Como a biotecnologia pode atuar para combater a fome oculta

Objetivo: Relacionar aplicações biotecnológicas à ODS 2 – “Fome Zero e Agricultura Sustentável”, focando no objetivo 2.2 – “Acabar com todas as formas de desnutrição”, destacando o potencial de plantas geneticamente modificadas.

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Mariane Tamy Kuniosh

Aluna de graduação em Biotecnologia, Universidade de São Paulo.

A fome oculta é uma forma de desnutrição caracterizada pelo consumo insuficiente de micronutrientes (vitaminas e minerais), que são essenciais para o funcionamento pleno do organismo. Infelizmente, comunidades mais carentes são as mais suscetíveis a este quadro, uma vez que costumam apresentar um consumo de alimentos menos diversificado [1]. Uma das maiores preocupações nesse quesito é com a falta de vitamina A de crianças e gestantes, que pode levar à perda da visão e ao enfraquecimento do sistema imune, deixando o corpo mais suscetível a outras doenças, o que pode levar muitas vezes à morte [2]. Ações que promovem a suplementação dessa vitamina em regiões mais afetadas, como países da África subsaariana e do sudeste asiático, são extremamente necessárias e salvam a vida de milhares de crianças todos os anos [3].

A biotecnologia têm também formas com que pode ajudar na solução desse problema: a biofortificação e plantas geneticamente modificadas – também conhecidas como plantas transgênicas. A biofortificação consiste no aumento de nutrientes disponíveis no consumo de determinada planta. Esse aumento pode ser feito por meio de uma série de cruzamentos entre plantas, de modo a selecionar àquelas que possuem um maior valor nutritivo, ou pode ser feito por meio da engenharia genética, criando uma variante transgênica. Mas o que seria uma planta transgênica?

Plantas transgênicas são plantas que receberam um gene (ou mais), vindo de outro organismo, com o objetivo de obter novas características. O gene é a parte do DNA que possui as instruções que vão guiar o organismo a produzir certos produtos ou executar certas funções, possibilitando esse processo. Um exemplo de planta transgênica biofortificada é o arroz dourado (do inglês “Golden Rice”), desenvolvida por Ingo Potrykus e Peter Beyer, que recebeu genes de outras plantas para ser capaz de produzir e acumular o betacaroteno, um precursor importante que é convertido em vitamina A pelo organismo humano [4]. Uma das variantes doadas para o setor público para pesquisa é a GR2E, que foi feita incorporando genes do milho (Zae mays) e da bactéria Pantoea ananatis [5-6]. É importante ressaltar que apesar de ser propriedade de uma empresa privada (Syngenta), a tecnologia do arroz dourado pode ser licenciada de forma gratuita para a pesquisa em países em desenvolvimento para a causa humanitária (não comercial), e seus termos garantem o livre cultivo por agricultores, permitindo a venda local e replantio [4 e 1].

Comparação entre arroz branco (esquerda) e arroz dourado (direita). O arroz dourado apresenta coloração amarelada devido à presença de caroteno. Fonte: The Golden Rice Project [7].

A biotecnologia, portanto, possui um enorme potencial na luta contra a fome, seja por meio da biofortificação como explorado neste texto, ou de outras formas. A sua aplicação, no entanto, ainda é limitada, principalmente em relação aos transgênicos. Essa limitação se deve a diversos fatores: ensaios de segurança biológica e ambiental, processos regulatórios e adesão/opinião pública. Este último, por vezes, passa a envolver aspectos além da ciência, e podem (ou não), estar relacionadas ao mistério por trás do funcionamento da tecnologia de transgênicos. Por isto, e pela influência que a adesão da sociedade pode ter sobre a formulação de políticas e leis que regem a regulação destes produtos, a difusão do conhecimento biotecnológico também é essencial no combate contra a fome.

Referência:

[1] DUBOCK, A. An overview of agriculture, nutrition and fortification, supplementation and biofortification: Golden Rice as an example for enhancing micronutrient intake. Agriculture & Food Security, v. 6, n. 1, 6 out. 2017. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s40066-017-0135-3. Acesso em: 7 mar. 2026.

[2] STEVENS, G. A. et al. Trends and mortality effects of vitamin A deficiency in children in 138 low-income and middle-income countries between 1991 and 2013: a pooled analysis of population-based surveys. The Lancet Global Health, v. 3, n. 9, p. e528–e536, set. 2015. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(15)00039-X/fulltext. Acesso em: 6 mar. 2026

[3] IMDAD, A. et al. Vitamin A supplementation for preventing morbidity and mortality in children from six months to five years of age. Cochrane Database of Systematic Reviews, v. 2022, n. 3, 16 mar. 2022. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD008524.pub4/full. Acesso em: 7 mar. 2026.


[4] BEYER, P. et al. Golden Rice: introducing the beta-carotene biosynthesis pathway into rice endosperm by genetic engineering to defeat vitamin A deficiency. The Journal of nutrition, v. 132, n. 3, p. 506S510S, mar. 2002. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022316622149576#s0015. Acesso em: 6 mar. 2026

[5]  International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications (ISAAA). Event Name: GR2E. ISAAA Inc, 2021. Disponível em: https://www.isaaa.org/gmapprovaldatabase/event/default.asp?EventID=528. Acesso em: 7 mar. 2026.

[6] MALLIKARJUNA SWAMY, B. P. et al. Development and characterization of GR2E Golden rice introgression lines. Scientific Reports, v. 11, n. 1, p. 2496, 28 jan. 2021. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-021-82001-0. Acesso em: 7 mar. 2026.

[7] Golden Rice Humanitarian Board. The Golden Rice Project. Disponível em: https://www.goldenrice.org/