Biotecnologia e Segurança Alimentar: desafios e potencialidades para o cumprimento do ODS 2 no Brasil

Objetivo: Analisar o papel da biotecnologia na promoção da segurança alimentar no Brasil, destacando suas aplicações na produtividade agrícola, biofortificação e sustentabilidade ambiental, bem como os desafios regulatórios, econômicos e sociais para sua implementação no contexto do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 da ONU.

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Lucas Mello Farah

Aluno de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

A segurança alimentar global representa um dos maiores impasses a serem resolvidos no século XXI, consolidada pela Organização das Nações Unidas (ONU) por meio do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 (ODS 2), que visa erradicar a fome e, ao mesmo tempo, garantir acesso a alimentos nutritivos e promover a agricultura sustentável. A biotecnologia, por sua vez, surge como uma ferramenta essencial para atingir essas demandas, fornecendo ferramentas de cunho inovador para transformar a produção alimentícia. Em âmbito nacional, essa integração torna-se ainda mais urgente, em função do recente ressurgimento do país no mapa mundial da fome, levando à procura de soluções que unam produtividade, nutrição e sustentabilidade. 

Nesse viés, a biotecnologia encontra espaço para atuação a partir de três frentes principais: produtividade, qualidade nutricional e sustentabilidade ambiental. Em relação à produtividade, o uso de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) tem sido fundamental. Por meio dos OGMs, é possível a produção de culturas mais resilientes a pragas e doenças, levando a rendimentos maiores mesmo em condições adversas e extremas. Isso representa um requisito para a segurança alimentar global. A produção aprimorada de ácidos graxos essenciais, antioxidantes e metabólitos secundários em culturas geneticamente modificadas tem demonstrado um potencial significativo na promoção da saúde humana e na prevenção de distúrbios relacionados à desnutrição (Elankumaran et al., 2025). 

A biotecnologia, por outro lado, também pode atuar na melhoria nutricional a partir de um processo denominado biofortificação. A biofortificação, processo de aprimoramento do teor nutricional de culturas básicas por meio de melhoramento convencional ou engenharia genética, oferece uma solução promissora para combater deficiências alimentares. Ao examinar pesquisas e avanços atuais na ciência agrícola, os benefícios multifacetados das culturas biofortificadas  tornam-se cada vez mais evidentes, incluindo o aumento da produtividade e a resiliência a estressores ambientais (Loureiro et al., 2018).  Sendo assim, há um forte combate à desnutrição, e a promoção de melhores resultados na saúde é altamente viabilizada. 

Em adição, corrobora-se a promoção de práticas sustentáveis pelo desenvolvimento de biofertilizantes e biopesticidas. Esses insumos biológicos podem reduzir a dependência de insumos sintéticos em 35–55%, promovendo uma agricultura ambientalmente sustentável (Hassan; Rashid, 2023). Essas alternativas melhoram a saúde do solo e a produtividade das culturas, como evidenciado pelo aumento de 38% na produção de soja no Brasil por meio da inoculação microbiana (Moschonas, 2024). Como resultado, preservam-se os recursos para gerações futuras. 

Levando em conta o contexto brasileiro, pode-se notar que o Brasil ocupa uma posição estratégica no desenvolvimento biotecnológico mundial. Recentemente, o país registrou um aumento substancial no número de patentes em biotecnologia, com destaque às tecnologias de alimentos e a agricultura sustentável, com potencial para garantir a segurança alimentar por meio de práticas inovadoras (Moschonas, 2024). Como resultado, pode-se prever um movimento robusto em direção a soluções diferenciadas que possam, a médio e longo prazo, sustentar a segurança alimentar nacional. 

Universidades e instituições de pesquisa brasileiras são responsáveis por grande parte desse dinamismo. Elas desempenham funções primordiais na criação de conhecimento e desenvolvimento de novas aplicações. Todavia, ainda existe uma lacuna significativa entre a pesquisa acadêmica realizada e a sua aplicações comerciais acessíveis ao mercado. Portanto, em âmbito nacional, devem ser promovidas mais estratégias para integrar esses dois aspectos  (Kumar, 2018). 

A vasta biodiversidade brasileira condiz com um diferencial competitivo único do Brasil, exemplificada pela riqueza de biomas em todo território nacional, que oferecem oportunidades singulares para a descoberta de compostos de alto valor nutricional e passíveis de exploração biotecnológica (Felisberto; Ramos; De Lima Moreira, 2022). O uso sustentável dessa biodiversidade reforça a segurança alimentar, bem como se apresenta como um motor de crescimento econômico de grande importância para o país. 

O Brasil apresenta, evidentemente, um potencial transformador que vai em direção ao ODS 2. Todavia, a plena implementação biotecnológica ainda enfrenta algumas dificuldades, bem como as restrições regulatórias, responsáveis pelo retardamento da chegada de inovações ao campo, e também problemas de percepção pública e desinformação sobre produtos biotecnológicos, gerando resistência por parte de alguns setores sociais (Pimenta, 2008). Superar esses obstáculos é essencial para que o país aproveite plenamente os benefícios dessas tecnologias.

Em conclusão, a biotecnologia é uma opção técnica e, sobretudo, uma necessidade estratégica para atingir o ODS 2. Para o Brasil, o caminho envolve fortalecer a ponte entre a academia e a indústria, simplificar processos regulatórios e utilizar sua biodiversidade de forma produtiva e inteligente. Ao alinhar inovação científica com políticas de segurança alimentar, o país sairá do mapa da fome, podendo se consolidar como uma potência em agricultura sustentável e nutricionalmente eficiente.

Referência:

ELANKUMARAN, Muthukumar et al. Genetic Engineering of Agricultural Crops for Food and Nutritional Security. 2025. 

FELISBERTO, J. S.; RAMOS, Y. J.; DE LIMA MOREIRA, D. A Biodiversidade como Ferramenta para o Melhoramento da Saúde Humana. Editora Appris, 2022.

HASSAN, T.; RASHID, G. Biofertilisers and biopesticides: approaches towards sustainable development. In: Microbiomes for the management of agricultural sustainability. Cham: Springer Nature Switzerland, 2023. p. 95-112. 

KUMAR, V. V. Biofertilizers and biopesticides in sustainable agriculture. Role of rhizospheric microbes in soil: volume 1: stress management and agricultural sustainability, p. 377-398, 2018.

 

LOUREIRO, M. P. et al. Biofortificação de alimentos: problema ou solução?. Segurança Alimentar e Nutricional, v. 25, n. 2, p. 66-84, 2018.

MOSCHONAS, G. Digitalization in pharmaceutical sector. Impact of Covid-19 pandemic in digital transformation in marketing strategy and communication. Greece, 2024.

PIMENTA, C. G. O ambiente institucional da biotecnologia voltada para a saúde humana no Brasil. Brasília [Dissertação de Mestrado]. Centro de Desenvolvimento sustentável. Universidade de Brasília.[Capturado 02 jan. 2010] Disponível em: http://www. unbcds. pro. br/publicacoes/CleilaGuimaraes. pdf, 2008.