funcionar como verdadeiros “laboratórios em miniatura”. Esses sistemas possibilitam que várias etapas de análise sejam realizadas dentro de um único dispositivo portátil, tornando o processo de diagnóstico mais simples e rápido (MAHSHID et al., 2025).
Figura 2 — Dispositivo microfluídico utilizado em sistemas de diagnóstico. Fonte: SANTANA, H. S. Blogs Unicamp, 2021.
Essas tecnologias têm despertado grande interesse na área da saúde porque permitem ampliar as possibilidades de diagnóstico em diferentes contextos. Testes rápidos podem ser utilizados em campanhas de triagem, em unidades básicas de saúde, em atendimentos emergenciais ou em regiões onde não há fácil acesso a laboratórios especializados. Dessa forma, eles podem contribuir para que o diagnóstico de doenças seja realizado de maneira mais rápida e eficiente (PAI et al., 2012).
A importância dessas ferramentas ficou especialmente evidente durante a pandemia de COVID-19. Durante esse período, testes rápidos foram amplamente utilizados em diversos países para identificar pessoas infectadas em pouco tempo. Isso permitiu ampliar a testagem da população e facilitou estratégias de controle da transmissão do vírus (MAHSHID et al., 2025).
Atualmente, pesquisadores continuam trabalhando no desenvolvimento de novas versões desses testes, buscando torná-los cada vez mais sensíveis, rápidos e fáceis de utilizar. Entre os principais objetivos dessas pesquisas estão a redução dos custos de produção, o aumento da precisão dos resultados e a adaptação dessas tecnologias para o diagnóstico de diferentes doenças infecciosas e outras condições de saúde (DRAIN et al., 2014).
Desse modo, o desenvolvimento de testes rápidos é um exemplo claro de como o conhecimento científico pode ser aplicado para criar soluções práticas para a sociedade. Ao combinar conceitos de biologia molecular, imunologia e engenharia de dispositivos, cientistas têm desenvolvido ferramentas capazes de transformar a forma como doenças são diagnosticadas e monitoradas, contribuindo para tornar os sistemas de saúde mais acessíveis, eficientes e menos desiguais.
Referência:
ANDRADE, Rodrigo de Oliveira. Biossensores na medicina. Revista Pesquisa FAPESP, 2017. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/biossensores-na-medicina/. Acesso em: 10 mar. 2026.
DRAIN, Paul K. et al. Diagnostic point-of-care tests in resource-limited settings. The Lancet Infectious Diseases, v. 14, n. 3, p. 239-249, 2014. DOI: 10.1016/S1473-3099(13)70250-0.
MAHSHID, Sahar et al. Advances in point-of-care diagnostics for infectious diseases. Diagnostics, v. 15, 2025.
PAI, Nitika P. et al. Point-of-care testing for infectious diseases: diversity, complexity, and barriers in low- and middle-income countries. PLoS Medicine, v. 9, n. 9, 2012. DOI: 10.1371/journal.pmed.1001306.
PEEL, Tania et al. Improved diagnosis of infectious diseases through point-of-care testing. Clinical Microbiology and Infection, v. 20, n. 6, p. 551-557, 2014.
SANTANA, H. S. Microfluídica: a pequena e bela tecnologia escondida ao nosso redor. Blogs Unicamp, 2021. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/microfluidica-a-pequena-e-bela-tecnologia-escondida-ao-nosso-redor/. Acesso em: 10 mar. 2026.
YAKOH, Araya et al. Electrochemical biosensors for rapid detection of infectious diseases. Chemosensors, v. 10, n. 7, 2022. DOI: 10.3390/chemosensors10070269.