As aves de rapina constituem um grupo de aves carnívoras dotadas de adaptações morfológicas e sensoriais especializadas, como elevada acuidade visual, bicos recurvados e garras fortes, que favorecem a captura eficiente de presas. Essas características permitem que ocupem os níveis mais elevados das cadeias tróficas, exercendo papel ecológico fundamental no controle populacional de suas presas e na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.
Nesse sentido, as aves de rapina são amplamente reconhecidas como espécies guarda-chuva e bioindicadoras, uma vez que sua conservação está associada à proteção de extensas áreas naturais e de múltiplas espécies que compartilham o mesmo habitat. Estudos conduzidos demonstram que essas aves apresentam potencial relevante na representação de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, embora esse desempenho varie conforme o grupo de rapinantes e o tipo de área considerada (SANTANGELI; GIRARDELLO, 2021).
Apesar da reconhecida importância ecológica das aves de rapina, essas espécies são historicamente envoltas por mitos, crenças e interpretações culturais ambivalentes, especialmente em comunidades rurais do semiárido brasileiro. Estudos etno-ornitológicos demonstram que espécies como Caracara plancus (carcará) e Herpetotheres cachinnans (cauã) assumem significados simbólicos diversos, que podem tanto favorecer quanto comprometer sua conservação, dependendo do contexto sociocultural em que estão inseridas (SOARES et al., 2025).
No caso do carcará, por exemplo, relatos locais associam a espécie a comportamentos cruéis ou predatórios, como a crença de que o animal atacaria o gado de forma seletiva, causando sofrimento aos animais domésticos. Essas narrativas, ainda que careçam de respaldo ecológico, influenciam negativamente a percepção social da espécie e podem resultar em perseguição ou eliminação direta (SOARES et al., 2025).

Fonte: TREPTE (2015)
“O caracará é um animal muito cruel. Ele só come os olhos dos cordeiros e deixa o animal cego.”
(SOARES et al., 2024, p.9, tradução nossa).
Por outro lado, o cauã apresenta uma representação cultural mais ambígua. Suas vocalizações são interpretadas como sinais ambientais, particularmente relacionadas à previsão de eventos climáticos. Moradores locais relatam a antecipação de períodos chuvosos ou de seca a partir do local e da intensidade do canto da ave, o que evidencia uma relação zoossemiótica baseada na interpretação de sinais interespecíficos (SOARES et al., 2025; MARQUES, 1998; ARAÚJO; LUCENA; MOURÃO, 2005).

Fonte: KELSTER (2014)
“Quando o Cauã (Falcão-risonho) vocaliza em uma árvore verde, é sinal de boa estação chuvosa. Se vocaliza em uma árvore seca, significa seca com certeza.”
(SOARES et al., 2024, p.9, tradução nossa).
Essas interpretações configuram uma rede simbólica na qual as aves de rapina são percebidas simultaneamente como agentes ecológicos e entidades portadoras de presságios, permitindo processos de coadaptação entre seres humanos e fauna silvestre. No entanto, quando tais significados se associam ao medo, ao prejuízo econômico ou a crenças negativas, tendem a intensificar conflitos socioambientais, dificultando a implementação de estratégias de conservação eficazes (SOARES et al., 2025).
Paradoxalmente, apesar de sua reconhecida importância ecológica, as aves de rapina são frequentemente associadas a uma imagem de predadores “ameaçadores” ou pouco simpáticos, o que resulta em menor empatia social e reduzido apelo afetivo quando comparadas a espécies tradicionalmente consideradas mais carismáticas. Essa percepção contribui para uma atenção científica e midiática desproporcionalmente menor, especialmente em regiões tropicais. De acordo com Evan R. Buechley, as aves de rapina tropicais permanecem relativamente subestudadas, apesar de concentrarem elevada diversidade e níveis significativos de ameaça, o que limita o avanço de estratégias de conservação fundamentadas em dados locais (BUECHLEY et al., 2019). Dessa forma, essas espécies tendem a “cair nas lacunas” da ciência e da conservação.
Assim, compreender não apenas a biologia dos rapinantes, mas também os significados culturais que lhes são atribuídos, torna-se essencial para construir estratégias de conservação mais inclusivas, contextualizadas e eficazes.
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
BUECHLEY, E. R. et al. Global raptor research and conservation priorities: tropical raptors fall through the cracks. Diversity and Distributions, Oxford, v. 25, n. 6, p. 856–869, 2019. DOI: 10.1111/ddi.12901.
SANTANGELI, A.; GIRARDELLO, M. Top predators as biodiversity surrogates: the importance of functional diversity. Ecological Indicators, Amsterdam, v. 121, 2021. DOI: 10.1016/j.ecolind.2020.107140.
SOARES, H. K. L. et al. Interactions between people and birds of prey in semi-arid regions of Brazil: ethno-ornithology and conservation. Birds, Basel, v. 6, n. 3, p. 35, 2025. DOI: 10.3390/birds6030035.