{"id":427,"date":"2015-07-22T12:51:02","date_gmt":"2015-07-22T15:51:02","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/comissaodaverdade\/?page_id=427"},"modified":"2015-07-23T17:22:56","modified_gmt":"2015-07-23T20:22:56","slug":"professores","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/sites.usp.br\/comissaodaverdade\/informacoes-disponiveis\/depoimentos\/faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo\/professores\/","title":{"rendered":"Professores"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>S\u00e9rgio Ferro.\u00a0<\/strong><strong>Depoimento elaborado para a CV\/USP:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"text-decoration: underline\">A FAUUSP e a Ditadura Militar<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>\u00a0Logo ap\u00f3s o 1\u00b0 de Abril de 1964, o reitor Gama e Silva nomeia uma comiss\u00e3o n\u00e3o oficial composta por professores para investigar \u00ab\u00a0atividades subversivas\u00a0\u00bb na USP (Universidade de S\u00e3o Paulo). Na FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S\u00e3o Paulo), esta comiss\u00e3o denuncia os professores Jo\u00e3o Batista Villanova Artigas e Abelardo Reidy de Souza, e o estudante Silvio Barros Sawaia. Afora os professores Paulo Duarte e Florestan Fernandes, quase ningu\u00e9m \u00a0protesta. O Conselho Universit\u00e1rio aprova uma mo\u00e7\u00e3o apresentada pelo professor Alfredo Buzaid de apoio \u00e0 comiss\u00e3o. Votam contra somente os professores Erasmo Garcia Mendes e Valter Colli, representantes dos ex-alunos e auxiliares de ensino. Todos os catedr\u00e1ticos votam a favor. A comiss\u00e3o \u00e9, deste modo, \u00ab\u00a0legalizada\u00a0\u00bb.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>No segundo semestre de 1964, s\u00e3o instaurados os IPM (Inqu\u00e9ritos Policiais-Militares). Na FAUUSP ocorrem durante o per\u00eddo letivo nas salas de aula requisitadas para este fim. O professor Jo\u00e3o Batista Villanova Artigas, fundador, programador e principal arquiteto da FAUUSP, \u00e9 indiciado e preso diante de professores, alunos e funcion\u00e1rios. O professor Abelardo Reidy de Souza tamb\u00e9m \u00e9 indiciado. Os dois ser\u00e3o posteriormente \u00ab\u00a0inocentados\u00a0\u00bb.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Os assistentes de ensino Rodrigo Brotero Lef\u00e8vre e S\u00e9rgio Ferro s\u00e3o interrogados na sala em que ensinavam.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>N\u00e3o houve nenhum protesto por parte USP, nem da FAUUSP.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Em 1969, s\u00e3o aposentados compulsoriamente: em 29 de Abril, o professor Jo\u00e3o Batista Villanova Artigas; em 30 de Abril, os professores Jon Andoni Vergareche Maitrejean e Paulo Mendes da Rocha. Afora o professor Ernst Wolfgang Hamburger, n\u00e3o houve quem protestasse por parte da USP, nem da FAUUSP.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Em 02.12.1970, os professores Rodrigo Brotero Lef\u00e8vre e S\u00e9rgio Ferro s\u00e3o presos pela OBAN. Uma comiss\u00e3o composta por representantes do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), da FAUS (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, da qual os dois professores s\u00e3o tamb\u00e9m fundadores) e da FAUUSP dirige-se \u00e0 OBAN para informar-se sobre as pris\u00f5es. Apesar dos evidentes sinais de torturas praticadas nos dois professores, a comiss\u00e3o retira-se sem nada comentar, \u00a0nem ent\u00e3o, nem depois.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>N\u00e3o houve nenhum protesto por parte da USP, nem da FAUUSP.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Em 02.12.1971, os professores Rodrigo Brotero Lef\u00e8vre e S\u00e9rgio Ferro s\u00e3o liberados sob condi\u00e7\u00f5es. Apesar de ainda serem oficialmente professores da FAUUSP, n\u00e3o s\u00e3o inscritos no programa de ensino do ano de 1972. N\u00e3o s\u00e3o nem \u00ab\u00a0aposentados\u00a0\u00bb, nem encarregados de nenhuma atividade pela FAUUSP. O professor S\u00e9rgio Ferro, sem nenhum trabalho (salvo um artigo para a revista Veja), deixa o Pa\u00eds com autoriza\u00e7\u00e3o da 2\u00b0 Auditoria Militar. Seu contrato de trabalho com a FAUUSP expira\u00a0 silenciosamente em dezembro de 1973. Pouco depois, o professor Rodrigo Brotero Lef\u00e8vre \u00e9 reintegrado \u00e0 FAUUSP gra\u00e7as a um processo que move contra a USP.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Ausente desde 1972 do Brasil, eu, S\u00e9rgio Ferro, n\u00e3o tenho conhecimento de nenhuma declara\u00e7\u00e3o oficial ou de alguma a\u00e7\u00e3o clara que demonstre \u00a0rep\u00fadio por parte da USP ou da FAUUSP com rela\u00e7\u00e3o a inqu\u00e9ritos, pris\u00f5es, torturas ou assassinato perpetrados contra professores, alunos e funcion\u00e1rios destas institui\u00e7\u00f5es. Espero que me engane. Entretanto posso afirmar que nem o professor Rodrigo Brotero Lef\u00e8vre, nem eu, nunca recebemos nenhuma palavra destas institui\u00e7\u00f5es condenando ou lamentando o que aconteceu conosco, nem propondo reintegra\u00e7\u00e3o ou qualquer medida de repara\u00e7\u00e3o. A mesquinhez e a indiferen\u00e7a chegam ao ponto de n\u00e3o me atribuirem a pequena aposentadoria a que tenho direito.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O sil\u00eancio da USP e da FAUUSP quanto \u00e0s suas lament\u00e1veis atitudes durante a Ditadura faz delas aliadas objetivas de seus crimes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Grignan, maio de 2015<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>S\u00e9rgio Ferro.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Declara\u00e7\u00e3o realizada por ocasi\u00e3o do Lan\u00e7amento do Livro <i>Artes pl\u00e1sticas e trabalho livre &#8211; de D\u00fcrer a Vel\u00e1zquez<\/i>, de S\u00e9rgio Ferro, no dia 5 de mar\u00e7o, no Centro Universit\u00e1rio Maria Antonia, em debate apresentado entre o autor e os professores Roberto Schwarz e Jens Baumgarten. <strong>Segue a transcri\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>\u201cAntes de come\u00e7ar a falar de arte, do livro sobre o renascimento at\u00e9 o s\u00e9culo 16,\u00a0 eu tenho o dever, como \u00e9 a primeira vez que volto a essa escola da rua Maria Ant\u00f4nia, h\u00e1 cerca de 50 anos, n\u00e3o me lembro mais, eu sinto-me no dever de fazer algumas reclama\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 institui\u00e7\u00e3o que tem a gentileza hoje de me receber. Sei que o que eu vou dizer tem muito pouca rela\u00e7\u00e3o\u00a0 com as pessoas que hoje trabalham aqui e com as pessoas que hoje dirigem essa casa e dirigem a Universidade de S\u00e3o Paulo, mas eu n\u00e3o posso, em fun\u00e7\u00e3o de certas coisas que vivemos aqui, nessa casa, e de muitos alunos que conheci aqui, professores e funcion\u00e1rios, enfim, eu n\u00e3o posso ficar quieto.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Eu me lembro que em 1964, assim que os militares tomaram o poder, eles vieram \u00e0 filosofia da Maria Ant\u00f4nia, como vieram \u00e0 FAU, sem nenhum pudor, entraram, sentaram os rabinhos respectivos nas cadeiras dos professores, convocaram professores, alunos e funcion\u00e1rios para um question\u00e1rio sobre opini\u00f5es pol\u00edticas, sobre o que pensavam, sobre o que n\u00e3o pensavam. A nova gera\u00e7\u00e3o, a minha, naquele momento, achava aquilo de um rid\u00edculo total, mas os professores mais antigos, os fundadores dessas escolas, julgaram ter a obriga\u00e7\u00e3o de ter um outro tipo de posi\u00e7\u00e3o. E eu me lembro a tristeza enorme que n\u00f3s tivemos na FAU quando aqueles cretinos escoltaram o professor Artigas, que tinha fundado, tinha criado a escola, levando-o preso a partir da sala de aula na qual ele ensinava. A nobre institui\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo n\u00e3o disse nada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Pouco tempo depois, alunos, professores, come\u00e7aram a ser afastados, alguns desapareceram, come\u00e7ou a haver uma certa persegui\u00e7\u00e3o, muitos cassados,\u00a0 muitos impedidos de ensinar, e isso foi aumentando. A gravidade dos fatos foi aumentando, come\u00e7aram a aparecer assassinatos violentos. Me lembro de um aluno aqui dessa escola, o Benetazzo, que apareceu morto. Um outro aluno tamb\u00e9m, muito ligado a mim, o Fleurizinho, o sobrinho do outro, que teve tamb\u00e9m que se suicidar na pris\u00e3o. E assim continuou. E a nobre institui\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo sempre em sil\u00eancio. Pouco depois, alguns professores foram presos, entre eles, o Rodrigo L\u00e8fevre e eu. A institui\u00e7\u00e3o mandou emiss\u00e1rios nos visitar e eles ficaram assustad\u00edssimos com o que ouviram porque descobriram que n\u00f3s particip\u00e1vamos da resist\u00eancia armada \u00e0 ditadura. Eles ficaram com cara de bobos, n\u00e3o protestaram, e ficaram em sil\u00eancio tamb\u00e9m. Poderiam pelo menos ter protestado contra a tortura, que era evidente, que era palp\u00e1vel, que era vis\u00edvel. N\u00e3o disseram nada. Pouco depois, sa\u00edmos da pris\u00e3o, Rodrigo, eu, e outros. A solu\u00e7\u00e3o da Universidade foi ainda a do sil\u00eancio. Tanto Rodrigo quanto eu simplesmente desaparecemos do programa da FAU, n\u00e3o const\u00e1vamos mais. N\u00e3o disseram nada: n\u00e3o est\u00e1vamos expulsos, nem admitidos, nem est\u00e1vamos dentro, nem est\u00e1vamos fora. A nobre institui\u00e7\u00e3o continuou em sil\u00eancio.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>A gente poderia pensar que talvez fosse o medo, talvez fosse o medo da repress\u00e3o, a timidez diante do poder enorme da ditadura. Mas quando acabou a ditadura a Universidade de S\u00e3o Paulo continuou em sil\u00eancio, n\u00e3o dizendo absolutamente nada. Enquanto outras Universidades, outras institui\u00e7\u00f5es, aceitaram de volta outros professores, reconvocaram e reinstalaram no ensino, a Universidade de S\u00e3o Paulo n\u00e3o fez absolutamente nada. At\u00e9 hoje ela continua em sil\u00eancio. E problemas rid\u00edculos: at\u00e9 hoje, por exemplo, essa Universidade n\u00e3o me deu aposentadoria, \u00e0 qual eu teria direito. E assim vai, e assim continua. Esse sil\u00eancio da Universidade pesa, e pesa muito. Porque se ela n\u00e3o diz nada, n\u00e3o desmentiu, n\u00e3o protestou, mesmo depois do fim da ditadura, \u00e9 porque de uma certa maneira ela encampa, ela aceita, ela assina embaixo de tudo o que foi feito na Universidade de S\u00e3o Paulo e contra a qual nada disse at\u00e9 hoje.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Eu sinto muito: estou sendo recebido nessa escola, estou sendo recebido nesse espa\u00e7o, mas n\u00e3o podia de maneira nenhuma n\u00e3o dizer, n\u00e3o falar essas coisas. Vamos agora voltar pro campo da arte. Eu preferia ouvir primeiro o que os meus amigos v\u00e3o dizer e depois responderia. Eu tive um problema de sa\u00fade grave e estou ficando sem ar, preciso respirar. Eu preciso parar, mais tarde eu retomo a palavra. (palmas).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O Pedrinho pediu pra eu lembrar que a Maria Ant\u00f4nia foi espa\u00e7o de resist\u00eancia importante. Eu n\u00e3o mencionei, mas alunos, professores e funcion\u00e1rios dessa escola tiveram atitudes bel\u00edssimas, fort\u00edssimas, de resist\u00eancia. Eu falo contra a institui\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, mortal, que se chama Universidade de S\u00e3o Paulo\u201d.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Ferro.\u00a0Depoimento elaborado para a CV\/USP: . 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