Biotecnologia e ODS15: Aplicações na restauração de ecossistemas e conservação da biodiversidade

Objetivo: Relacionar aplicações biotecnológicas aos ODS 15 – “Vida Terrestre”, com ênfase em suas aplicações na conservação da biodiversidade, na recuperação de áreas degradadas e na promoção do uso sustentável dos ecossistemas terrestres, abordando tecnologias como biotecnologia microbiana, biorremediação, metagenômica e biologia sintética.

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Lucas Mello Farah

Aluno de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 15 (ODS15), estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem como propósito a proteção, restauração e promoção do uso sustentável dos ecossistemas terrestres, bem como gerir florestas de forma sustentável, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e travar a perda de biodiversidade (Marques, 2020). Nesse contexto, a biotecnologia destaca-se como ferramenta estratégica ao usufruir de organismos vivos ou de seus derivados para desenvolver processos e produtos voltados à sustentabilidade ambiental (Malajovich, 2004). Os avanços biotecnológicos recentes têm possibilitado intervenções mais eficientes e menos impactantes, o que leva à conservação e à recuperação ambiental.

Em primeiro lugar, denota-se que tecnologias microbianas apresentam uma ampla gama de possíveis aplicações, representando uma característica distintiva e quase única, com uma excepcional gama de atividades e necessidades humanas às quais ela é e pode ser aplicada. A biotecnologia microbiana viabiliza a fertilidade do solo, regulando os ciclos biogeoquímicos e promovendo a biodiversidade (Timmis, 2017).

Em primeiro lugar, destaca-se a ampla aplicabilidade da biotecnologia microbiana, especialmente na manutenção da fertilidade do solo por meio da regulação de ciclos biogeoquímicos e da promoção da biodiversidade microbiana (Timmis, 2017). Microrganismos como Rhizobium spp., Bradyrhizobium spp. e Azospirillum brasilense atuam na fixação biológica de nitrogênio, nutriente essencial para as plantas, de modo a aumentar a disponibilidade do mesmo no plantio. Além disso, espécies como Bacillus megaterium, Pseudomonas fluorescens e Aspergillus niger promovem a solubilização de fósforo, enquanto Bacillus mucilaginosus e Frateuria aurantia contribuem para a disponibilização de potássio no solo (Sawicka et al., 2025). Esses processos reduzem a dependência de fertilizantes químicos, favorecendo práticas agrícolas mais sustentáveis.

Paralelamente, a biorremediação apresenta-se como uma aplicação distinta e altamente relevante da biotecnologia microbiana, envolvendo o uso de microrganismos para remover ou neutralizar poluentes em ambientes contaminados (Kensa, 2011). Nesse viés, bactérias como Pseudomonas putida e Sphingomonas spp. são capazes de degradar compostos orgânicos tóxicos (Weimer et al., 2020), enquanto Geobacter spp. atua na transformação de metais tóxicos, contribuindo para a recuperação de áreas degradadas (Mirlahiji; Eisazadeh, 2014).

Do ponto de vista do ODS15, microrganismos promotores da fertilização do solo e microrganismos biorremediadores participam de abordagens complementares. Enquanto os microrganismos promotores de crescimento vegetal contribuem para a manutenção da fertilidade do solo e redução do uso de insumos químicos, alinhando-se à meta 15.1, as estratégias de biorremediação atuam diretamente na recuperação de áreas degradadas, de acordo com a meta 15.3. Ao agirem em concomitância, essas aplicações reduzem a pressão por expansão agrícola, bem como favorecem a conservação de ecossistemas terrestres e da biodiversidade.

Além disso, a metagenômica é outra ferramenta de cunho biotecnológico, ampliando significativamente a compreensão das comunidades microbianas. Análises metagenômicas permitem a análise direta do material genético ambiental. Essa abordagem possibilita identificar genes, enzimas e vias metabólicas relevantes para processos como ciclagem de nutrientes e degradação de poluentes, inclusive em microrganismos não cultiváveis. Dessa forma, a metagenômica não só contribui para o diagnóstico de ecossistemas degradados, como também para o monitoramento de sua recuperação e para o desenvolvimento de intervenções mais direcionadas, como a aplicação de consórcios microbianos específicos (Abdul et al., 2025).

Por outro lado, a biologia sintética tem se destacado como uma ferramenta inovadora ao permitir o desenvolvimento de soluções biológicas com alto nível de especificidade e eficiência para problemas ambientais complexos. Por meio dessa abordagem, torna-se possível desenvolver microrganismos capazes de degradar contaminantes persistentes. Além disso, otimiza-se a ciclagem de nutrientes e apresenta-se maior tolerância a condições adversas, como seca e salinidade. A biologia sintética, ademais, também está de acordo com os ODS15 ao possibilitar a criação de biossensores para monitoramento ambiental em tempo real. Fica claro que, ao aplicar essa ferramenta biotecnológica, contribui-se para um maior controle e eficiência nos processos de restauração ecológica (Abdul et al., 2025).

No cenário global, a biotecnologia já é amplamente aplicada na recuperação de áreas degradadas e na conservação da biodiversidade, por meio das técnicas supracitadas, além de outros diversos exemplos. No Brasil, sua relevância é ainda maior devido à elevada diversidade biológica. Iniciativas voltadas ao uso de bioinsumos se fazem cada vez mais presentes, atuando na recuperação de solos e na conservação de biomas como a Amazônia. Instituições como a Embrapa têm papel central no desenvolvimento de tecnologias voltadas à agricultura sustentável e ao uso eficiente dos recursos naturais (Miguel, 2007). Em nível local, observam-se projetos de biorremediação e manejo sustentável do solo, que também contribuem para a aplicação prática desses avanços.

Portanto, a biotecnologia configura-se como elemento-chave para o cumprimento do ODS15, ao integrar estratégias de conservação, recuperação ambiental e uso sustentável dos recursos naturais. Essas estratégias são sustentadas por técnicas que envolvem microrganismos benéficos, metagenômica e biologia sintética. Ao articular inovação tecnológica com processos naturais, essa área contribui não apenas para a restauração de ecossistemas degradados, mas também para a construção de sistemas produtivos mais sustentáveis e resilientes.

Referência:

ABDUL, M. A. B. et al. Microbial Biotechnology for Soil Health and Plant Nutrition: Mechanisms and Future Prospects. Applied Agriculture Sciences, v. 3, n. 1, p. 1-15, 2025.

KENSA, V. M. Bioremediation-an overview. Journal of Industrial Pollution Control, v. 27, n. 2, p. 161-168, 2011.

MALAJOVICH, M. A. Biotecnologia. Axcel Books do Brasil Editora, 2004.

MARQUES, M. F. C. Agenda 2030: objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS) da ONU: desafios ao desenvolvimento tecnológico e à inovação empresarial. 2020.

 

MIGUEL, L. M. USO SUSTENTÁVEL DA BIODIVERSIDADE NA AMAZÔNIA BRASILEIRA: experiências atuais e perspectivas. 2007. Tese de Doutorado. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO.

 

MIRLAHIJI, S. G.; EISAZADEH, K. Bioremediation of Uranium via Geobacter spp. Journal of Research and Development, v. 1, n. 12, p. 52-58, 2014.

SAWICKA, B. et al. Applied Microbiology for Sustainable Agricultural Development. Applied Microbiology, v. 5, n. 3, p. 78, 2025.

TIMMIS, K. et al. The contribution of microbial biotechnology to sustainable development goals. Microbial biotechnology, v. 10, n. 5, p. 984-987, 2017. 

WEIMER, A. et al. Industrial biotechnology of Pseudomonas putida: advances and prospects. Applied microbiology and biotechnology, v. 104, n. 18, p. 7745-7766, 2020.