Educação, desigualdade e biotecnologia: desafios para o ODS 4
Objetivo: Evidenciar a relação entre a biotecnologia e o ODS 4, discutindo como a desigualdade no acesso à educação científica impacta o desenvolvimento tecnológico e a participação social.
Elika Yun Jing Tsai
Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
No Brasil e em diversos países em desenvolvimento, o acesso à educação ainda ocorre de forma desigual, especialmente no que se refere à formação científica. Essa realidade contrasta com as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4), proposto pelas Nações Unidas, que prevê a garantia de uma educação inclusiva, equitativa e eficaz para todos [1]. Apesar desse compromisso, grande parte da população não tem acesso a um ensino que possibilite a compreensão de conhecimentos científicos mais complexos.
Essa limitação torna-se ainda mais evidente quando se observa áreas como a biotecnologia. Nesse cenário, a biotecnologia, área essencial para o desenvolvimento de soluções nas áreas da saúde, agricultura e meio ambiente, torna-se menos acessível, tanto em relação à formação de profissionais qualificados quanto à compreensão pública de suas aplicações. Esse contexto impacta diretamente o avanço de tecnologias como a produção de medicamentos por engenharia genética, o desenvolvimento de vacinas e a utilização de organismos geneticamente modificados, limitando seus benefícios para a sociedade.
A dificuldade de acesso ao conhecimento científico não ocorre apenas no ambiente escolar, mas também na forma como a ciência é divulgada, o que contribui para a manutenção de desigualdades no acesso à informação [2]. Como consequência, o conhecimento em áreas como a biotecnologia torna-se restrito a grupos específicos, ampliando desigualdades já existentes.
Figura 1 — Desenvolvimento de atividades em laboratório de biotecnologia. Fonte: Genflow Biosciences, 2026.
Além disso, fatores socioeconômicos influenciam diretamente a inserção em carreiras científicas, refletindo desigualdades estruturais que limitam o acesso a oportunidades educacionais e científicas [3]. Esse cenário impacta diretamente a formação de profissionais em biotecnologia, reduzindo a diversidade e o potencial de inovação nessa área.
A longo prazo, tais desigualdades repercutem diretamente na capacidade de desenvolvimento tecnológico dos países, uma vez que limitam a formação de capital humano qualificado e a produção científica. Relatórios da World Intellectual Property Organization evidenciam que níveis mais elevados de escolarização estão fortemente associados ao aumento da capacidade inovativa, refletida no número de patentes, publicações e tecnologias desenvolvidas [4]. Nesse contexto, países com acesso restrito à educação científica tendem a apresentar menor dinamismo tecnológico e maior dependência de soluções externas, especialmente em áreas estratégicas como a biotecnologia. Conforme apontado pelo United Nations Development Programme, a desigualdade educacional compromete não apenas o desenvolvimento econômico, mas também a autonomia científica e a capacidade de resposta a desafios sociais e sanitários [5].
Outro impacto relevante dessa desigualdade está na forma como a população interpreta os avanços científicos. A ausência de uma base sólida em educação científica pode levar à dificuldade de compreensão de tecnologias biotecnológicas, favorecendo a disseminação de informações incorretas. A World Health Organization aponta que a hesitação vacinal está frequentemente associada à baixa compreensão de evidências científicas [6], enquanto a Food and Agriculture Organization destaca que a resistência a organismos geneticamente modificados está relacionada à falta de informação adequada [7].
Diante desse cenário, torna-se evidente que o cumprimento do ODS 4 vai além da ampliação do acesso à educação básica, sendo necessário garantir também a qualidade e a inclusão no ensino científico. A formação de indivíduos capazes de compreender e interagir com áreas como a biotecnologia é essencial para reduzir desigualdades, ampliar a participação social na ciência e promover o desenvolvimento sustentável. Dessa forma, investir em educação científica de qualidade não apenas fortalece o avanço tecnológico, mas também contribui para a construção de uma sociedade mais informada e preparada para lidar com os desafios contemporâneos.
Referência:
[1] ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, 2015.
[2] WATANABE, G. Desigualdade social, divulgação científica e ensino de física : caminhos para reflexão. Revista Rede, 2024. Disponível em: <https://revistarede.ifce.edu.br/ojs/index.php/rede/article/view/47/36>. Acesso em: 31 mar. 2026.
[3] GOMES, C. B. T. Desigualdade de acesso ao Programa Ciência sem Fronteiras: uma interlocução com a perspectiva dos estudos de gênero. Redalyc, 2021. Disponível em: <https://www.redalyc.org/journal/381/38168080021/html/>. Acesso em: 31 mar. 2026.
[4] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA PROPRIEDADE INTELECTUAL (WIPO). Global Innovation Index 2023. Genebra: WIPO, 2023. Disponível em: <https://www.wipo.int/global_innovation_index>. Acesso em: 31 mar. 2026.
[5] PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO (PNUD). Relatório de Desenvolvimento Humano 2023/2024. Nova York: PNUD, 2024. Disponível em: <https://hdr.undp.org>. Acesso em: 31 mar. 2026.
[6] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Ten threats to global health: vaccine hesitancy. Genebra: OMS, 2022. Disponível em: <https://www.who.int>. Acesso em: 31 mar. 2026.
[7] ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A ALIMENTAÇÃO E AGRICULTURA (FAO). The state of food and agriculture: biotechnology and food security. Roma: FAO, 2022. Disponível em: <https://www.fao.org>. Acesso em: 31 mar. 2026.