
A terceira palestra do Circuito de Megavertebrados foi ministrada pela médica-veterinária Gabriela Bezerra, representante do Instituto Baleia Jubarte. A apresentação abordou aspectos biológicos, ecológicos e comportamentais das baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), além das principais linhas de pesquisa e conservação desenvolvidas pelo instituto.
Biologia
As baleias-jubarte foram descritas como uma espécie cosmopolita e migratória, presente em diversos oceanos. Os adultos podem atingir cerca de 16 metros e 40 toneladas, enquanto os filhotes nascem com aproximadamente 4 metros e 1 tonelada, consumindo cerca de 100 litros de leite por dia. Fotografias mostraram o crescimento corporal ao longo da vida, destacando a dimensão impressionante desses cetáceos.
Migração
Mapas mundiais ilustraram as rotas migratórias entre áreas de alimentação em regiões polares e áreas de reprodução nos trópicos. Foi ressaltado que as populações dos hemisférios Norte e Sul não se encontram, devido à inversão das estações: enquanto uma população se alimenta no verão, a outra está em reprodução.
Ecologia
As baleias foram apresentadas como “jardineiras do oceano”, pois suas fezes fertilizam as águas superficiais, favorecendo o fitoplâncton. Além disso, ao morrerem, seus corpos afundam e transportam carbono para o fundo oceânico, sustentando organismos marinhos. Infográficos mostraram a relevância desses processos para o equilíbrio climático global.
Identificação Individual
Cada baleia possui padrões únicos na região ventral da cauda, permitindo a fotoidentificação. Foram exibidas imagens de caudas e exemplos da plataforma Happywhale, que compara registros fotográficos de diferentes regiões. O caso da baleia Durrell foi citado como exemplo de como observações individuais ampliam o conhecimento sobre ciclos reprodutivos.
Aspectos Comportamentais
Os machos produzem cantos complexos que mudam ao longo das temporadas e são aprendidos socialmente. Esquemas de bioacústica mostraram como esses sons são estudados sem interferir no comportamento. Também foram apresentados grupos competitivos em torno de uma fêmea, considerada o núcleo, enquanto os machos disputam oportunidades reprodutivas.
Linhas de Pesquisa
O Instituto Baleia Jubarte utiliza diversas metodologias: fotoidentificação, censos aéreos, monitoramento por drones, bioacústica, estudos de encalhes e biópsias para análises genéticas, sexo, idade e contaminantes ambientais. As imagens mostraram a diversidade de técnicas aplicadas sem comprometer o bem-estar dos animais.
Comportamento Materno
Após o nascimento, os filhotes emergem pela cauda e são auxiliados pela mãe até a superfície para respirar. Permanecem cerca de um ano ao lado da fêmea, embora o desmame ocorra entre seis e oito meses. Fotografias mostraram fêmeas com filhotes e interações com golfinhos.
Desafios para a Conservação
As principais ameaças destacadas foram colisões com embarcações, emalhamento em redes de pesca, poluição sonora, lixo marinho e redução da disponibilidade de alimento pela pesca industrial do krill. Também foi ressaltada a importância do turismo de observação, da educação ambiental e das políticas públicas para a proteção da espécie e dos ecossistemas marinhos.
A palestra ofereceu uma visão abrangente sobre biologia, comportamento e conservação das baleias-jubarte, evidenciando como a pesquisa científica e o monitoramento contínuo são essenciais para preservar uma das espécies mais emblemáticas dos oceanos.
A última palestra do Circuito de mega vertebrados foi ministrada pelo paleontólogo Artur Chahud que apresentou um panorama sobre a Paleontologia do Quaternário, período geológico que compreende o Pleistoceno e o Holoceno, enfatizando a importância do estudo da fauna brasileira recente. O palestrante destacou que as pesquisas não se concentram apenas na megafauna extinta, mas também em pequenos vertebrados e espécies que ainda vivem atualmente.
Foram apresentados importantes sítios de pesquisa, como a Lapa do Santo, a Gruta Cuvieri e o Abismo Ponta de Flecha, locais que fornecem informações valiosas sobre a biodiversidade passada e sobre a relação entre seres humanos e animais ao longo do tempo. Também foram discutidos os métodos utilizados pelos paleontólogos, incluindo análises anatômicas, taxonômicas, tafonômicas e comparações osteológicas para identificar espécies e compreender os processos de fossilização.
Ao longo da palestra, Chahud apresentou exemplos de estudos realizados com diferentes grupos de vertebrados encontrados em sítios arqueológicos e paleontológicos brasileiros. Entre os peixes, foram identificadas espécies como jundiás e mandis, cujos restos ósseos encontrados na Lapa do Santo indicam atividades de pesca realizadas por populações humanas antigas. Nos anfíbios, foram discutidos os desafios relacionados à preservação dos fósseis, que levaram ao desenvolvimento de protocolos tafonômicos específicos para interpretar corretamente os materiais encontrados. Também foram apresentados estudos com quelônios, nos quais evidências de queima, cortes e utilização de carapaças sugerem o aproveitamento desses animais por grupos humanos. Nas aves, destacou-se a raridade de fósseis bem preservados, como exemplares encontrados no Abismo Ponta de Flecha, que apresentaram excelente estado de conservação. Já entre os mamíferos, foram discutidas pesquisas com grandes roedores, como pacas, cutias e capivaras, incluindo a identificação de espécies extintas e revisões taxonômicas que corrigiram interpretações anteriores. Por fim, os carnívoros e canídeos também receberam destaque, permitindo análises sobre diversidade, morfologia e até mesmo alterações patológicas observadas nos fósseis. Esses exemplos demonstram como o estudo dos vestígios ósseos possibilita reconstruir aspectos da ecologia, evolução e comportamento da fauna brasileira ao longo do Quaternário.
De forma geral, a palestra demonstrou como a integração entre paleontologia, arqueologia e biologia permite reconstruir ambientes do passado e compreender as mudanças na fauna brasileira ao longo dos últimos milhares de anos, contribuindo para o conhecimento da história natural do país.