A gripe aviária, também conhecida como influenza aviária, é uma doença viral (H5N1) de alta patogenicidade, que afeta aves domésticas e silvestres (com destaque para anatídeos e passeriformes), além de mamíferos. O potencial de transmissão entre animais de vida livre e espécies mantidas sob cuidados humanos torna os zoológicos pontos estratégicos de vigilância e resposta rápida. Assim, para um bom controle sanitário fazem-se essenciais medidas de prevenção, detecção precoce, resposta rápida, avaliação e melhoria contínua.

Foi nesse contexto que o primeiro dia do Circuito de Aves reuniu Julio Cesar Rolhano, gestor ambiental formado pelo IFRS (Instituto Federal do Rio Grande do sul) e especialista em sustentabilidade e meio ambiente pela UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul); e a médica veterinária Tânia Junqueira Borges, graduada e mestre em ciências veterinárias pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), para compartilharem suas experiências no enfrentamento frente à influenza aviária. Rolhado detalhou sua experiência no Parque Zoológico de Sapucaia do Sul (RS), abordando um dos protocolos mais amplos já aplicados no Estado; enquanto Borges apresentou a perspectiva do Jardim Zoológico de Brasília, que enfrentou desafios clínicos e diagnósticos marcantes.
Transmissão, sinais clínicos e diagnóstico
A transmissão ocorre por contato direto entre aves, via secreções respiratórias, oculares e fezes de aves infectadas; ou indiretamente, via água, alimentos, fômites, trânsito de pessoas e outros fatores. Aves silvestres – especialmente Anseriformes, Charadriiformes e Aves migratórias – são consideradas como reservatórios do vírus, o qual se replica no trato gastrointestinal e possui um período de incubação de até 14 dias.
Conforme abordado pelos palestrantes, a gripe aviária apresenta sinais característicos, o animal acometido apresenta perda de apetite e ingestão excessiva de água, passando à limpeza excessiva das penas. Quando o quadro evolui, a doença passa a acometer o sistema nervoso, o animal então apresenta falta de coordenação motora, nada em círculos e é incapaz de sustentar o pescoço. Ademais, é possível observar a produção de muco nos olhos e vias aéreas, escurecimento do bico e a facilidade de captura (incoordenação motora, ataxia). O diagnóstico pode ser feito por PCR (reação em cadeia da polimerase), com isolamento e identificação viral. As amostras devem ser analisadas por laboratórios com nível 3 de biossegurança (NB-3).
Protocolos e Ações Realizadas no Parque Zoológico de Sapucaia do Sul
Iniciando a discussão, Julio detalhou as ações adotadas a partir do aumento da mortalidade de anatídeos no parte. A instituição, após notificação à SEAPI e SVO (Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação; e Serviço de Verificação de Óbitos, respectivamente), implementou restrição total de acesso, suspendendo visitações e bloqueando áreas sensíveis, como lagos e recintos que poderiam favorecer o contato com aves de vida livre.
Medidas rigorosas de biossegurança também foram reforçadas: paramentação completa das equipes, instalação de lonas sobre recintos de aves, pedilúvios, desinfecção de veículos e estruturas de valas de destinação e incineração controlada de resíduos contaminados. Quatro técnicos ficaram responsáveis pelas coletas e avaliações dos animais, seguindo protocolos unificados entre SEMA (Secretaria Estadual de Meio Ambiente), SEAPI, SES (Secretaria de Estado da Saúde) e FEPAM (Fundação Estadual de Proteção Ambiental).
Além do manejo sanitário, Sapucaia produziu planos de contingência, notas técnicas, relatórios e conteúdos informativos para manter a comunicação clara e atualizada. O monitoramento incluiu duas revisões diárias nos lagos, tabulação de novas mortes por localidade e acompanhamento da saúde dos envolvidos. Rolhano destacou que a integração entre equipes e instituições de modo contínuo foi essencial para manter o controle da situação e evitar a propagação do vírus dentro e fora do parque.
Manejo sanitário de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) no Zoológico de Brasília
A segunda parte da programação trouxe o relato do Jardim Zoológico de Brasília, que enfrentou situações delicadas durante o período de vigilância intensificada. O Jardim Zoológico, assim como em Sapucaia do Sul, aplicou medidas de controle sanitário de alta qualidade.
Durante a barreira sanitária um dos casos mais marcantes envolveu um emu que desenvolveu cegueira e dois dias de inapetência, levando a equipe, após vigilância passiva e observação clínica — em alinhamento com a CENAB (Centro Nacional de Emergências de Saúde Animal) — a optar pela eutanásia humanitária do animal. Tânia também relatou que, ao observar os sinais clínicos, os profissionais realizaram a coleta de suabes cloacais e orofaríngeos, os quais, após análise, retornaram com falsos negativos, isso porquê, após a eutanasia novas amostras foram coletadas e enviadas ao laboratório responsável, o qual retornou com resultado positivo para H5N1.
Episódios como esse reforçaram a importância de equipes treinadas e do apoio de laboratórios de referência para confirmação definitiva – vale ressaltar que em casos de suspeita de gripe aviária o protocolo sanitário recomenda a eutanásia. Dessa forma, as ações do Zoológico de Brasília enfatizaram que é de suma importância a prontidão institucional e a integração de equipes comodiferenciais.
Cooperação técnica e vigilância ativa
Os relatos de Sapucaia do Sul e Brasília mostraram que a influenza aviária exige ações rápidas, coordenadas e baseadas em biossegurança robusta. Mais do que uma troca de experiências, o primeiro dia do Circuito de Aves reforçou o papel dos zoológicos como sentinelas na saúde da avifauna brasileira e mostrou como a saúde única ocorre na prática.