Pandemia de COVID-19: um retrato de como a cooperação salvou vidas
Objetivo: O seguinte texto tem como objetivo abordar o 17º objetivo de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas – Parcerias e meios de implementação – usando como exemplo a cooperação de ambientes científicos para a fabricação de uma vacina eficaz e confiável durante a pandemia de COVID-19. Este tema foi escolhido pela sua forte base biotecnológica, visto que foi necessário o uso de diversas biotecnologias para a confecção das vacinas para o vírus, além de que as próprias vacinas também são biotecnologias.
Davi Marcos Cintra Barbosa
Aluno de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.
A pandemia de COVID-19 foi um marco do século XXI. Com início no final de 2019, após um surto na cidade chinesa de Wuhan causado pelo vírus SARS-CoV-2, a infecção viral foi considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 11 de março de 2020, como uma pandemia global. Os motivos para a consideração eram claros: a doença se espalhava por vários continentes, o número de casos de infecção aumentava rapidamente e o contexto ameaçava os sistemas de saúde globais [1]. A situação requer uma solução, e foi nesse sentido que diversas organizações científicas acadêmicas, empresariais e governamentais iniciaram uma corrida para a fabricação de uma vacina que colocasse fim ao caos. Entretanto, sozinhas essas entidades não teriam a mesma eficácia que uma cooperação científica proporciona, por isso diversas colaborações e trocas de conhecimento foram realizadas durante a pandemia para acelerar o processo de pesquisa e desenvolvimento. Sob essa ótica, essas colaborações serão melhor descritas a seguir, além de seus impactos na formação de uma sociedade global mais sustentável e unida [2].
Figura 1 — Médicos e pacientes durante a pandemia de Covid-19. Fonte: AFP [5].
Entendendo o processo de fabricação das vacinas
Diversos tipos de vacinas existem hoje. Porém, duas perguntas mais imediatas precisam ser feitas: “o que é uma vacina?”, “como funciona?”. Bem, uma vacina é uma biotecnologia que induz nosso corpo a se preparar contra algo, seja uma infecção por uma bactéria, ou contra um vírus sazonal, como o da gripe. O princípio de funcionamento de uma vacina clássica é o de usar como indutor o próprio causador da doença enfraquecido ou parte dele que não seja tóxico. Exemplificando, imagine que estamos criando uma vacina contra uma nova gripe até então sem vacina disponível; podemos isolar o vírus dessa gripe de forma que alterações nele sejam possíveis. Usamos essa possibilidade para o enfraquecer de maneira que esse vírus isolado não possa causar danos a nós, o que em geral é chamado de atenuação. Após essa atenuação, injetamos esse vírus enfraquecido em nossa corrente sanguínea e nosso sistema de defesa corporal, também chamado de sistema imune, identifica o vírus como um ser estranho a ser eliminado, criando defesas de curto e longo prazo para eliminar todo o vírus presente e evitar que novas infecções com o mesmo vírus ocorram. Como já dito, há estratégias em que o vírus inteiro enfraquecido não é usado como indutor, mas somente uma parte dele, que já é suficiente para que nosso sistema imune reconheça o vírus posteriormente na situação de uma infecção. Hoje em dia, as tecnologias de vacinas não se limitam somente ao causador da doença em sua forma atenuada integral ou a pedaços dele. Nesse sentido, durante a pandemia, diferentes plataformas biotecnológicas foram utilizadas, como as vacinas de RNA mensageiro, vetores virais e produção recombinante de proteínas. Todos esses novos tipos de vacinas, embora utilizem de biotecnologias diferentes das usadas em vacinas clássicas já discutidas, promovem a mesma reação do sistema imune: a produção de defesa a curto e longo prazo para infecções futuras, ou seja, essas novas vacinas são maneiras diferentes de ensinar o corpo a reconhecer o vírus.
Em geral, até se obter uma vacina disponível ao público, como aquelas fornecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as vacinas precisam passar por uma longa trajetória de testes. O primeiro passo é a pesquisa pré-clínica, em que são feitos estudos em laboratório e em animais para avaliação da eficácia da vacina. Depois, mais três passos, denominados fases clínicas, avaliam a eficácia, dose adequada e segurança da vacina para uso em humanos. Somente depois da terceira fase clínica, em que o teste deve ser feito com milhares de pessoas, uma vacina pode ser amplamente liberada para o público. Embora 4 passos possam parecer pouco em termos numéricos, a carga de trabalho e de esforço que cada uma dessas fases carrega torna o processo de fabricação de vacinas extremamente lento e desafiador, de maneira que grande parte dos projetos de desenvolvimento de vacinas nem ao menos chegam à fase clínica. É nesse sentido em que a cooperação atua como um divisor de águas, como abordado a seguir [2].
A cooperação no desenvolvimento da vacina do coronavírus
Em setembro de 2021, um grupo de três cientistas das faculdades de direito das universidades de Copenhague, na Dinamarca, e de Michigan, nos Estados Unidos da América, analisaram dados da OMS referentes à produção das vacinas do coronavírus, buscando entender os padrões do cooperativismo. Segundo o estudo, em apenas um ano de pesquisa, iniciada em 2020 com o início da pandemia, 93 colaborações de desenvolvimento de vacinas foram identificadas. Esse número foi considerado muito alto, principalmente quando comparado com o relatório de 2011 da OMS que registrou 101 transferências tecnológicas em duas décadas, indicando que a pandemia acelerou a cooperação científica. Ainda sobre o estudo, as parcerias foram divididas em dois tipos: compartilhamento de conhecimento científico, que compunha a troca de informações, colaboração em pesquisa e desenvolvimento conjunto de um projeto, e transferência de materiais ou infraestruturas, que se baseava na transferência de tecnologias, compartilhamento de equipamentos, licenciamento e propriedade intelectual, e terceirização da fabricação. No primeiro tipo foram identificadas 35 parcerias, sendo a maioria dessas composta por instituições acadêmicas, ou seja, de universidades e centros de pesquisa públicos. Quanto ao segundo tipo, 46 foram encontradas, sendo a maioria composta por empresas privadas de biotecnologia e instituições governamentais [3].
O teor das parcerias, como dividido pelos autores no estudo, mostrou que boa parte delas não se baseava em troca aberta do conhecimento científico, mas sim na terceirização das atividades de produção de uma empresa para outra mais qualificada para uma tarefa específica, mantendo a tecnologia da vacina como uma propriedade intelectual privada. Pode-se exemplificar isso da seguinte forma: uma empresa desenvolve uma vacina que passa em todos os testes pré-clínicos, ou seja, é eficaz e segura tanto em testes laboratoriais como em testes em animais. Porém, a mesma empresa não tem o conhecimento ou os equipamentos necessários para a efetuação dos próximos passos de desenvolvimento. Nesse sentido, a vacina é enviada a uma empresa capacitada. Uma pergunta que pode surgir neste momento é: de que maneira essa terceirização impede a passagem de conhecimento entre ambas as partes sobre o desenvolvimento? O impedimento se dá ao passo que toda a tecnologia e todos os protocolos da fabricação ficam retidos à primeira empresa, ou seja, a empresa terceira não recebe os protocolos e o processo detalhado da fabricação e fica responsável somente pelos testes. Em caso de falhas na vacina, a empresa que cuida de resolver esses problemas é a primeira, de maneira que o conteúdo intelectual dela não é vazado [3]. Percebe-se que esse tipo de parceria não é o ideal para a formação de uma ciência unificadora e sustentável a nível global, uma vez que somente intensifica o processo de desigualdade, como abordado a seguir.
Parcerias e meios de implementação, o alicerce para um mundo sustentável
Em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU), definiu 17 metas globais, denominadas Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), visando orientar países, organizações e a sociedade na busca por um desenvolvimento sustentável e equilibrado do globo até o ano de 2030. Em suma, esses objetivos buscam atender as necessidades da sociedade atual sem comprometer a viabilidade das gerações futuras, promovendo a manutenção de três dimensões: ambiental, social e econômica. A 17ª meta dessa lista, também chamada de Parcerias e meios de implementação, visa a cooperação internacional entre governos, empresas, universidades e sociedade civil para resolver problemas globais. Neste ponto, é possível perceber que essa meta é essencial para que qualquer outra meta seja alcançada, visto que a cooperação e o compartilhamento de tecnologias, conhecimentos e ciências permitem com que as nações caminhem juntas com um dado objetivo e possam contribuir para seu desenvolvimento igualmente [4].
Um exemplo disso, já discutido anteriormente, foi a colaboração para o desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus. Parte dessas colaborações se baseia em trocas diretas de conhecimento e desenvolvimento conjunto, o que certamente alavancou o processo da fabricação dessa biotecnologia, que em outras situações de menor colaboração poderia levar anos para ficar pronta. Ao contrário, em apenas um ano cerca de 280 candidatos potenciais já estavam em fases pré-clínicas avançadas e alguns até em fases clínicas. Como também já discutido, a maioria dessas colaborações teve caráter unidirecional, ou seja, o conhecimento da técnica era retido em somente uma das partes da fabricação. Porém, mesmo com esse caráter, percebe-se que a cooperação tornou possível o desenvolvimento completo dessas vacinas em tempo recorde. Nesse sentido, a importância da cooperação, em especial do compartilhamento de tecnologias e conhecimento, se mostra clara: em um mundo em que todas as partes podem contribuir igualmente para um objetivo maior e detêm o conhecimento e maquinário necessários para tal, novas melhorias e soluções para problemas atuais do globo podem surgir cada vez mais rápido e propiciar vida digna para a sociedade atual e para as próximas gerações. Portanto, a biotecnologia atuou e está atuando como uma ponte entre países para uma união maior, reforçando o alcance dos ODS, em especial o 17º [3,4]. É com essa visão de ciência colaborativa que o curso de Biotecnologia da EACH-USP forma seus profissionais, capacitando os estudantes para transformar o conhecimento técnico em soluções reais que atendam às necessidades da nossa comunidade e do mundo.
Referência:
[1] CUCINOTTA, D.; VANELLI, M. WHO Declares COVID-19 a Pandemic. Acta Bio-Medica: Atenei Parmensis, v. 91, n. 1, p. 157-160, 19 mar. 2020.
[2] SUMIRTANURDIN, R.; BARLIANA, M. I. Coronavirus Disease 2019 Vaccine Development: An Overview. Viral Immunology, 23 set. 2020.
[3] DRUEDAHL, L. C.; MINSSEN, T.; NICHOLSON PRICE, W. Collaboration in Times of Crisis: a Study on COVID-19 Vaccine R&D Partnerships. Vaccine, v. 39, n. 42, p. 6291-6295, 2 set. 2021.
[4] ONU. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável | As Nações Unidas no Brasil. Disponível em: <https://brasil.un.org/pt-br/sdgs>.
[5] OGLOBO. Há exatos 5 anos, a OMS descreveu a Covid-19 como uma “pandemia” pela 1a vez. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/03/11/ha-exatos-5-anos-a-oms-descreveu-a-covid-19-como-uma-pandemia-pela-1a-vez.ghtml>.