Biotecnologia e a ODS 8: a biotecnologia como vetor de crescimento sustentável
Objetivo: Analisar o papel da biotecnologia como instrumento de promoção do crescimento econômico sustentável, destacando suas contribuições para o cumprimento das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8), com ênfase no contexto brasileiro.
Lucas Mello Farah
Aluno de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8), da Agenda 2030 da ONU, propõe algo ousado: fazer a economia crescer de forma contínua, inclusiva e sustentável. Ao mesmo tempo, busca garantir emprego pleno, produtivo e trabalho digno para todos. Num mundo atravessado por crises climáticas e mudanças tecnológicas aceleradas, aumentar a produtividade por meio da inovação e da modernização deixou de ser opção, tornando-se uma necessidade. A Meta 8.2. insere-se nesse contexto. Nesse cenário, a biotecnologia ganha espaço como uma aliada estratégica, capaz de impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) e, de quebra, tornar o uso de recursos mais eficiente.
Quando olhamos mais de perto para essa contribuição, fica claro que ferramentas biotecnológicas têm força para diversificar e modernizar setores de alto valor agregado. Isso acontece, sobretudo, pela integração de processos biológicos à indústria e à agricultura. De tal forma, os resultados consistem em inovações que aumentam a competitividade das economias, possibilitando abertura de novas frentes de desenvolvimento.
Áreas como a biofarmacêutica, a agricultura de precisão e a bioeconomia industrial traduzem conhecimento científico em produtos sofisticados. Todavia, isso exige profissionais qualificados e cria empregos que dialogam diretamente com a ideia de trabalho decente e remuneração justa (Meta 8.5). Nesse sentido, a biotecnologia microbiana aparece como uma estratégia promissora, capaz de ampliar a qualificação da mão de obra, fortalecer a educação e, no fim das contas, impulsionar o crescimento econômico sustentável (Timmis et al., 2017).
Já a Meta 8.4 coloca outro desafio em voga: viabilizar o crescimento, de modo que não haja degradação ambiental. Aqui também a biotecnologia mostra seu valor. O desenvolvimento de bioplásticos e biocombustíveis, por exemplo, permite que países continuem expandindo sua produção com menos impacto ecológico. Bioplásticos, feitos a partir de fontes renováveis como plantas e microrganismos, reduzem a dependência de combustíveis fósseis e ajudam a cortar emissões de gases de efeito estufa. Microalgas (Figura 1), cultivadas em diferentes condições, conseguem gerar uma variedade impressionante de biopolímeros: de proteínas a materiais como polihidroxibutirato e ácido poliláctico (Divya et al., 2026).
Figura 1 — Representação de microalga vista sob microscópio. Disponível em: https://paversul.com.br/microalgas-superalimento/
Os biocombustíveis seguem a mesma lógica. Produzidos a partir de biomassa, como óleos vegetais e biogás, eles têm potencial para diminuir significativamente a pegada ambiental da matriz energética. Além disso, contribuem para a independência energética, reduzem emissões e estimulam o desenvolvimento tanto urbano quanto rural. Com os avanços tecnológicos, a tendência é que essa produção se torne cada vez mais viável e acessível (Divya et al., 2025; Horjus, 2019).
No campo do empreendedorismo, foco da Meta 8.3, a biotecnologia é praticamente um terreno fértil. Startups, pequenas e médias empresas encontram aí um espaço rico para inovar. Incubadoras e parques tecnológicos ajudam a transformar ideias em negócios reais, gerando emprego e renda. Mais do que isso, esses ambientes funcionam como motores de desenvolvimento regional, especialmente quando conectados ao setor biotecnológico, que representa bem a combinação entre inovação e alto valor agregado. É nesse contexto que surgem soluções como biofármacos avançados, vacinas recombinantes e bioinsumos para agricultura de precisão.
O Brasil já mostra sinais fortes nesse caminho. Com um ecossistema de inovação robusto, o país reúne centenas de empresas que geram dezenas de milhares de empregos diretos (Oliveira et al., 2017). Muitas atuam em áreas como edição genômica de sementes mais resistentes e desenvolvimento de enzimas para biocombustíveis. À medida que essas empresas se consolidam, fortalecem o empreendedorismo nacional, ampliam o papel das pequenas e médias empresas (Meta 8.3) e contribuem para uma economia mais eficiente e menos dependente de recursos degradantes (Meta 8.4).
Ademais, o peso da biodiversidade brasileira e a força do agronegócio também não são de se negligenciar. Esses fatores colocam o país em posição privilegiada para alinhar suas políticas de desenvolvimento ao ODS 8 por meio da bioeconomia. O avanço em tecnologias como o etanol de segunda geração, que é produzido a partir de resíduos como bagaço e palha da cana, é um bom exemplo. Esse tipo de combustível aumenta a eficiência energética e pode reduzir emissões em até 80% em comparação à gasolina (Vieira et al., 2025). Para isso acontecer em larga escala, entram em cena biorrefinarias e técnicas de engenharia genética que tornam os processos mais eficientes e economicamente viáveis (Santos et al., 2026).
No fim das contas, a biotecnologia vai muito além de uma ferramenta técnica. Ela se consolida como um pilar estratégico dentro do ODS 8, conectando inovação, sustentabilidade ambiental e geração de empregos de qualidade. Claro, ainda há desafios, sobretudo quando se fala em reduzir a informalidade e garantir direitos trabalhistas (Meta 8.8). Mas, se esses pontos forem enfrentados com seriedade, o potencial é enorme, corroborando a contrução de um modelo de desenvolvimento econômico que seja, de fato, inclusivo, sustentável e preparado para o futuro.
Referência:
DIVYA, M. et al. Biomanufacturing of Biofuels and Bioplastic: Innovations for a Sustainable Future. In: Industrial Applications for Bioprocessing and Biomanufacturing. IGI Global Scientific Publishing, 2026. p. 265-296.
HORJUS, J. A relook on the biofuels: how can industrial processes underpin the drive for sustainable development?. 2019. Tese de Doutorado.
OLIVEIRA, J. et al. PARQUES TECNOLÓGICOS: ALAVANCAGEM ECONÔMICA DO ENTORNO. Revista Produção e Desenvolvimento, v. 3, n. 3, p. 43-54, 2017.
SANTOS, G. K. S. et al. Current Trends of Cellulosic Ethanol Technology from the Perspective of Industrial Development. Fermentation, v. 12, n. 1, p. 48, 2026.
TIMMIS, K. et al. The contribution of microbial biotechnology to economic growth and employment creation. Microbial biotechnology, v. 10, n. 5, p. 1137, 2017.
VIEIRA, R. DE C. et al. ETANOL 2G: o biocombustível do futuro. Simpósio de Tecnologia Fatec Jaboticabal., v. 5, 6 nov. 2025.