Microalgas como alternativa sustentável para o tratamento de esgoto doméstico

Objetivo: Apresentar o uso da microalga Chlorella vulgaris no tratamento de efluentes domésticos como uma solução biotecnológica sustentável, destacando sua contribuição para a melhoria da qualidade da água e para o alcance do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6).

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Giovanna Rodrigues Nascimento

Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

A biotecnologia tem se consolidado como uma importante aliada na busca por soluções sustentáveis para desafios ambientais contemporâneos, incluindo o tratamento de água e efluentes, onde, por meio do uso de organismos vivos ou seus derivados, é possível o desenvolvimento de tecnologias inovadoras e menos agressivas ao meio ambiente. Dessa forma, dentro do contexto do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), que visa garantir água limpa e saneamento para todos, soluções biotecnológicas surgem como ferramentas promissoras diante do aumento da poluição hídrica e da geração de esgoto decorrente do crescimento populacional (Melo, et al., 2026).

Assim, cita-se a microalga Chlorella vulgaris (Figura 1), que é um organismo microscópico capaz de realizar fotossíntese e se desenvolver em ambientes ricos em nutrientes, como o esgoto doméstico. Nesse contexto, o artigo Chlorella vulgaris for Domestic Wastewater Treatment, que conta com a participação da professora Louise Hase Gracioso, da EACH-USP, investiga o uso dessa microalgas como alternativa biotecnológica para o tratamento de esgoto doméstico. Com isso, a pesquisa parte do princípio de que o aumento da produção de efluentes domésticos representa um risco ambiental significativo quando não tratado adequadamente, sendo necessário o desenvolvimento de estratégias mais eficientes e sustentáveis para mitigar esses impactos (Melo, et al., 2026).

Figura 1 — Representação visual da microalga Chlorella vulgaris. Fonte: Adaptado de Abdel-Latif, et al., 2022.

Dessa forma, diferentes linhagens dessa microalga foram cultivadas em um efluente sintético que simula condições reais de esgoto, permitindo avaliar tanto seu crescimento quanto sua capacidade de remover substâncias poluentes (Melo, et al., 2026). Ou seja, os pesquisadores utilizaram esses microrganismos como agentes naturais de limpeza, uma vez que conseguem absorver compostos presentes no efluente durante seu desenvolvimento, contribuindo para a purificação da água.

Figura 2 — Representação do tratamento de efluentes com C. vulgaris. Fonte: Imagem gerada por inteligência artificial Gemini.

A partir disso, os resultados obtidos demonstraram a eficiência da microalga, uma vez que a remoção de nitrogênio ultrapassou 80% em diferentes condições testadas, enquanto a remoção de fosfato atingiu aproximadamente 65%, além de uma redução significativa da matéria orgânica presente na água, medida por parâmetros como a demanda química de oxigênio. Esses compostos estão diretamente associados a problemas ambientais como a eutrofização, que reduz a disponibilidade de oxigênio na água e compromete a sobrevivência de organismos aquáticos, evidenciando a relevância dos resultados encontrados (Melo, et al., 2026).

Além da melhoria na qualidade da água, o estudo também destaca que a utilização de microalgas pode ser integrada a estratégias de economia circular. Isso ocorre porque a biomassa gerada durante o processo pode ser reaproveitada para a produção de biocombustíveis e outros produtos de valor agregado, ampliando o potencial da tecnologia para além do tratamento de efluentes (Melo, et al., 2026). Dessa forma, a abordagem proposta não apenas contribui para o ODS 6, mas também se relaciona com o ODS 7, pelo potencial de geração de biocombustíveis, com o ODS 12, ao promover o reaproveitamento de resíduos, e com o ODS 14, ao reduzir a poluição em ambientes aquáticos, evidenciando seu impacto em diferentes dimensões da sustentabilidade.

Apesar dos resultados promissores, o estudo também evidencia desafios importantes para a aplicação dessa tecnologia em larga escala. Entre eles, destacam-se limitações econômicas e técnicas, além da necessidade de adaptação dos sistemas experimentais para condições reais, que são mais complexas e variáveis do que os modelos laboratoriais utilizados (Melo, et al., 2026). Esses fatores indicam que, embora a tecnologia seja promissora, ainda são necessários avanços científicos e investimentos para viabilizar sua implementação prática.

Portanto, o uso de microalgas no tratamento de efluentes representa uma alternativa inovadora e sustentável alinhada ao ODS 6, demonstrando o potencial da biotecnologia na mitigação de problemas ambientais. Entretanto, existem desafios a serem superados, como a dependência de infraestrutura adequada para coleta e tratamento de efluentes, bem como de políticas públicas que incentivem a adoção de soluções sustentáveis. Em contrapartida, a participação de pesquisadores da EACH-USP, como a professora Louise Gracioso, reforça a importância da produção científica nacional no desenvolvimento de soluções para desafios globais, apontando caminhos relevantes para o futuro do saneamento sustentável.

Referência:

ABDEL-LATIF, H. M. R. et al. The effectiveness of Arthrospira platensis and microalgae in relieving stressful conditions affecting finfish and shellfish species: An overview. Aquaculture Reports, [s. l.], v. 24, 101135, 2022. DOI: https://doi.org/10.1016/j.aqrep.2022.101135. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352513422001314. Acesso em: 15 abr. 2026.

MELO, L. B. U. et al. Chlorella vulgaris for Domestic Wastewater Treatment: Bibliometric Trends and Experimental Evaluation in Synthetic Effluent. Water Environment Research, [s. l.], v. 98, e70276, 2026. DOI: https://doi.org/10.1002/wer.70276. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/wer.70276. Acesso em: 15 abr. 2026.