Aplicações Biotecnológicas na Preservação da Vida na Água

Objetivo: Evidenciar como a biotecnologia pode auxiliar a alcançar as metas descritas na ODS 14, Vida na Água, ao discutir sobre diferentes técnicas que podem ser aplicadas e qual o benefícios destas.

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Luana Bourbon Luna Vieira

Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

O aquecimento global, a poluição química e a acidificação da água têm colocado a vida marinha em xeque, dado que os oceanos têm cada vez mais absorvido o dióxido de carbono liberado em grandes quantidades na atmosfera. Ademais, toneladas de resíduos são despejados nos mares, indevidamente, todos os anos, colocando em risco o bem-estar, não apenas dos organismos que vivem nestes ambientes, como também de todos que habitam a Terra [1]. Diante desse cenário, a biotecnologia surge como uma alternativa para mitigar os danos causados a este ecossistema e estudar, preservar e recuperar sua biodiversidade, buscando conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos, conforme está descrito na ODS 14, Vida na Água.

Uma das alternativas mais estudada atualmente é o uso da biorremediação para resolver dois dos maiores poluentes oceânicos, os derivados do petróleo, proveniente principalmente de vazamentos, e os  polímeros sintéticos, representados majoritariamente pelos plásticos convencionais [2][3]. O aumento da demanda de petróleo mundialmente potencializa o aumento dos derramamentos, o que causa desastres ecológicos e ambientais da superfície da água às profundezas do oceano. Em função disso, diversas técnicas de biorremediação, como bioestimulação e biossurfactantes, têm sido estudadas para biodegradar estes poluentes, sendo considerado uma das técnicas mais sustentáveis e eficientes, a utilização de bactérias dos gêneros Alcanivorax e Cycloclasticus, que possuem vias metabólicas otimizadas para a oxidação de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos [2]. Já o plástico tem como um dos seus pontos de depósito inadequado os oceanos e, em decorrência disso, a bioincrustação e a biodegradação têm sido consideradas alternativas promissoras, sendo realizadas, principalmente, por bactérias, microalgas e fungos [3]. Todavia, tais técnicas ainda devem ser melhor estudadas referente às suas aplicabilidades, buscando a metodologia ideal para evitar promover um desequilíbrio ecológico com os uso destes microrganismos e superar o desafio de diluição, tendo em vista que o oceano é um sistema aberto e dinâmico e a concentração de bactérias e nutrientes necessários é mais dificilmente alcançada [2][3].  

A biotecnologia também pode auxiliar na gestão eficaz do ecossistema, descritos na meta 14.2, ao prover dados precisos sobre a biodiversidade a partir de diferente técnicas, como a utilização do DNA ambiental (eDNA), que faz um sequenciamento de alto desempenho em amostras de água e possibilita identificar padrões de diversidades e quantidade de espécies presentes no ambiente [4]. Este método não afeta os organismos ameaçados nem os oceanos durante a amostragem, necessitando de pouca quantidade de água oceânica filtrada. Após a coleta das amostras, o DNA presente nelas é extraído e, então, amplificado a partir da reação em cadeia da polimerase (PCR) para poder ser sequenciado, por meio de processos de metagenômica, permitindo a identificação dos organismos presentes, quando realizada a comparação dos genomas encontrados no ambiente com bancos dados armazenados em bibliotecas genéticas. Tal técnica permite tanto diagnosticar a quantidade de espécies ameaçadas que ocorrem em determinado local, como a presença de uma espécie invasora, fornecendo uma leitura em tempo real da saúde oceânica, e já está sendo utilizada por pesquisadores mundialmente [4][5].

Figura 1 — Fluxo de como funciona a coleta das amostras e a análise de eDNA até a identificação das espécies presentes no local. Fonte: Adaptado de Brito et al. 2025 [6].

Ademais, a biotecnologia pode promover a recuperação do ambiente marinho através da evolução assistida dos corais, por exemplo, que apresentam uma função biológica importantíssima ao oferecerem abrigo, alimento e área de reprodução para, aproximadamente, 25% da vida nos oceanos. Entretanto, são extremamente sensíveis ao aumento da temperatura e da acidificação da água, que podem causar a morte em massa destes animais, conhecido como branqueamento dos corais. Bactérias probióticas putativas, têm sido estudadas com o objetivo de auxiliar os corais a passarem por uma adaptação acelerada, pois aumentam a absorção de nutrientes e a resistência térmica, minimizando a mortandade dos corais. Estes microrganismos são isolados de indivíduos saudáveis das espécies e, então, cultivados em laboratório para serem aplicados em ambientes recifais que apresentem corais doentes ou com áreas a serem reparadas [7]. Um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderado pela Dra. Raquel Peixoto, é pioneiro no estudo desta técnica, ao realizar testes no mar e constatar que o uso destes micróbios não causam efeitos colaterais em outros organismos marinhos [8]. Esta pesquisa deu origem ao Coral Probiotics Program, uma iniciativa que hoje aplica essas técnicas internacionalmente, sendo aplicada em ambientes altamente impactados, como o Mar Vermelho e, em áreas extensas como a Grande Barreira de Corais na Austrália [9].     

Em suma, a biotecnologia pode auxiliar de diversas formas a vida marinha, promovendo uma intervenção multifacetada no cenário atual com a finalidade de conservar e utilizar de forma renovável o ambiente oceânico, se aproximando cada vez mais das metas descritas na ODS 14. Todavia, ainda é necessário realizar estudos profundos para promover um entendimento científico adequado sobre as técnicas, além de buscar novas alternativas para o desenvolvimento sustentável.

Referência:

[1] FALKENBERG, Laura J.; BELLERBY, Richard; CONNEL, Sean ; et al. Ocean Acidification and Human Health. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 12, p. 4563, 2020.

[2] RAHMATI, Farzad; ASGARI LAJAYER, Behnam; SHADFAR, Najmeh; et al. A Review on Biotechnological Approaches Applied for Marine Hydrocarbon Spills Remediation. Microorganisms, v. 10, n. 7, p. 1289, 2022.

[3] VIEL, Thomas; MANFRA, Loredana; ZUPO, Valerio; et al. Biodegradation of Plastics Induced by Marine Organisms: Future Perspectives for Bioremediation Approaches. Polymers, v. 15, n. 12, p. 2673–2673, 2023.

[4] SAHU, Ashish; KUMAR, Neelesh; PAL SINGH, Chandra; et al. Environmental DNA (eDNA): Powerful Technique for Biodiversity Conservation. Journal for Nature Conservation, v. 71, n. 126325, p. 126325, 2023.

[5] WU, Shuwen; WANG, Yun; QIN, Haiyan; et al. Environmental DNA (e DNA ) Technology in Biodiversity and Ecosystem Health Research: Advances and Prospects. Ecology and Evolution, v. 16, n. 1, 2026.

 

[6] BRITO, Cintia ; RUIZ, Carmen; NUNES, Rhewter; et al. DNA ambiental e monitoramento da biodiversidade: uma abordagem inovadora para a bacia do Araguaia – Jornal Opção. Jornal Opção. Disponível em: <https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/dna-ambiental-e-monitoramento-da-biodiversidade-uma-abordagem-inovadora-para-a-bacia-do-araguaia-697451/>. Acesso em: 25 mar. 2026.

[7] DELGADILLO-ORDOÑEZ, Nathalia; GARCIAS-BONET, Neus; RAIMUNDO, Inês; et al. Probiotics reshape the coral microbiome in situ without detectable off-target effects in the surrounding environment. Communications Biology, v. 7, n. 1, p. 1–16, 2024.

[8] SANTORO, Erika P.; BORGES, Ricardo M.; ESPINOZA, Josh L.; et al. Coral microbiome manipulation elicits metabolic and genetic restructuring to mitigate heat stress and evade mortality. Science Advances, v. 7, n. 33, 2021.

[9] PEIXOTO, Raquel . Beneficial Microbes for Marine Organisms. Microbe.net. Disponível em: <http://bmmo.microbe.net/>. Acesso em: 25 mar. 2026.