Como a biotecnologia pode revolucionar a construção civil para alcançar a ODS 11
Objetivo: Evidenciar a relação da biotecnologia com a ODS 11, Cidades e Comunidades Sustentáveis, ao discutir sobre o uso de bioconcretos autorreparaveis e biomateriais na construção civil, além de mostrar os benefícios diretos desta tecnologia.
Luana Bourbon Luna Vieira
Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
Omassivo processo de urbanização, com a construção de prédios, estradas, túneis e pontes, por exemplo, das últimas décadas colocou em xeque a sustentabilidade das cidades atuais. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente [1], o setor da construção civil é um dos principais poluidores globais, correspondendo a quase 40% das emissões de dióxido de carbono ao utilizar como matéria prima recursos naturais não renováveis. O processo de produção do cimento, por exemplo, contribui avidamente para esta grande pegada de carbono e, por mais que este material seja resistente, é suscetível a micro-rachaduras, as quais permitem a entrada de água e de íons de cloreto, corroendo o material e pondo em risco a infraestrutura [2]. Diante disso, mostra-se urgente a busca por alternativas sustentáveis que possibilitem transformar as cidades e comunidades a fim de chegar mais perto do objetivo descrito na ODS 11, Cidades e Comunidades Sustentáveis, a qual está prevista para ser alcançada até 2030.
A biotecnologia surge, então, como uma alternativa a este cenário, buscando soluções menos nocivas ao meio ambiente e mais renováveis, com uso direto de organismos, como bactérias, fungos e algas, e matérias primas biológicas. Esta ciência pode ser aplicada durante diferentes processos da escala produtiva da construção, como na manufatura, na manutenção ou até para aumentar a vida útil de materiais [3]. Um dos exemplos do uso desta tecnologia é o bioconcreto, ou o concreto auto reparável, que utiliza da biomineralização para encapsular bactérias do gênero Bacillus na mistura de concreto. Dessa forma, quando há alguma rachadura no material que permita a entrada de umidade, microrganismos despertam do estado de dormência e produzem calcário, preenchendo a rachadura [2][3]. Este processo de cicatrização reduz drasticamente a necessidade de reparo e aumenta significativamente a vida útil da estrutura. No entanto, novas pesquisas acerca dos recursos necessários para cultivar e sustentar materiais vivos são fundamentais para orientar em que momento e em que escala se deve utilizá-los, possibilitando o ingresso no mercado e auxiliando no cumprimento das metas de sustentabilidade [3].
Funcionamento e vantagens ao integrar bactérias no concreto para construção, evidenciando a auto reparação e a resistência. Fonte: Adaptado de Heveran e Hernandes 2023 [3]
Outra alternativa sustentável para construção civil é o uso de micélios fúngicos e de compostos orgânicos como matéria prima, a qual se enquadra no conceito de economia circular ao focar na integração de sistemas naturais e fontes renováveis. As características do material dependem diretamente do tipo do fungo e do substrato escolhidos. Para garantir as propriedades físico-químicas do composto, é necessário determinar a morfologia do micélio, o conteúdo biomolecular, a densidade, condições de crescimento, a resistência à compressão, a estabilidade térmica, a hidrofobicidade e os métodos de processamento que serão utilizados. Entretanto, este processo já tem se mostrado muito promissor para usos arquitetônicos, além de apresentar baixo custo, baixa emissão de poluentes, alta eficiência energética e reciclabilidade, que o torna mais acessível [4]. Estes biomateriais utilizam da capacidade de digestão dos fungos para converter subprodutos agrícolas em estruturas leves e isolantes, ideais para diferentes aplicações na construção civil. Todavia, ainda existem alguns aspectos que devem ser estudados para aplicação destes biomateriais na infraestrutura de edifícios em decorrência das suas baixas propriedades mecânicas, alta absorção de água e falta de métodos de desenvolvimento padronizados [5].
Sendo assim, percebe-se que há diversos desafios, tanto referente à padronização dos processos produtivos, como à aceitação social, para implementação completa destas técnicas biotecnológicas na construção. Entretanto, elas representam um avanço para tornar as cidades e comunidades mais sustentáveis e com custo reduzido, diminuindo os índices de poluição e tornando as moradias mais acessíveis, conforme rege a ODS 11.
Referência:
[1] UNEP. 2022 Global Status Report for Buildings and Construction. United Nations Environment Programme. Disponível em: <https://www.unep.org/resources/publication/2022-global-status-report-buildings-and-construction>. Acesso em: 7 mar. 2026.
[2] KAUSHAL, Vinayak ; SAEED, Elayna. Sustainable and Innovative Self-Healing Concrete Technologies to Mitigate Environmental Impacts in Construction. CivilEng, v. 5, n. 3, p. 549–558, 2024.
[3] HEVERAN, Chelsea M. ; HERNANDEZ, Christopher J. Make engineered living materials carry their weight. Matter, v. 6, n. 11, p. 3705–3718, 2023.
[4] ALEMU, Digafe; TAFESSE, Mesfin ; MONDAL, Ajoy Kanti. Mycelium-Based Composite: The Future Sustainable Biomaterial. International Journal of Biomaterials, v. 2022, n. 8401528, p. 8401528, 2022.
[5] ALANEME, Kenneth Kanayo; ANAELE, Justus Uchenna; OKE, Tolulope Moyosore; et al. Mycelium based composites: A review of their bio-fabrication procedures, material properties and potential for green building and construction applications. Alexandria Engineering Journal, v. 83, n. 1110-0168, p. 234–250, 2023.