NEOFASCISMO DE PLATAFORMA. POLÍTICA E INDÚSTRIA CULTURAL HOJE
REINTERPRETANDO O CONCEITO DE INDÚSTRIA CULTURAL A PARTIR DO NEOFASCISMO ATUAL E DO CAPITALISMO DE PLATAFORMA
COM BRUNA DELLA TORRE (UNIVERSIDADE DE HEIDELBERG)
A apresentação tem como objetivo propor uma reinterpretação do conceito de “indústria cultural” a partir do problema contemporâneo do neofascismo e de sua organização sob o capitalismo de plataforma. Partindo das investigações clássicas do Instituto de Pesquisa Social sobre fascismo – centradas nas relações entre Estado e indivíduo, capitalismo monopolista, ideologia, autoritarismo e agitação de direita –, a ideia é debater como muitos desses diagnósticos voltam a adquirir atualidade diante da ascensão global da extrema-direita após a crise de 2008. As reflexões derivam igualmente de uma pesquisa empírica sobre a propaganda bolsonarista nas redes sociais, conduzida desde 2021 entre o Brasil e a Alemanha, que permite repensar o legado conceitual da teoria crítica à luz das novas formas de dominação, subjetivação e organização política mediadas pela infraestrutura digital. A proposta é reler politicamente a teoria adorniana da “indústria cultural”, deslocando-a do âmbito exclusivo do debate estético-cultural para o da organização neofascista em escala global. Sustenta-se que a indústria cultural digital atua hoje como um partido, reconfigurando as formas de agitação e propaganda, e integrando três dimensões do conceito de organização — a política, a social e a econômica –, engendrando, simultaneamente, uma nova forma de organização da direita, a principal forma social do mundo administrado contemporâneo e o suporte estrutural da articulação entre capitalismo monopolista e fascismo em sua versão de plataforma.
RESSENTIMENTO E REGRESSÃO NÃO SÃO CONCEITOS ADEQUADOS PARA SE PENSAR O FACISMO E AS CRISES QUE O FAZEM RENASCER
REPENSANDO A CRISE LIBIDINAL DA EXTREMA-DIREITA
COM VLADIMIR SAFATLE (FFLCH/USP)
As análises atuais da extrema-direita procuram mobilizar categorias psicológicas como ressentimento e regressão para dar conta do sistema de motivações de sujeitos em suas escolhas políticas. No entanto, gostaria de defender que tais categorias são inadequadas e, muitas vezes, expressões de preconceitos, da moralização de conflitos sociais e da incapacidade de efetivamente dar conta das reais razões para agir que fortalecem hoje a ascensão da extrema-direita e do fascismo global. Proponho então uma análise crítica do uso de tais categorias, assim como melhor compreensão das dinâmicas de crise psíquica que tem impulsionado a retomada do fascismo.
10/11/2025
Nem ressentimento nem regressão: psicanálise do novo fascismo global
O PARADOXO ENTRE A PAZ E O DESMEMBRAMENTO SOCIAL NA CONTEMPORANEIDADE
DISCUTINDO AS CRISES SOCIAIS
COM CICERO ARAUJO (FFLCH/USP)
Pretendemos expor um quadro do pior cenário da crise contemporânea, através do conceito durkheimeano de anomia. Para tanto, faremos uma retrospectiva do pós-gerra, época (agora em vias de se encerrar) caracterizada por relativa paz no território dos estados mais poderosos, em que uma gigantesca intensificação das trocas mercantis, e as altas e baixas do desempenho econômico dela resultante, se combinam com um lento e progressivo desmembramento social. Nossa análise vai se concentrar na interpretação desse aparente paradoxo (paz x desmembramento social), a fim de projetar alguns elementos do novo período que se abre.
QUAIS AS CHANCES DE SOBREVIVÊNCIA DAS SOCIEDADES DO SÉCULO XXI?
DISCUTINDO A CRISE ECOLÓGICA
com Luiz Marquez (IFCH/UNICAMP)
É preciso estimar as chances de sobrevivência das sociedades neste segundo quarto de século a partir da combinação de um certo número de certezas e de uma incerteza fundamental. As certezas são dadas pelo comportamento bem conhecido e observado das coordenadas biológicas e geofísicas do sistema Terra, suas condições atuais e suas dinâmicas de degradação, que desfavorecem a permanência da biota planetária, aí incluída, evidentemente, nossa espécie. A incerteza fundamental é dada pela maior ou menor capacidade das sociedades de reagir politicamente a essas certezas.