Mais energia produzida com menos geração de resíduos

Objetivo: Introduzir o conceito de biocombustíveis de segunda geração e relacionar com a grande indústria de bioetanol no Brasil

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Julia Dezanetti da Silva

Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

À medida que a população mundial continua a crescer, a humanidade enfrenta desafios para garantir um futuro sustentável. Questões urgentes como as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a necessidade de energia limpa e reduzir a geração de resíduos têm evidenciado a necessidade de soluções inovadoras. Os métodos tradicionais, como a extração de combustíveis fósseis, por si só, já não são suficientes para lidar com esses problemas que estão profundamente interligados, exigindo abordagens modernas e diferentes [1]. A integração de soluções biotecnológicas em vários setores como agricultura, energia e gestão de resíduos representa uma oportunidade única para conectar e concentrar esforços em direção a um futuro mais resiliente e sustentável.

O Brasil já modificou boa parte da sua matriz energética, por isso, muito se fala de biocombustíveis no país, principalmente por conta da grande indústria de etanol derivado da cana de açúcar [2]. Assim, nesse artigo falaremos sobre uma alternativa de aumento de eficiência desse processo: o desenvolvimento de biocombustíveis de segunda geração.  Mas o que são combustíveis de segunda geração?

O etanol de segunda geração (E2G) é um biocombustível feito a partir dos resíduos restantes do processo de fabricação do etanol comum (o etanol de primeira geração, E1G) e do açúcar [3]. Esse produto usa matéria-prima de baixo impacto ambiental que seria descartada. Logo, é possível observar pelo menos duas grandes vantagens: a utilização de resíduo para gerar um produto de maior valor agregado e economia de logística. Também é considerado um dos combustíveis com menor pegada de carbono, calculando: O etanol de segunda geração tem uma pegada de carbono 30% menor quando comparado ao de primeira geração, e até 80% menor do que os combustíveis fósseis, como a gasolina [4].

Os combustíveis de primeira e segunda geração são quimicamente idênticos e possuem a mesma versatilidade em utilizações, a grande diferença está na forma de produzi-los. O E2G utiliza biomassa vegetal lignocelulósica, reaproveitando resíduos vegetais, como palha, folhas, bagaço, entre outros [5].

Figura 1 — Bagaço de cana utilizado na produção de EG2. Fonte: Syngenta digital (https://blog.syngentadigital.ag/como-reaproveitar-o-bagaco-da-palha-de-cana/).

É importante notar que há um grande ganho de produtividade porque será produzido mais combustível sem aumentar o tamanho da área plantada, já que não é preciso nenhuma cana-de-açúcar a mais para produzi-lo [6]. Isso significa que o E2G soluciona uma disputa presente no setor agroenergético sobre o uso da terra agricultável. Assim, a área de plantio utilizada traz resultados econômica e socialmente favoráveis.

O Brasil está em posição de destaque na produção do biocombustível com relação a outras nações, o que contribui para o desenvolvimento do país e o coloca como um dos representantes do mercado mundial de E2G. Em 2023, a Raízen é pioneira e única empresa do mundo a comercializar o E2G em escala global [7].

Figura 2 — Planta da Raízen para Etanol de Segunda Geração em Guariba (SP). Fonte: Raízen, 2024. (https://www.raizen.com.br/sala-de-imprensa/raizen-inaugura-maior-planta-de-etanol-de-segunda-geracao-do-mundo)

É esperada uma ampliação do consumo mundial de etanol, sendo que o nível de aceitação de bioetanol está crescendo em diversos países. O E2G é competitivo no mercado [8], não é apenas uma solução para reduzir o volume de gasolina importada pelo Brasil, mas também uma alavanca de exportações, além de impulsionar um ciclo de investimentos na química renovável. 

Contudo, deve-se ter em mente que a tecnologia para o desenvolvimento desse bioprocesso de reaproveitamento ainda passa por muitos desafios e dificuldades, principalmente para a implementação da usina. É descrito que a planta da Raízen em Guariba custou 1,2 bilhões de reais para sair do papel [7], um custo que nem toda empresa é capaz de bancar por mais benefícios ambientais que o EG2 possa trazer. A mesma empresa precisou fechar, em 2025, outra planta produtiva de EG2, em Piracicaba [9], alegando que passará a fazer testes e “futuros desenvolvimentos” do biocombustível até que seja possível reabri-la. Então, é notável que ainda falta muito investimento em pesquisa em EG2, o que seria ideal para baratear a sua produção e possibilitar a implementação em demais países além do Brasil.

Referência:

[1] PRATHYUSHA, T.; BEHARA, D. K.; VELUTURLA, S. Biotechnologies for environmental sustainability: Advancing clean energy, biodiversity, water security, and climate resilience. One Planet, One Health, One Future, p. 269–284, 2026.  Disponível em:https://www.sciencedirect.com/science/chapter/editedvolume/pii/B9780443383250000149 . Acesso em: 9 abril, 2026.

[2] CORRÊA DO LAGO, A. et al. Sugarcane as a carbon source: The Brazilian case. Biomass and Bioenergy, v. 46, p. 5–12, nov. 2012. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0961953412003479. Acesso em: 9 abril, 2026.

[3] SICA, P. et al. Quantitative and qualitative evaluation of novel energy cane accessions for sugar, bioenergy, 1 G, and 2 G ethanol production. Industrial Crops and Products, v. 203, p. 117163, 18 jul. 2023. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0926669023009287. Acesso em: 9 abril, 2026.

[4] INTERNATIONAL RENEWABLE ENERGY AGENCY. Innovation Outlook: Advanced Liquid Biofuels. Abu Dhabi: IRENA, 2016. Disponível em: https://www.irena.org//media/Files/IRENA/Agency/Publication/2016/IRENA_Innovation_Outlook_Advanced_Liquid_Biofuels_2016.pdf. Acesso em: 9 abril, 2026.

[5] DIAS, M. O. S. et al. Integrated versus stand-alone second generation ethanol production from sugarcane bagasse and trash. Bioresource Technology, v. 103, n. 1, p. 152–161, jan. 2012. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960852411014088#:~:text=Second%20generation%20bioethanol%2C%20produced%20from,et%20al.%2C%202011). Acesso em: 9 abril, 2026.

 

[6] SANTOS, D. et al. Brazil and the world market in the development of technologies for the production of second-generation ethanol. Alexandria Engineering Journal, v. 67, p. 153–170, 1 mar. 2023. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1110016822005919. Acesso em: 9 abril, 2026.

[7] RAÍZEN. Raízen inaugura maior planta de Etanol de Segunda Geração do mundo. Disponível em: https://www.raizen.com.br/sala-de-imprensa/raizen-inaugura-maior-planta-de-etanol-de-segunda-geracao-do-mundo. Acesso em: 9 abril, 2026.

[8] YABE MILANEZ, A. et al. De promessa a realidade: como o etanol celulósico pode revolucionar a indústria da cana-de-açúcar – uma avaliação do potencial competitivo e sugestões de política pública. BNDES Setorial, v. 41, p. 237–294, mar. 2015. Disponível em: http://web.bndes.gov.br/bib/jspui/handle/1408/4283. Acesso em: 9 abril, 2026.

[9] G1. Após uma década de operação, Raízen deixará de produzir etanol 2G em Piracicaba na próxima safra. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2025/01/20/apos-uma-decada-de-operacao-raizen-deixara-de-produzir-e2g-na-planta-de-piracicaba-na-proxima-safra.ghtml.  Acesso em: 9 abril, 2026.