Para encerrar o Circuito de Aves o GEAS USP/FZEA recebeu Silvia Neri Godoy, médica-veterinária do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e analista ambiental do CEMAVE, para uma palestra que esclareceu o papel estratégico do Brasil no enfrentamento ao vírus H5N1 em aves silvestres. Com formação acadêmica que inclui mestrado pela FMVZ/USP, doutorado na ESALQ/USP e pós-doutorado em Medicina Veterinária Preventiva, Silvia atua há anos na vigilância de fauna e no monitoramento de aves migratórias.
Durante a apresentação, a palestrante explicou de forma didática a evolução do vírus influenza tipo A e por que o H5N1, de alta patogenicidade, se tornou motivo de atenção global. A doença, historicamente associada a aves aquáticas, sofreu mutações que permitiram sua disseminação para novas espécies e continentes. “Estamos diante de eventos incomuns de mortalidade em fauna silvestre e de um vírus que rompe fronteiras ecológicas”, destacou Silvia.
O encontro também abordou um dos pilares do trabalho do CEMAVE: o monitoramento de rotas migratórias. Com mais de um milhão de aves anilhadas, o centro mantém um dos maiores bancos de dados da América do Sul, ferramenta essencial para prever possíveis pontos de entrada do vírus. Apesar disso, a chegada do H5N1 ao Brasil surpreendeu as equipes.
Diferente do que apontavam os modelos epidemiológicos, o primeiro caso foi registrado em maio de 2023, e não durante o pico migratório, contrariando previsões. Desde então, oito estados registraram ocorrências em aves silvestres e, posteriormente, em criações de subsistência, até então, sem impactos diretos na avicultura comercial. O Brasil continuou classificado como livre da doença no setor produtivo, fator vital para a manutenção das exportações.
Silvia apresentou ainda registros de campo que evidenciam o impacto ecológico da doença, especialmente no sul do país. Espécies como o cisne-de-pescoço-preto, que não migram, sofreram mortalidade elevada, com indivíduos apresentando distúrbios neurológicos característicos. Casos semelhantes ocorreram em países vizinhos, onde colônias de aves marinhas enfrentam perdas reprodutivas severas. A palestrante também ressaltou a importância da atuação integrada entre órgãos ambientais, vigilância sanitária e projetos de monitoramento costeiro.
Ao encerrar, Silvia reforçou orientações ao público: pessoas não devem manipular aves encontradas doentes ou mortas, devendo isolar a área e comunicar imediatamente às autoridades competentes. “O risco existe, e a prevenção depende da conscientização coletiva”, afirmou.