A Contribuição da Biotecnologia Agrícola para a Erradicação da Fome e a Promoção da Agricultura Sustentável
Objetivo: Relacionar a biotecnologia com a ODS 2, Fome Zero e Agricultura Sustentável, apontando as principais maneiras que esta ciência pode auxiliar a atingir as metas descritas nesta e as perspectivas das alternativas existentes no mercado.
Luana Bourbon Luna Vieira
Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
A fome é uma problemática que afeta milhares de pessoas mundialmente, estando mais aflorada em países da Ásia, África e América Latina e sendo impulsionada, principalmente, por conflitos, crises econômicas e mudanças climáticas [1]. Neste contexto, para reduzir a fome no mundo, torna-se essencial buscar soluções que utilizem a agricultura e os recursos sustentáveis com o intuito de garantir o equilíbrio ecológico e a perpetuação de ações adotadas, sem que haja grandes danos ambientais consequentes. A biotecnologia se insere como uma alternativa para a insegurança alimentar e a desnutrição em função de pesquisas que buscam tornar os alimentos mais nutritivos e fertilizar as terras agricultáveis com meios biológicos, por exemplo, buscando alcançar as metas descritas na ODS 2, Fome Zero e Agricultura Sustentável, as quais estão presentes na agenda de 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).
A biofortificação surge como um meio de transformar os alimentos já existentes em versões mais enriquecidas deles, ou seja, com maiores quantidades de vitaminas e minerais, a fim de reduzir a desnutrição e a insegurança alimentar mundialmente. Tal técnica pode ser feita tanto a partir da seleção artificial de sementes, reproduzindo aquelas que apresentam de maneira mais proeminente as características nutritivas desejadas, quanto pela engenharia genética, alterando geneticamente as plantas para que elas superexpressem os genes dos nutrientes de interesse. Dessa forma, os alimentos já crescem com altos níveis de vitamina A, zinco e ferro, por exemplo, ao contrário da fortificação industrial, que ocorre após a colheita [2]. Tal alternativa pode reduzir drasticamente a mortalidade infantil e as doenças degenerativas. Entretanto, ela ainda enfrenta diversos desafios para ser aplicada amplamente na sociedade, dentre estes é possível citar a baixa aderência da população à aceitação de alimentos geneticamente modificados, barreiras regulatórias e de patentes, falta de investimentos, bem como o controle para evitar que sementes transgênicas se espalhem inadequadamente e prejudiquem a vegetação nativa [3].
O uso de biofertilizantes auxilia a promover a agricultura sustentável, substituindo os fertilizantes químicos, os quais apresentam alto custo e geram grande impacto ambiental, contaminando recursos hídricos, acidificando os solos, liberando metais pesados no ambiente e emitindo gases do efeito estufa [4]. A alternativa biotecnológica se baseia no uso de microrganismos, como bactérias fixadoras de nitrogênio e fungos micorrízicos, os quais expandem a área de absorção radicular, para garantir que as plantas absorvam nutrientes naturalmente e se tornem mais imunes às pragas, além das bactérias promoverem exclusão competitiva, inibindo o crescimento de patógenos. Esta tecnologia recupera solos degradados, ao transformar áreas deterioradas em produtivas, e, também, diminui a pegada de carbono causada pela agricultura [5]. No Brasil, os biofertilizantes já estão sendo utilizados, tornando o país uma referência na área, principalmente nas plantações de soja, em que esta alternativa é utilizada para fixação de nitrogênio [6]. Ademais, a Lei 15.070/2024 representa um marco regulatório para bioinsumos, garantindo que os produtores possam produzir seus próprios biofertilizantes desde que sigam o manual de boas práticas indicado na legislação e que seja para o uso particular [7].
Legenda: Diferentes tipos de biofertilizantes e quais são seus mecanismos de funcionamento, destacando o composto biológico responsável pela adubação das terras para agricultura. Fonte: Adaptado de Oliveira da Silva, 2024. [8].
Em suma, percebe-se que a biotecnologia está extremamente conectada à ODS 2, podendo trazer soluções inovadoras para as metas apresentadas nela ao promover uma convergência entre o laboratório e o campo, com a finalidade de buscar diminuir a desnutrição, a fome e a insegurança alimentar e de transformar a agricultura em um procedimento mais sustentável. O desafio remanescente é garantir que essas inovações superem as barreiras atuais e cheguem de forma democrática aos pequenos agricultores, garantindo que a ciência seja, de fato, um instrumento de justiça social e erradicação da fome.
Referência:
[1] FAO. Agricultura sustentável é a chave para o fim da fome no mundo. Nações Unidas. Disponível em: <https://brasil.un.org/pt-br/81144-agricultura-sustent%C3%A1vel-%C3%A9-chave-para-o-fim-da-fome-no-mundo-diz-fao>. Acesso em: abr. 2026.
[2] MANDAL, Oksana; KRISHNAMOORTHI, A.; SINGH, Abhishek; et al. Biofortification: Enhancing Nutritional Content in Crops through Biotechnology and Fighting Climate Change. Journal of Advances in Biology & Biotechnology, v. 27, n. 2, p. 186–210, 2024.
[3] COSTA, Zandra Lorenna Coutinho de Melo ; SANTOS, Saint Clair Lira. Biofortificação de alimentos e sua relação com a segurança alimentar e nutricional: prós e contras. Research, Society and Development, v. 11, n. 8, 2022.
[4] MENDES, A. M. S.; OLSZEVSKI, N.; SILVA, F.; et al. Impactos ambientais causados pelo uso de fertilizantes agrícolas. Petrolina: Embrapa, 2010.
[5] PIMENTO, Rérison; COCCOZA, Fabio; PAZ, Cristine; et al. Conhecimento científico sobre biofertilizantes ao longo de 120 anos de pesquisa. Caderno Pedagógico, v. 22, n. 9, 2025.
[6] SANTOS, Amanda. Brasil lidera a ascensão dos bioinsumos em um modelo de agricultura mais sustentável. Noticias Agrícolas. Disponível em: <https://www.noticiasagricolas.com.br/artigos/artigos-geral/409849-brasil-lidera-a-ascensao-dos-bioinsumos-em-um-modelo-de-agricultura-mais-sustentavel.html>. Acesso em: mai. 2026.
[7] BRASIL. Lei nº 15.070, de 19 de dezembro de 2024. Dispõe sobre a produção, o registro, a comercialização, a utilização, a importação, a exportação, o controle, a inspeção e a fiscalização de bioinsumos para a agricultura. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2024. Disponível em: http://www.planalto.gov.br. Acesso em: mai. 2026.
[8] OLIVEIRA DA SILVA, Alasse. Biofertilizantes na Agricultura: Tipos, Benefícios e Aplicações Práticas. Agroadvance. Disponível em: <https://agroadvance.com.br/blog-biofertilizantes/>. Acesso em: mai. 2026.