Pesquisadores brasileiros sintetizaram uma nova classe de compostos capazes de modular a homeostase do cobre no cérebro, um dos principais fatores associados à neurodegeneração na Doença de Alzheimer.
O estudo, publicado no periódico ACS Chemical Neuroscience, apresenta resultados promissores com o composto L10, que reduziu a inflamação neural, o estresse oxidativo e melhorou o desempenho de memória em modelo animal da doença.
A Doença de Alzheimer, caracterizada pela perda progressiva da memória e de funções cognitivas, ainda não possui cura, e os tratamentos disponíveis atuam apenas de forma sintomática. Embora anticorpos monoclonais recentemente aprovados ofereçam novas perspectivas terapêuticas, seus efeitos adversos e altos custos limitam a aplicação clínica.
Nesse contexto, compostos capazes de restaurar o equilíbrio metálico cerebral, especialmente do cobre, surgem como uma alternativa promissora para terapias modificadoras da doença.
O acúmulo de íons metálicos como cobre e ferro está diretamente ligado à agregação da proteína beta-amiloide e à formação das placas senis características da doença. Para explorar esse mecanismo, os pesquisadores desenvolveram nove novas moléculas com propriedades quelantes: oito iminas (L03–L10) e um composto quinolínico (L11). Essas moléculas foram projetadas para remover seletivamente o cobre ligado ao peptídeo beta-amiloide sem interferir nas funções vitais de metaloproteínas.
Testes in silico mostraram que os compostos L09, L10 e L11 apresentaram os melhores parâmetros farmacocinéticos, como boa absorção gastrointestinal, permeabilidade à barreira hematoencefálica e potencial para administração oral. Entre eles, o composto L10 se destacou por combinar estabilidade química, baixa citotoxicidade e eficiência na extração de cobre do complexo Cu–β-amiloide.
Em experimentos in vivo realizados em modelo de Alzheimer induzido por estreptozotocina, o L10 restaurou o equilíbrio de cobre no hipocampo, reduziu marcadores de neuroinflamação e estresse oxidativo, e elevou os níveis da proteína BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), essencial para a plasticidade sináptica e formação de novas memórias. Esses efeitos foram acompanhados por melhora significativa na memória espacial dos animais, avaliada pelo teste do labirinto de Barnes.
A atuação do L10 também foi associada à regulação da proteína transportadora ATP7B, cuja disfunção está relacionada a distúrbios do metabolismo de metais e à progressão da doença. A normalização desses níveis sugere um mecanismo de ação inédito, centrado na correção da homeostase do cobre neuronal.
Enquanto os medicamentos atualmente disponíveis, como os inibidores da acetilcolinesterase e os antagonistas NMDA, oferecem apenas controle sintomático, o L10 propõe uma intervenção voltada à origem molecular da doença, com potencial para retardar ou reverter processos degenerativos.
Ao reduzir o estresse oxidativo, prevenir danos ao DNA e restaurar o equilíbrio metálico no cérebro, o composto representa uma nova abordagem terapêutica de base bioinorgânica para o Alzheimer. Segundo os autores, os resultados obtidos com o L10 demonstram que quelantes de cobre racionalmente desenhados podem oferecer uma estratégia eficaz, segura e economicamente viável para o tratamento da doença, abrindo caminho para futuras etapas de desenvolvimento farmacêutico e clínico.
ZIEGLER, M. F. Pesquisadores desenvolvem composto químico com potencial contra Doença de Alzheimer. Agência FAPESP, [S.l.], 7 nov. 2025. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/pesquisadores-desenvolvem-composto-quimico-com-potencial-contra-doenca-de-alzheimer/56382. Acesso em: 10 nov. 2025.
CAMARGO, M. L. M. et al. Novel Copper Chelators Enhance Spatial Memory and Biochemical Outcomes in Alzheimer’s Disease Model. ACS Chemical Neuroscience, [S.l], v. 16, n. 17, p. 3267–3281, out. 2025. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acschemneuro.5c00291. Acesso em: 10 nov. 2025.