Biotecnologia e a Recuperação, Conservação e a Proteção da Vida Terrestre

Objetivo: Evidenciar como a biotecnologia pode proteger, restaurar e utilizar de forma sustentável a vida na Terra, conforme está previsto na ODS 15. O texto buscará trazer algumas alternativas, como recuperação de áreas desertificadas, proteção de espécies ameaçadas e rastreio genético, para promover um avanço referente às metas da Agenda 2030.

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Luana Bourbon Luna Vieira

Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

Os ecossistemas terrestres estão em constante ameaça devido a diversos fatores, tais como o desmatamento, a expansão da agropecuária, a poluição, o aumento da população humana e a superexploração de recursos naturais. Tal situação afeta e põe em risco mais de 9 milhões de tipos de seres vivos, entre estes fungos, bactérias, plantas e animais, que servem como base para diversidade de organismos, de genética e de ecologia, sustentando o funcionamento terrestre e mantendo um equilíbrio biológico essencial [1]. Diante disso, a biotecnologia se torna uma alternativa para mitigar os danos causados às criaturas da Terra e auxiliar a atingir as metas descritas na ODS 15, vida terrestre, as quais estão previstas para serem alcançadas até 2030.

Uma das principais ameaças para a estabilidade ambiental é a desertificação dos solos, representada pelos recursos hídricos limitados e pela baixa presença de matéria orgânica, que prejudicam o crescimento de plantas e a presença de animais nesses locais [2]. A recuperação destas áreas continua sendo difícil e tendo alto custo, impossibilitando sua ampla aplicação nos dias atuais; entretanto, o conhecimento biológico e biotecnológico sobre solos, plantas nativas e os seus micróbios oferece uma oportunidade promissora para remediar tal problemática futuramente. As interações solo – plantas – micróbios são as responsáveis por restaurar a comunidades vegetais e por sustentar o funcionamento dos solos sob estresse. As bactérias adequadas promovem a reestruturação física e a estabilidade ao produzirem biofilmes e exopolissacarídeos que funcionam como substâncias pegajosas e une as partículas de areia e silte, criando agregados que evitam a erosão eólica e hídrica, processos responsáveis pelo avanço do deserto. Além destes microrganismos auxiliarem a reter umidade, devido às estruturas porosas criadas pelas colônias bacterianas, promovem fixação de nitrogênio e a solubilização de fosfatos, aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis [3].

Figura 1 — Benefícios causados pela integração de bactérias, plantas e solos na busca por reverter a desertificação de determinadas áreas. Fonte: Adaptado de Elhardy et al., 2025 [3].

A biotecnologia também pode auxiliar a conservar espécies ameaçadas de extinção, conforme está previsto na meta 15.5 para diminuir a perda de biodiversidade. Quando a população de um determinado animal selvagem está em declínio e apresenta poucos representantes, estes ficam mais vulneráveis a doenças e a malformações congênitas, devido a redução da variabilidade genética. Diante disso, podem ser realizados estudos genéticos destes indivíduos para que se identifique aqueles que estão mais aptos para entrarem em programas de reprodução assistida, com a finalidade de evitar a endogamia e garantir um futuro saudável para a população. Todavia, o alto custo da logística em campo e de laboratório, além de dilemas éticos referentes ao risco de domesticação de espécies silvestres, impedem que esta técnica já seja utilizada de forma globalizada [4]. Ademais, a criopreservação de sementes também pode ser realizada para garantir que, caso o habitat natural da espécie seja perdido, elas possam ser restauradas. Pesquisadores brasileiros estudam quais são as melhores técnicas para garantir a preservação das espécies nativas que estão sendo superexploradas, como a aroeira-do-sertão, endêmica da caatinga brasileira que vem sendo utilizada de forma predatória em função da sua madeira super resistente [5].    

Adicionalmente, o tráfico de vida silvestre e a extração ilegal de madeira podem ser mitigados a partir de implementação de tecnicas biotecnolóicas, principalmente a DNA Barcoding, a qual utiliza utiliza sequências curtas de DNA para identificar rapidamente a espécie, a partir de um materail apreendido. Esta pode ser aplicada em conjunto com a análise de isótopos, a qual funciona como um identificador geográfico biológico, permitindo determinar se um animal tem sua origem em um cativeiro ou se foi capturado ilegalmente da natureza. Tal técnica é eficiente pois, quando um animal se alimenta em uma região específica, incorpora a proporção isotópica da área em seu organismo, que será completamente diferente da composição de um animal que come rações industrializadas e bebe água tratada. Para implementação desta técnica na investigação contra o tráfico ainda é necessário realizar um estudo profundo sobre a assinatura isotópica de diversas áreas, a fim de facilitar a identificação do local de origem dos indivíduos, e um maior investimento, devido ao alto custo e presença de profissionais especializados [6].   

Em suma, a biotecnologia é essencial para buscar alternativas que garantam a preservação da vida terrestre. Ao unir diversos conhecimentos, as pesquisas apresentadas buscam recuperar, conservar e proteger a biodiversidade, mostrando uma convergência com os objetivos descritos na ODS 15.

Referência:

[1] ADEBAYO, Oladimeji. LOSS OF BIODIVERSITY: THE BURGEONING THREAT TO HUMAN HEALTH. Annals of Ibadan Postgraduate Medicine, v. 17, n. 1, p. 1, 2019.

[2] RODRÍGUEZ-NÚÑEZ, K.; RODRÍGUEZ-RAMOS, F.; LEIVA-PORTILLA, D.; et al. Brown biotechnology: a powerful toolbox for resolving current and future challenges in the development of arid lands. SN Applied Sciences, v. 2, n. 7, 2020.

[3] ELHADY, Ahmed ; HIRT, Heribert. Harnessing plant-soil-microbiome synergy for resilient desert restoration. iScience, v. 28, n. 11, p. 113748, 2025.

 

[4] PEREIRA, Ricardo José Garcia; BLANK, Marcel Henrique ; ROISMANN, Julia. A contribuição das biotecnologias reprodutivas na conservação de espécies selvagens. Revista Brasileira de Reprodução Animal, v. 48, n. 1, p. 46–52, 2024.

[5] DE PAULA, Jean Carlo; GUARIZ, Hugo Roldi ; APARECIDO, Walter; et al. CRYOPRESERVATION OF SEEDS OF THE BRAZILIAN NATIVE SPECIES AROEIRA-DO-SERTÃO (Astronium urundeuva M. Allemão Engl.) Revista Caatinga, v. 35, n. 4, p. 915–924, 2022.

[6] PRIGGE, Tracey‐Leigh; ANDERSSON, Astrid A; HATTEN, Chloe; et al. Wildlife trade investigations benefit from multivariate stable isotope analyses. Biological reviews of the Cambridge Philosophical Society, v. 100, n. 3, 2024.