O ciclo de palestras também abriu espaço para um dos temas mais urgentes da conservação no país: o tráfico de aves silvestres. A médica-veterinária Fernanda Senter Magajewski, especialista em Medicina Veterinária Preventiva e responsável técnica do Centro de Reabilitação de Aves Silvestres – Pró Arara, compartilhou a realidade de quem atua diretamente na ponta desse enfrentamento. Com sólida formação acadêmica pela UNESP e experiência em epidemiologia, zoonoses e manejo de fauna apreendida, Fernanda trouxe um panorama detalhado dos bastidores da reabilitação, das implicações sanitárias e das responsabilidades do profissional veterinário diante de um dos maiores crimes ambientais do Brasil.
Alguns dos problemas frequentemente encontrados em animais oriundos da apreensão relacionada ao tráfico de animais incluem lesões resultantes de anilhas falsas, filhotes órfãos, lipomas, tendões cortados, olho furado ou queimado, osso externo quebrado e problemas respiratórios devido ao transporte em garrafas e canos de PVC.
Estima-se que 4 milhões de animais são retirados da natureza brasileira todos os anos, a maioria sendo retirada das regiões Norte e Nordeste, e os principais mercados são São Paulo, Rio de Janeiro e internacional. Os animais mais retirados são as aves, com ênfase nos psitacídeos e passeriformes. O ciclo do tráfico é realizado por caçadores que extraem animais da natureza, transportadores, atravessadores que vendem animais para os grandes centros e o mercado internacional e termina no comprador final, com 90% dos animais não sobrevivendo a esse processo (Renctas).
Esse tráfico é alimentado pela moda, mercado pet, competições de canto, pela alimentação, medicina alternativa, ocultismo e rinhas. De acordo com a lei, todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, com a pena por tráfico e caça sendo detenção de seis meses a um ano e multa, mas essas penas acabam muitas vezes não sendo aplicadas e trocadas por prestação de serviços, e as multas muitas vezes não são pagas. Locais de atuação de combate ao tráfico incluem CETRAS e CETAS, zoológicos, IBAMA, MMA, ICMBio, Polícia Federal, criatórios e ONGs.