
O GEAS promoveu a primeira palestra do circuito de megavertebrados, trazendo uma discussão aprofundada sobre nutricao de grandes herbivoros sob cuidados humanos. A convidada da noite foi a zootecnista Tatiane Moreno, especialista em nutricao de animais selvagens e responsavel pelo setor de nutrição animal do Animália Park.
Durante a apresentação, a palestrante abordou os principais desafios relacionados ao manejo alimentar de espécies da megafauna, com foco especial em ruminantes como girafas, elefantes, rinocerontes e hipopótamos. Segundo Tatiane, compreender a fisiologia digestiva e os hábitos alimentares naturais desses animais e essencial para garantir saude, bem-estar e longevidade em zoológicos.
A palestra destacou as diferencas entre herbivoros ruminantes e monogastricos, explicando o funcionamento do rumen e a importancia da microbiota ruminal para a digestao de fibras. Tambem foram discutidos os diferentes perfis alimentares dos herbívoros, classificados como “grazers” (pastejadores), “browsers” (consumidores de folhas e arbustos) e “mixed feeders”, alem dos riscos de dietas inadequadas, principalmente aquelas com excesso de amido e concentrados, que podem causar acidose ruminal e outros distúrbios digestivos graves.
Um dos pontos centrais da apresentaçao foi a alimentação das girafas. A especialista explicou que, na natureza, esses animais se alimentam predominantemente de folhas de arvores como acacias, sendo classificados como “browsers”. Por isso, dietas compostas principalmente por capim ou racoes destinadas a bovinos podem nao atender as necessidades fisiológicas da espécie.
Para ilustrar a importancia do manejo nutricional correto, Tatiane apresentou um caso clínico acompanhado no zoológico. A girafa, que chegou ao parque com baixo peso corporal, alterações cutâneas e alimentaçao inadequada, passou por uma longa transicao alimentar. O novo protocolo incluiu alfafa, sansão-do-campo, feijão guandu e uma ração específica para herbívoros selvagens rica em fibras e
proteína.
Segundo a palestrante, o processo de adaptacao foi realizado gradualmente ao longo de 11 semanas, com monitoramento constante das fezes, condicao corporal e comportamento do animal. Após cerca de um ano de manejo nutricional adequado, a girafa apresentou melhora significativa do escore corporal, recuperação da pelagem e desaparecimento das lesões cutâneas.
Além disso, a palestra trouxe discussoes sobre pesquisas recentes envolvendo desgaste dentário em girafas mantidas em cativeiro. Estudos apresentados indicam que dietas inadequadas podem alterar o padrão natural de mastigação, comprometendo a alimentação, a digestão e até a longevidade desses animais.
Tatiane tambem ressaltou que ainda existem poucas pesquisas e escassez de dietas formuladas especificamente para megavertebrados herbívoros, tornando o manejo nutricional um desafio constante para zoológicos e instituições de conservação.
Ao final, a especialista reforçou que o planejamento alimentar desses animais exige estudos contínuos, atualização de protocolos e conhecimento aprofundado da ecologia e fisiologia de cada espécie. O evento proporcionou aos participantes uma visão ampla sobre a complexidade da nutrição de animais selvagens e a importância do manejo nutricional como ferramenta fundamental para a conservação e o bem-estar da fauna sob cuidados humanos.