{"id":3482,"date":"2019-02-01T09:36:07","date_gmt":"2019-02-01T11:36:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.fmrp.usp.br\/?p=3482"},"modified":"2021-01-15T11:40:49","modified_gmt":"2021-01-15T13:40:49","slug":"arquivos-3482","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/devfmrp\/arquivos-3482\/","title":{"rendered":"Prof. Marin-Neto faz discurso emocionante na cerim\u00f4nia de outorga de grau da 62\u00aa Turma do curso de Medicina da FMRP-USP"},"content":{"rendered":"&#8221;Quero saudar, primeiramente, os nossos queridos acad\u00eamicos, M\u00e9dicos rec\u00e9m-diplomados, e seus ilustres genitores, as senhoras m\u00e3es e os senhores pais, suas av\u00f3s e seus av\u00f4s, bem como suas companheiras e companheiros de qualquer qualifica\u00e7\u00e3o e titula\u00e7\u00e3o, e demais parentes e amigos. Estou infringindo o protocolo, mas <em>tudo vale a pena, quando a alma n\u00e3o \u00e9 pequena<\/em>, escudo-me em Fernando Pessoa. Sa\u00fado, ainda, em especial, os professores mais felizes aqui presentes, que combinam o papel de m\u00e3es ou pais, com o de mestres, Professores J\u00falio Moriguti e Leandra e Fernando Ramalho, com suas filhas L\u00edvia e Fernanda Ramalho. E tamb\u00e9m a m\u00e3e e o pai da acad\u00eamica Mariana Halah, Fernanda e Ricardo Halah, de outra gera\u00e7\u00e3o de nossos ex-alunos diplomados por esta Escola de Medicina entre 1990 e 1994. Tamb\u00e9m tive essa felicidade, quando meu filho Guilherme graduou-se por esta Faculdade h\u00e1 exatos 20 anos, em 1998.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas dias tentei escrever um discurso, que talvez lhes envie para lerem em momento mais prop\u00edcio. Agora, por restri\u00e7\u00e3o de tempo, vou seguir o lema de que,\u00a0<em>quando o cora\u00e7\u00e3o fala, dispensa-se o discurso<\/em>, e eu lhes falarei, a todos, com o cora\u00e7\u00e3o, direto ao cora\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, para dividir com todos algumas reflex\u00f5es heterog\u00eaneas sobre este momento hist\u00f3rico em nossas vidas. Esta figura de reflex\u00f5es heterog\u00eaneas era muito usada pelo Professor H\u00e9lio Louren\u00e7o de Oliveira, talvez o mais marcante entre tantos Professores dos quais tive o privil\u00e9gio de receber influ\u00eancia direta durante minha forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00eas, queridos afilhados, trajando indument\u00e1ria talar, pr\u00f3pria para solenidades desta envergadura, acabam de prestar o juramento de Hip\u00f3crates, personagem hist\u00f3rico real, e prot\u00f3tipo de M\u00e9dico exemplar, de quem s\u00e3o sucessores concretos, atrav\u00e9s desse compromisso um pouco anacr\u00f4nico e bizarro nos termos, por\u00e9m sempre atual e edificante no sentido de seus ideais \u00e9ticos.<\/p>\n<p>Mas quero, nesta memor\u00e1vel noite, lembrar que, al\u00e9m dos fatos e hist\u00f3ria real, h\u00e1 outro arqu\u00e9tipo, este mitol\u00f3gico, Ascl\u00e9pio ou Escul\u00e1pio, e suas filhas, Higeia, da\u00ed Higiene, para evitar doen\u00e7as, e Panaceia, para cur\u00e1-las a todas. Esse trio, Escul\u00e1pio, Higeia e Panaceia, se tornou t\u00e3o proficiente em sua arte de prevenir e curar doen\u00e7as, que Hades, o mitol\u00f3gico deus dos mortos, viu sua clientela diminuir tanto &#8211; ningu\u00e9m mais morria por doen\u00e7a &#8211; teve que intervir, e Escul\u00e1pio foi imortalizado na constela\u00e7\u00e3o do Serpent\u00e1rio. Voc\u00eas agora passam a compor a nobre estirpe dos que perpetuam o imperec\u00edvel anseio humano por curar, s\u00e3o os deposit\u00e1rios desse sonho, ele sim, imorredouro, Mas o que seria de n\u00f3s, humanos, sem os sonhos? N\u00e3o foi isso que convencionamos, meu caro F\u00e1bio Villas-Boas, voc\u00ea que me saudou em 26 de outubro passado, em nome de toda a classe? Ent\u00e3o, quando n\u00e3o mais puderem reverter o inexor\u00e1vel, materializem de outra forma o sonho e providenciem o lenitivo humano, da paz de esp\u00edrito, para que o enfermo passe \u00e0 eternidade com o cora\u00e7\u00e3o reconfortado.<\/p>\n<p>Na pessoa de nossa muito querida Diretora, a Prof<sup>a<\/sup>\u00a0Margaret de Castro, e de meu particular amigo, Professor Rui Ferriani, nas pessoas destes dois pr\u00f3ceres m\u00e1ximos de nossa Institui\u00e7\u00e3o aqui presentes, sa\u00fado as demais autoridades e todos os ilustres profissionais m\u00e9dicos e n\u00e3o-m\u00e9dicos ligados primariamente a nossa Academia, em todos os cargos e fun\u00e7\u00f5es, e que s\u00e3o por eles liderados. Mas \u00e9 em especial na pessoa de Benedito Carlos Maciel, meu mais dileto amigo entre tantos outros aqui presentes, companheiros que somos de tantas jornadas universit\u00e1rias durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, que eu sa\u00fado toda a egr\u00e9gia congrega\u00e7\u00e3o de professores aqui homenageados, menciono apenas, de passagem, alguns, Sonir, Edwaldo, Miguel Hip\u00f3lito, Valdes, mas homenageio a todos os que, como eu, representam muitos outros que n\u00e3o poderiam estar aqui por raz\u00f5es log\u00edsticas, e que mereceriam igual distin\u00e7\u00e3o. Benedito Maciel, professor exemplar de Cardiologia, pesquisador experiente e m\u00e9dico competente, fundador de escola de ecocardiografia respeitada nacional e internacionalmente, enfim, acad\u00eamico completo, e administrador inigual\u00e1vel, personifica a excel\u00eancia do setor mais complexo de nossa Institui\u00e7\u00e3o. Porquanto depois dos tr\u00eas prof\u00edcuos anos de nosso ciclo b\u00e1sico, a esse setor incumbe o acabamento de forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-acad\u00eamica, desde os tr\u00eas anos cl\u00ednicos at\u00e9 as mais elevadas etapas de treinamento, em n\u00edveis de Resid\u00eancia, e Especializa\u00e7\u00e3o. Em sua pessoa, tamb\u00e9m sa\u00fado todos os M\u00e9dicos Assistentes, Residentes, e demais participantes do grande complexo de servi\u00e7os complementares, que conferem \u00e0 nossa Institui\u00e7\u00e3o a estrutura portentosa de ensino, pesquisa e assist\u00eancia m\u00e9dica que todos conhecem.<\/p>\n<p>Tentei entender por que, entre tantos outros de m\u00e9rito igual ou maior, fui eleito Paraninfo desta 62<sup>a\u00a0<\/sup>Turma, e s\u00f3 identifiquei como raz\u00e3o indiscut\u00edvel o sentimento singular da amizade que nos envolveu durante o curso. O Professor Ricardo Brandt, meu amigo desde 1965, quando inici\u00e1vamos nosso pr\u00f3prio curso, sugere que talvez mais do que minhas palavras, meu exemplo de Professor \u00e9 que ficar\u00e1 gravado para muito longe, na mem\u00f3ria futura de voc\u00eas.\u00a0 Como professor, ensinei-lhes bastante, sem d\u00favida. Para al\u00e9m da Cardiologia, propriamente dita, ensinei um pouco da ci\u00eancia da incerteza e da arte da probabilidade, com o teorema de Bayes. Juntos analisamos dilemas e problemas cardiovasculares, e o s\u00e1bio enfoque cl\u00ednico hol\u00edstico para muitas doen\u00e7as e condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Voc\u00eas agradeceram muito elegendo-me Paraninfo. Mas avaliem o quanto me d\u00e3o em troca. Eu dei apenas o b\u00e1sico, de uma rela\u00e7\u00e3o de ensino e aprendizado.\u00a0Voc\u00eas s\u00e3o muitos, se potenciam pelo n\u00famero; e o todo ficou imensamente maior do que a soma das partes.\u00a0Voc\u00eas suprem com gratas emo\u00e7\u00f5es, a tristeza de termos que trabalhar com a desgra\u00e7a dos doentes. Compensam, com sua receptividade ao que ensino, as minhas frustra\u00e7\u00f5es e desventuras, por n\u00e3o poder resolver como pesquisador cl\u00ednico tantas quest\u00f5es cient\u00edficas relevantes; suavizam e atenuam minha limita\u00e7\u00e3o como M\u00e9dico que nem sempre consegue impedir a morte em sua mesa de Hemodin\u00e2mica. Mas com\u00a0voc\u00eas tenho sempre gratifica\u00e7\u00e3o, pelo intenso retorno que vivencio. Jamais me esquecerei do que um de voc\u00eas, Ugo Aimoli, verbalizou sobre qual seria a raz\u00e3o para tanto estresse por ocasi\u00e3o do exame oral que aplicamos h\u00e1 d\u00e9cadas na Cardiologia: Ugo disse isto: O principal \u00e9 que temos receio de decepcion\u00e1-lo, Professor&#8221;. Com essa revela\u00e7\u00e3o desvendava-se todo um contexto de sentimentos positivos rec\u00edprocos, e \u00e9 sempre dif\u00edcil conter a emo\u00e7\u00e3o que me assalta vendo o esfor\u00e7o de\u00a0voc\u00eas para interpretar um ECG, e n\u00e3o me decepcionarem.<\/p>\n<p>Como Professor, sempre estive envolvido no mister edificante de ensinar, e avaliar, esta parte a mais dif\u00edcil, certo, Professor Valdes? Por\u00e9m, antes de ser um Professor, sou um M\u00e9dico, exatamente como voc\u00eas. E nisso estamos todos agora igualados, tenho imenso orgulho de t\u00ea-los finalmente como meus pares. Aqui vai uma pequena confid\u00eancia a Voc\u00eas. No inverno de 1976, h\u00e1 42 anos, durante um post-doc que fazia em Oxford, Inglaterra, fui visitado por Maciel e J\u00falio Voltarelli, de quem eu reverencio a mem\u00f3ria em nome de todos os outros que j\u00e1 nos deixaram, e imprimiram marca indel\u00e9vel na forma\u00e7\u00e3o dos graduados por esta Faculdade. Ent\u00e3o, formulamos o pacto de que, como ensin\u00e1vamos e pesquis\u00e1vamos com doentes, para tentar compens\u00e1-los, de alguma forma, do seu infort\u00fanio, que nos propiciava o material de trabalho, ter\u00edamos que ser n\u00e3o somente bons pesquisadores e professores, mas tamb\u00e9m os melhores m\u00e9dicos poss\u00edveis, e prover-lhes assist\u00eancia perfeita, integral. A ess\u00eancia desse pacto com Maciel e Voltarelli viria a tornar-se a pedra angular de uma filosofia universit\u00e1ria que hoje vejo aplicada de forma quase universal em muitos setores de nossa escola de Medicina.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que comemoramos n\u00f3s, neste momento? O que aqui se celebra n\u00e3o \u00e9 propriamente a conquista do diploma de m\u00e9dicos, \u00e9 a quintess\u00eancia do que voc\u00eas s\u00e3o no processo grandioso de forma\u00e7\u00e3o que hoje culmina nesta cerim\u00f4nia a um tempo sagrada e c\u00edvica.<\/p>\n<p>Conforme proverbial sabedoria popular,\u00a0<em>quem trabalha com a m\u00e3o \u00e9 artes\u00e3o, com a mente \u00e9 cientista, quem trabalha com o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um artista, mas quem consegue empregar bem as m\u00e3os, a mente, e o cora\u00e7\u00e3o, esse \u00e9 um M\u00e9dico<\/em>.<\/p>\n<p>Voc\u00eas s\u00e3o esse produto acabado, verdadeira obra-prima de ci\u00eancia e arte, que ficar\u00e1, como uma sinfonia de Beethoven, ecoando para sempre nos cora\u00e7\u00f5es de todos os envolvidos nesse processo formativo, e repercutir\u00e1, especialmetne, sobre aqueles que voc\u00eas ajudar\u00e3o em sua miss\u00e3o de m\u00e9dicos.<\/p>\n<p><em>Quem vai ao mar, prepara-se em terra<\/em>. Esse antigo ad\u00e1gio lusitano, emblem\u00e1tico das grandes proezas mar\u00edtmas de nossos patr\u00edcios, aplica-se \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o que tiveram no \u00e2mbito seguro de seus lares e de nossa Faculdade de Medicina da USP.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia do ser humano \u00e9 composta de jornadas. A primeira jornada essencial preparat\u00f3ria da travessia que agora encetam e deve perdurar por toda a exist\u00eancia compreendeu o longo per\u00edodo de matura\u00e7\u00e3o f\u00edsica, intelectual e emocional, desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 a adolesc\u00eancia, fase em que receberam apoio e inspira\u00e7\u00e3o de seus genitores, os primeiros e indispens\u00e1veis professores e mentores, eles que desempenharam a fun\u00e7\u00e3o primordial de lan\u00e7ar alicerces robustos para a s\u00f3lida constru\u00e7\u00e3o humana que lhes permitiu andar pelas veredas da inf\u00e2ncia, soerguer-se das primeiras quedas, vencer as procelas da adolesc\u00eancia, entenderam at\u00e9 quando lhes vieram os primeiros amores inseguros, e angustiantes.<\/p>\n<p>A segunda jornada compreendeu per\u00edodo probat\u00f3rio mais intenso ainda, quando passaram pelo vestibular da escola m\u00e9dica mais gabaritada, sob muitos aspectos, deste Pa\u00eds. Depois, mourejaram nos bancos departamentais e laborat\u00f3rios dos longos tr\u00eas anos do ciclo b\u00e1sico, assimilaram complexos conhecimentos sobre a anatomia e o funcionamento normal dos \u00f3rg\u00e3os, suas peculiaridades bioqu\u00edmicas, farmacol\u00f3gicas, imunol\u00f3gicas, e tamb\u00e9m como seus detalhes estruturais e funcionais s\u00e3o alterados por incont\u00e1veis doen\u00e7as e processos patol\u00f3gicos. Paulatinamente, por meio de viv\u00eancias intensivas em enfermarias, ambulat\u00f3rios, salas laboratoriais e cir\u00fargicas, em per\u00edodos normais mas tamb\u00e9m durante os fatigantes plant\u00f5es noturnos, tornaram-se habilitados a diagnosticar, prognosticar e tratar os desditosos doentes. Amadureceram para alcan\u00e7ar o necess\u00e1rio equil\u00edbrio emocional que os capacita a suportar os limites da atua\u00e7\u00e3o profissional. Com isso, tornaram-se M\u00e9dicos, e j\u00e1 dominam bastante da ess\u00eancia de sua profiss\u00e3o. Em suma, Vcs s\u00e3o competentes, e a compet\u00eancia de que s\u00e3o dotados \u00e9 p\u00e1reo direto para a competitividade que lhes ser\u00e1 exigida no futuro. Essas duas palavras, se casam, se complementam. Por isso, j\u00e1 inscrever\u00e3o nesta Escola da USP mais uma hist\u00f3ria superlativa de supera\u00e7\u00e3o, com a nova etapa, de Resid\u00eancia e Especializa\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas s\u00e3o dotados desse dom ef\u00eamero mas portentoso enquanto dura, a juventude. T\u00eam acima de tudo um cora\u00e7\u00e3o jovem, pulsando com sonhos, na manh\u00e3 radiosa de sua terceira d\u00e9cada de vida, plena de luz e calor.<\/p>\n<p>Mas haver\u00e1 nessa trajet\u00f3ria futura per\u00edodos sombrios, intemp\u00e9ries, tempestades que tender\u00e3o a desestabiliz\u00e1-los. H\u00e1 circunst\u00e2ncias com inerente potencial de lhes causar dissabores, frustra\u00e7\u00f5es, decep\u00e7\u00f5es, obst\u00e1culos a serem superados, grandes desafios a serem enfrentados.<\/p>\n<p>Dever\u00e3o contribuir com muito sacrif\u00edcio para que o SUS, conquista inequ\u00edvoca de nosso ordenamento social, se aperfei\u00e7oe e concretize o princ\u00edpio constitucional de sa\u00fade realmente ser o direito do cidad\u00e3o al\u00e9m de um dever inafast\u00e1vel do estado nacional.<\/p>\n<p>Ter\u00e3o que se contrapor \u00e0 mal\u00e9vola multiplica\u00e7\u00e3o disseminada de escolas m\u00e9dicas, muitas ineptas, com efeitos que ainda repercutir\u00e3o negativamente por muitos anos no cen\u00e1rio em que atuar\u00e3o.<\/p>\n<p>Parte consider\u00e1vel da m\u00eddia de informa\u00e7\u00f5es est\u00e1 sempre \u00e0 procura de causar impacto, sensacionalismo. Como sa\u00fade e doen\u00e7a s\u00e3o temas sempre muito sens\u00edveis para a popula\u00e7\u00e3o, isso torna o M\u00e9dico um alvo sempre visado pela m\u00eddia.\u00a0 Assim como na avia\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o comporta erros, o M\u00e9dico deve realizar diuturnamente atos perfeitos, irrepreens\u00edveis, mas, humanamente, acabar\u00e1 por falhar. H\u00e1 bastante de maravilhoso no que fazemos, mas usualmente \u00e9 o nosso eventual erro que despertar\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o desproporcional. N\u00e3o h\u00e1 como evit\u00e1-la, h\u00e1 que recome\u00e7ar sempre e, no limite do humano, minimizar o erro.<\/p>\n<p>Outro desafio, v\u00e3o vivenciar a Medicina muito atrelada ao desenvolvimento vertiginoso da tecnologia. Por isso, ter\u00e3o que se opor \u00e0 atua\u00e7\u00e3o perniciosa de parte substancial da ind\u00fastria de medicamentos, equipamentos e demais insumos. Dever\u00e3o literalmente nadar contra a corrente. A ind\u00fastria \u00e0s vezes extrapola o limite de sua leg\u00edtima busca de retorno a seus investimentos, e adota condutas inescrupulosas. Atua em nome de um princ\u00edpio, em si, defens\u00e1vel, sadio, de\u00a0<em>lobby<\/em>\u00a0e\u00a0<em>marketing<\/em>, como aprendi com minha filha Cynthia e meu genro Lucas C\u00e2mara, profissionais nessa \u00e1rea, mas em contextos fora da Medicina. Contudo, o\u00a0<em>marketing<\/em>, em Medicina, com frequ\u00eancia torna-se perverso, resvala para narrativas falsas, as famigeradas\u00a0<em>fake news<\/em>, para seduzir os pr\u00f3prios M\u00e9dicos e a popula\u00e7\u00e3o em nome de conceitos de p\u00f3s-verdade.\u00a0<em>Marketing<\/em>\u00a0\u00e9\u00a0<em>marketing<\/em>, ci\u00eancia \u00e9 ci\u00eancia, Medicina \u00e9 Medicina. E desse desvirtuamento de fins e meios caber\u00e1 a\u00a0voc\u00eas protegerem seus pacientes. O bast\u00e3o de Escul\u00e1pio \u00e9 f\u00e1cil de se confundir com o caduceu de Merc\u00fario, patrono do com\u00e9rcio. Ambos os s\u00edmbolos t\u00eam um bast\u00e3o em que se enrolam serpentes, mas a de Merc\u00fario \u00e9 apenas venenosa, enquanto a nossa, de Escul\u00e1pio, tem propriedades medicinais, e eu reverencio a mem\u00f3ria do grande pesquisador de Farmacologia de nossa Faculdade, S\u00e9rgio Ferreira, quem extraiu da jararaca o que viria a ser o prot\u00f3tipo do captopril, que todos\u00a0voc\u00eas conhecem bem da Cardiologia atual.<\/p>\n<p>Eu ensinei-lhes o paradigma da Medicina Embasada em Evid\u00eancias, mas h\u00e1 que exercitar primordialmente o bom-senso, visar \u00e0 sabedoria, mais que o pr\u00f3prio conhecimento, para n\u00e3o incorrer no v\u00edcio em atribuir tudo a \u00fanica causa; \u00e9 necess\u00e1rio corrigir essa rota equivocada, rejeitar os dogmatismos, e aceitar o relativismo de muitas circunst\u00e2ncias. Como o cosmos, e a vida, a Medicina tamb\u00e9m \u00e9 quase sempre multifatorial e o m\u00e9todo cient\u00edfico, eficaz como instrumento, pode falhar. A verdade absoluta praticamente n\u00e3o existe, em geral encontra-se a meio caminho entre duas hip\u00f3teses muito \u00a0diametralmente opostas.<\/p>\n<p>Como vaticinado para diversas profiss\u00f5es, tamb\u00e9m a Medicina tender\u00e1 a ser praticada por sistemas automatizados de anamnese, exames laboratoriais e mesmo tratamentos robotizados. Entretanto, nunca haver\u00e1 algoritmo ou sistema automatizado que substitua o que Voc\u00eas ser\u00e3o capazes de fazer, isto \u00e9, prodigalizar aten\u00e7\u00e3o, carinho, solidariedade humana. Eu j\u00e1 os vi em a\u00e7\u00e3o, nesses anos passados. Voc\u00eas tornaram-se capazes de focar de maneira hol\u00edstica o doente, n\u00e3o apenas o \u00f3rg\u00e3o ou aparelho vitimado. E assim, prover empatia, calor humano, influ\u00eancia positiva. Conheci excelentes exemplos de \u00f3timos profissionais nesse sentido, minha pr\u00f3pria esposa Johana Lilian foi assim enquanto teve sa\u00fade. Olhem sempre olho no olho seus pacientes, e nunca deixem de lhes falar com a compassividade que merecem. O doente demanda carinho, acolhimento, tanto quanto solu\u00e7\u00f5es profissionais t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Sobretudo, n\u00e3o esmore\u00e7am nunca na busca incessante do certo, do justo, do apropriado para seus pacientes, mesmo quando se sentirem oprimidos por infort\u00fanios, esmagados por incompreens\u00f5es, deprimidos por percal\u00e7os e injusti\u00e7as, com dificuldade para encontrar a luz ao final de um t\u00fanel escuro. Eu lhes recordo este princ\u00edpio de sabedoria oriental que poder\u00e1 sempre norte\u00e1-los: lembrem-se de que\u00a0<em>a uva e a cana de a\u00e7\u00facar necessitam ser esmagadas, para se produzir o vinho e a cacha\u00e7a inebriante, a p\u00e9rola natural constitui-se na profundeza dos oceanos pela ostra reativa a uma agress\u00e3o, o diamante, a mais famosa das pedras preciosas, formou-se na profundeza terrestre sob condi\u00e7\u00f5es elevad\u00edssimas, de press\u00e3o, e a semente germina para liberar a vida, na escurid\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Para finalizar, vejo que do extenso leque de op\u00e7\u00f5es que voc\u00eas t\u00eam para exercer a Medicina, em cada campo de diferencia\u00e7\u00e3o haver\u00e1 \u00a0oportunidades de supera\u00e7\u00e3o, bem ao seu feitio, mas, por absoluta car\u00eancia de tempo, vou destacar apenas tr\u00eas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o, com o Obstetra, o Geriatra, e o Cardiologista.<\/p>\n<p>Come\u00e7o pelo Ginecologista-Obstetra, epitomizado aqui pelos perfis magistrais dos Professores Rui Ferriani, Geraldo Duarte e Silvana Quintana. O Obstetra atua justo quando a mulher, o ser supremo da natureza, torna-se mais sublime ainda, como aconteceu com as m\u00e3es de todos voc\u00eas. S\u00e3o elas que eu quero homenagear neste momento. Elas foram sublimes ao dar \u00e0 luz os seres que voc\u00eas s\u00e3o, mas esse momento m\u00e1gico \u00e9 traum\u00e1tico para quem nasce. Por isso que quase sempre se nasce chorando, e\u00a0<em>a raz\u00e3o desse pranto<\/em>, na definic\u00e3o po\u00e9tica e inspirada de Leandro Karnal,\u00a0<em>\u00e9 que naquele momento nos despedimos de uma mulher<\/em>, n\u00e3o uma qualquer, mas a nossa m\u00e3e. Despedimo-nos de sua quente e \u00famida cavidade uterina, e ouso dizer que percebemos de imediato essa perda porque, nesse momento crucial, paramos, de s\u00fabito, irremediavelmente, de ouvir a primeira m\u00fasica que nos embalou toda a gesta\u00e7\u00e3o, aquele compasso r\u00edtmico do cora\u00e7\u00e3o materno, que o feto ouviu o tempo todo. Pois voc\u00eas sabem, o feto j\u00e1 escuta e o cora\u00e7\u00e3o materno fala o tempo todo, com sua voz grave, rouca, pouco melodiosa \u00e9 verdade, mas reconfortante, reasseguradora. Compete ao Obstetra minimizar o trauma e os riscos desse momento cr\u00edtico de separa\u00e7\u00e3o, quando somos desalojados desse \u00fatero materno, para sempre. Depois, n\u00f3s, homens, recuperaremos algo dessa rela\u00e7\u00e3o com o \u00fatero, quando nos unirmos \u00e0 mulher amada e nela instalarmos nossa pr\u00f3pria semente vital, ventura essa que foi negada a Beethoven. Mas n\u00e3o o impediu, ou, talvez por isso mesmo, possibilitou-lhe legar \u00e0 Humanidade a exalta\u00e7\u00e3o redentora da alegria com a S\u00e9tima e Nona Sinfonias e especialmente o irreprim\u00edvel, o inextingu\u00edvel arrebatamento da Appassionata. E para as mulheres, o resgate da rela\u00e7\u00e3o perdida com o \u00fatero materno ocorrer\u00e1 quando agasalharem em seu pr\u00f3prio corpo outro prod\u00edgio existencial, de uma nova vida concebida com amor.<\/p>\n<p>Quero, a seguir, homenagear seus pais, eles que humildemente contribu\u00edram com apenas metade de seu material gen\u00e9tico, e, mais do que isso, deram o indispens\u00e1vel suporte para estabilizar e sedimentar o n\u00facleo familiar respons\u00e1vel pela trajet\u00f3ria pregressa de voc\u00eas todos. Dessa atua\u00e7\u00e3o resultou a plataforma s\u00f3lida que lhes delineou o car\u00e1ter, sua estrutura mental e f\u00edsica, que os tornou aptos a seguir esta carreira de M\u00e9dicos, a um tempo penosa e maravilhosa. Mas agora, passando de um extremo a outro da vida, quando esses pais enveredarem pelo outono e pelo inverno da exist\u00eancia, v\u00e3o se beneficiar muito de um Geriatra capacitado, este que tornou-se o deposit\u00e1rio de tantas esperan\u00e7as de um envelhecimento digno, capaz de potenciar a chance de esses pais se tornarem os av\u00f4s queridos da prole vindoura de suas filhas e filhos.<\/p>\n<p>E, por \u00faltimo, talvez eu tenha a felicidade de ainda ver alguns de voc\u00eas trilhando as sendas dif\u00edceis da Cardiologia. Porque de cora\u00e7\u00e3o voc\u00eas tamb\u00e9m j\u00e1 entendem bastante. H\u00e1 tempos eu discutia com meu amigo de inf\u00e2ncia, o ent\u00e3o Reitor Marco Zago, e o nosso maestro Rubens Ricciardi, a etimologia de aluno, o sem luz. Mas\u00a0voc\u00eas\u00a0 agora n\u00e3o mais s\u00e3o alunos, j\u00e1 brilham intensamente, com luz pr\u00f3pria. Sabem que o cora\u00e7\u00e3o, anatomicamente um \u00f3rg\u00e3o disforme, fei\u00e3o, como diria minha filha Cynthia, na fisiologia esse Quas\u00edmodo revela-se um prod\u00edgio funcional, capaz de incansavelmente bater, por trilh\u00f5es de vezes, at\u00e9 o \u00faltimo suspiro. Mas devem reconhecer que \u00e9 no simbolismo que ele \u00e9 singular, assume o papel do c\u00e9rebro, torna-se o comando existencial, constitui o sopro vital e o sentido da vida, transcende a pr\u00f3pria raz\u00e3o. Porque o cora\u00e7\u00e3o tem raz\u00f5es que a pr\u00f3pria raz\u00e3o desconhece, o que percebi sempre que tentei entender um cora\u00e7\u00e3o feminino.<\/p>\n<p>E assim, se ainda houver tempo, quem sabe, algum dia um de voc\u00eas\u00a0 poder\u00e1 cuidar de um cora\u00e7\u00e3o como o meu. Um cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 alquebrado de Cardiologista, que ao longo de quase 50 anos realizou muitos milhares de procedimentos em tantos outros cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quero me despedir com o tema recorrente que mais nos une a todos, neste momento, o da amizade. O s\u00e1bio perguntado sobre o que destruiria a amizade, se a dist\u00e2ncia, o tempo ou a eternidade, respondeu, mais como poeta do que como fil\u00f3sofo:\u00a0<em>nenhum deles, pois a amizade cresce no tempo, vive na dist\u00e2ncia, e permanece na Eternidade<\/em>. Essa amizade que nos une, e que me fez sentir tantas emo\u00e7\u00f5es, que perdure para sempre em nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sejam aben\u00e7oados e felizes, at\u00e9 quanto o permitir nossa exist\u00eancia sofrida, mas acalentada pelo senso de justi\u00e7a, pela esperan\u00e7a \u00a0sempre renovada do dever cumprido, pela amizade, nessa trajet\u00f3ria luminosa de que eu tive a honra e o imenso prazer de participar.<\/p>\n<p>Minha gratid\u00e3o, meu reconhecimento por tudo que me permitiram vivenciar, que fiquem reverberando em nossos esp\u00edritos para sempre.&#8221;<\/p>\n<p><em>\u00a0Por:\u00a0<\/em>J. Antonio Marin-Neto &#8211; Docente da FMRP-USP &#8211; Paraninfo da 62\u00aa Turma do curso de Medicina","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8221;Quero saudar, primeiramente, os nossos queridos acad\u00eamicos, M\u00e9dicos rec\u00e9m-diplomados, e seus ilustres genitores, as senhoras m\u00e3es e os senhores pais, 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