Por Gabriela de Fátima
1h15 da madrugada de 14 de outubro de 1999, horário de Brasília, um foguete Longa Marcha 4B decolou do Centro de Lançamento de Satélites de Taiyuan, na província chinesa de Shanxi, levando a bordo o primeiro satélite construído em parceria entre Brasil e China (Silva & Benvenuto, 2022). Era o CBERS-1 — e, com ele, começava o que Silva e Benvenuto descrevem como um projeto pioneiro entre países em desenvolvimento no campo da alta tecnologia.
O programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite, ou Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres) é o ponto de partida obrigatório de qualquer conversa sobre satélites do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Mas já não é o único.
E a questão não é apenas tecnológica. Os países do BRICS respondem por 43,2% das emissões globais de gases de efeito estufa (Dobrowolski et al., 2025). O bloco que mais emite é, também, o que está montando sua própria infraestrutura para enxergar o dano — nas florestas, nos desertos, nas geleiras e no mar.
Antes do satélite, a diplomacia
A parceria não nasceu de um acordo tecnológico, e sim de uma conversa de corredor. As primeiras evidências de cooperação bilateral no setor espacial surgiram na XXVI Reunião do Comitê das Nações Unidas sobre o Uso Pacífico do Espaço Exterior (COPUOS, na sigla em inglês), em Nova Iorque, em 1983, quando representantes brasileiros e chineses avaliaram a possibilidade de trabalhar juntos (Silva & Benvenuto, 2022, com base em Abi-Sad, 1996).
O interesse virou compromisso formal em 6 de julho de 1988, quando o chanceler Abreu Sodré, integrando a comitiva do presidente José Sarney, assinou com Qian Qichen o Protocolo de Pesquisa e Produção Conjunta do Satélite Sino-Brasileiro de Sensoriamento Remoto. O Acordo-Quadro que consolidou a cooperação foi firmado em Pequim, em 8 de novembro de 1994, e promulgado em 1998.
Na execução, a China designou a Administração Nacional de Espaço da China (CNSA, na sigla em inglês) e o Brasil, a Agência Espacial Brasileira (AEB), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). As atividades práticas de montagem e integração dos satélites ficaram com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), no Brasil, e a CAST (China Academy of Space Technology, ou Academia Chinesa de Tecnologia Espacial), na China.
Desde 1999, seis satélites foram lançados: CBERS-1 (1999), CBERS-2 (2003), CBERS-2B (2007), CBERS-3 (2013), CBERS-4 (2014) e CBERS-4A (2019).
O que o Brasil aprendeu a enxergar
Antes do CBERS, o monitoramento da floresta amazônica dependia quase inteiramente do Landsat norte-americano, que sobrevoa a mesma área a cada 16 dias — um intervalo confortável para pesquisa acadêmica, péssimo para fiscalização.
O ganho trazido pelos satélites sino-brasileiros veio da câmera de amplo campo de visada, a WFI (Wide Field Imager, ou Câmera Imageadora de Amplo Campo de Visada), que foi justamente a contribuição brasileira ao módulo de carga útil. Segundo Santana e Coelho (1999, p. 206), a WFI imageia uma faixa de 890 km de largura com resolução de 260 metros, obtendo cobertura completa do globo em cerca de cinco dias, em duas faixas espectrais — o verde e o infravermelho próximo. A câmera CCD (Charge-Coupled Device, ou Câmera Imageadora de Alta Resolução), de responsabilidade chinesa, oferece resolução muito maior (20 metros, faixa de 113 km), mas leva 26 dias para cobrir a Terra inteira.
É essa combinação — resolução grosseira e revisita rápida de um lado, resolução fina e revisita lenta do outro — que sustenta o sistema brasileiro de monitoramento. O DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real) opera com imagens da câmera de amplo campo do CBERS-4, emitindo alertas que orientam a fiscalização em campo. Já o PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), que calcula a taxa anual oficial desde 1988, combina imagens do Landsat-8, do Sentinel-2 europeu e dos CBERS, com área mínima de mapeamento de 6,25 hectares.
Segundo o próprio INPE, análises feitas por especialistas independentes indicam que o PRODES opera com nível de precisão próximo a 95%. Não é um detalhe técnico irrelevante: é essa precisão que dá credibilidade internacional aos números brasileiros.
E os números, nos últimos anos, contam uma história específica. De acordo com os dados oficiais do PRODES, o desmatamento na Amazônia Legal caiu de 13.038 km² em 2021 para 5.796 km² no ciclo 2024/2025 — uma redução de mais de 55% em quatro anos, e o menor índice em onze anos. Só entre 2024 e 2025, a queda foi de 11,08%. No Cerrado, bioma também monitorado pelo sistema, a redução foi de 11,49%, o segundo ano consecutivo de baixa depois de um período de alta.
Os alertas do DETER, mais sensíveis a variações de curto prazo do que a taxa anual do PRODES, registraram em maio de 2026 a maior queda percentual mensal da série: 61,4% em relação ao mesmo mês de 2025, com 370 km² de vegetação suprimida contra 960 km² um ano antes.
Nada disso seria mensurável sem satélite — e o investimento tem escala. Ainda segundo o INPE, o programa dos satélites CBERS-1 e 2 previa US$ 350 milhões; o dos CBERS-3 e 4, aproximadamente US$ 300 milhões, divididos igualmente entre as partes (Silva & Benvenuto, 2022). Essa paridade não foi acidental: veio do Acordo Complementar de 2002, que estabeleceu participação financeira de 50% para cada Estado, colocando o Brasil em condição de igualdade plena com a China.
Também houve fracasso. O CBERS-3, lançado em dezembro de 2013, não chegou à órbita prevista por causa de uma falha do veículo lançador Longa Marcha 4B, e reentrou na atmosfera. Brasil e China responderam antecipando o lançamento do CBERS-4, originalmente marcado para dezembro de 2015, para dezembro de 2014.
O radar que enxerga através das nuvens
Há uma limitação que persiste. Todos esses sensores são ópticos, e durante a estação chuvosa a cobertura de nuvens sobre a Amazônia compromete boa parte da observação.
Aprovado pelo Congresso brasileiro em dezembro de 2024, o acordo do CBERS-6 prevê um satélite equipado com Radar de Abertura Sintética (SAR, na sigla em inglês para Synthetic Aperture Radar), tecnologia capaz de gerar imagens sob qualquer condição climática, inclusive atravessando nuvens densas. O custo total é de aproximadamente 102 milhões de dólares, divididos igualmente entre Brasil e China, com operação prevista a partir de 2028. Segundo o texto aprovado no Senado, o satélite deve melhorar o monitoramento de queimadas, recursos hídricos, áreas agrícolas, crescimento urbano e desastres naturais.
Seis satélites, cinco estações
A passagem da parceria bilateral para o arranjo multilateral tem data e método. As primeiras articulações do BRICS sobre produção e uso de satélites ocorreram em três encontros de grupo de trabalho — fevereiro de 2016, fevereiro de 2017 e junho de 2017 —, sempre à margem de reuniões do COPUOS, reunindo as agências espaciais dos cinco membros (Silva & Benvenuto, 2022, com base em documentos da AEB).
A tese vinha sendo defendida abertamente. Em encontro na China em 2016, o então presidente da AEB, José Raimundo Braga, afirmou ser preciso ampliar a colaboração bilateral, transformando-a em apoio multilateral que envolvesse todos os países do bloco na área de observação da Terra. No 1º Encontro dos Chefes das Autoridades Espaciais, a CNSA apresentou o conceito e os planos de trabalho da constelação, e a Rússia ratificou o acordo entre as cinco agências espaciais do bloco: AEB (Brasil), Roscosmos (Rússia), ISRO (Indian Space Research Organisation, a agência espacial indiana), CNSA (China) e SANSA (South African National Space Agency, a agência espacial sul-africana).
Em agosto de 2021 veio a assinatura do acordo criando a Constelação Virtual de Satélites de Sensoriamento Remoto do BRICS (RSSC, na sigla em inglês). A palavra-chave é “virtual”: o arranjo não exigiu construir nada novo, e sim reunir satélites já em órbita num mecanismo comum de compartilhamento de dados, somado à construção de infraestrutura terrestre para o intercâmbio dessas informações (Naúmenko & Býkova, 2025).
Segundo comunicado da CRESDA (China Centre for Resources Satellite Data and Application), o esquema foi batizado de “seis satélites, cinco estações”: Gaofen-6 e Ziyuan III-02 (China), CBERS-4 (Brasil e China), Kanopus-V (Rússia) e Resourcesat-2 e 2A (Índia), com estações terrestres em Sanya, Cuiabá, região de Moscou, Shadnagar-Hyderabad e Hartebeesthoek. A Estação Terrena de Cuiabá é a peça brasileira: rastreia o satélite durante sua passagem, recebe, processa e formata os dados, enviando-os ao Centro de Controle de Satélites.
A lógica econômica está explícita na nota da CRESDA: a operação em rede reduz o investimento necessário em satélites e estações por parte de cada país e amplia a capacidade de imageamento que cada satélite teria isoladamente.
O que as cúpulas decidiram
O compromisso ambiental não é retórica de assessoria de imprensa — está em declaração de cúpula.
Na IX Cúpula, realizada na China em setembro de 2017, a Declaração de Xiamen oficializou o princípio do uso do espaço exterior para fins pacíficos e o emprego de tecnologias espaciais para responder às mudanças climáticas globais, à proteção ambiental e à prevenção e assistência a desastres (Artigo XXVI). O Artigo LIX do mesmo documento trata da sustentabilidade das atividades de longo prazo no espaço exterior, alinhada às diretrizes do COPUOS.
Sete anos depois, a Declaração de Kazan, da XVI Cúpula (2024), fixou três princípios para a cooperação espacial do bloco: garantir a segurança global, prevenir a corrida armamentista no espaço e empregar ativamente satélites de sensoriamento remoto para neutralizar os efeitos negativos da mudança climática (Naúmenko & Býkova, 2025).
Na prática, os membros interagem hoje em três frentes: prevenção da corrida armamentista espacial, coordenação de posições no COPUOS e intercâmbio de dados satelitais de sensoriamento, com fomento à infraestrutura terrestre necessária ao monitoramento climático, à proteção ambiental e à prevenção de emergências.
A areia que recuou
Do outro lado do continente asiático, o mesmo tipo de tecnologia está sendo aplicado a um problema oposto ao brasileiro — não a floresta que some, mas o deserto que avança.
A China concentra a maior área desertificada do planeta: cerca de 2,57 milhões de quilômetros quadrados, quase um terço do território nacional, segundo a Administração Nacional de Florestas e Pastagens do país.
Os satélites da série Gaofen, integrados ao Sistema Chinês de Observação da Terra de Alta Resolução, são a ferramenta central do acompanhamento. Alguns operam com sensores multiespectrais, outros com radar, o que permite mapear movimento de dunas, perda de cobertura vegetal e salinização do solo em regiões como Xinjiang e a Mongólia Interior, na borda do Gobi.
A precisão desse monitoramento já foi medida. Um levantamento publicado em 2023, que aplicou quatro modelos de aprendizado de máquina a séries temporais de 2000 a 2020 no norte da China, obteve com o modelo Random Forest acurácia de 86,94% na classificação da desertificação. Outro trabalho, de 2025, usou dados de radar do Gaofen-3 para estimar salinização do solo em oásis de Xinjiang e alcançou correlação de 0,85 entre o índice proposto e as medições feitas em campo — ou seja, o satélite prevê com boa confiabilidade o que um técnico encontraria no solo.
Os números oficiais chineses apontam reversão: redução de mais de 4,33 milhões de hectares de área desértica desde 2012, com o ritmo invertido — nos anos 1990 o deserto avançava cerca de 1,04 milhão de hectares por ano; hoje recua aproximadamente 242 mil hectares anuais. A cobertura florestal nas regiões da chamada “Grande Muralha Verde” teria saltado de cerca de 5%, em 1977, para 13,8%.
Vale a ressalva: esses valores vêm de fonte oficial chinesa. Levantamentos independentes de sensoriamento remoto confirmam a tendência de reversão no norte do país, embora os números absolutos variem conforme a metodologia adotada.
Índia, Rússia, África do Sul
A Índia entrou na cooperação por uma via inesperada: foi um foguete indiano, o PSLV-C51 (Polar Satellite Launch Vehicle, o veículo lançador de satélites polares da Índia), que colocou em órbita, em 2021, o Amazônia-1 — satélite projetado e construído pelo INPE. O lançamento ampliou a capacidade brasileira de supervisionar o estado das florestas e obter dados sobre superfícies agrícolas (Naúmenko & Býkova, 2025). O primeiro satélite inteiramente nacional do Brasil, portanto, chegou ao espaço por cooperação intra-BRICS.
Os satélites Resourcesat que a Índia colocou na constelação têm histórico próprio no monitoramento do “Terceiro Polo”, a reserva de gelo do Himalaia. Com imagens do sensor LISS-IV (Linear Imaging Self-Scanning Sensor, sensor de imageamento linear por autovarredura) a bordo do Resourcesat-2, o mapeamento de lagos glaciais de todas as bacias himalaicas indianas totalizou 131.070,90 hectares de espelho d’água. Em escala menor, dados do Resourcesat-1 e 2 permitiram medir recuo de 480 metros da geleira Milam, na bacia do Goriganga, entre 2004 e 2011, além do surgimento de 47 lagos epiglaciais sobre a própria geleira — sinal de que ela perde massa, e não apenas encolhe nas bordas. Estudos anteriores com os mesmos sensores estimaram perda de área da ordem de 16% a 17% no conjunto das geleiras analisadas.
Ainda assim, há lacuna reconhecida: não existe hoje programa regular de monitoramento glacial no Himalaia indiano, e os estudos de balanço de massa em campo se restringem a pouquíssimas geleiras. O satélite tapa um buraco que a ciência de campo não consegue cobrir.
A Rússia contribui com os satélites Kanopus-V e, no plano operacional, a Roscosmos encarregou a empresa Sistemas Espaciais Russos de operar os meios espaciais de sensoriamento remoto no âmbito do acordo. Foram criados um Comitê Conjunto, para coordenar a colaboração entre os países, e um Grupo de Trabalho, encarregado de vigiar o cumprimento das decisões do Comitê. Desde 2017, a Roscosmos mantém no Brasil uma estação de telescópios capaz de detectar e rastrear detritos espaciais em altitudes entre 40 mil e 120 mil quilômetros (Naúmenko & Býkova, 2025).
A África do Sul contribui menos com satélites próprios e mais com infraestrutura de recepção e capacidade analítica. A SANSA, que abriga uma das cinco estações terrestres do arranjo, usa dados de observação da Terra para detectar incêndios florestais e mapear cicatrizes de queimadas — como fez em janeiro de 2026 nos incêndios do Cabo Ocidental e do Cabo Oriental.
O que trava
A cooperação espacial do BRICS não é uma linha reta ascendente, e seria desonesto contá-la assim.
Naúmenko e Býkova (2025) sustentam que o histórico brasileiro de cooperação internacional no setor é, em larga medida, uma história de papel secundário: dos dez acordos firmados entre 1952 e 2021, menos da metade foram propriamente “tecnológicos” — com China, Rússia e Alemanha —, e a maioria visava sobretudo ao uso da infraestrutura brasileira para lançamentos de terceiros. Vários ficaram inconclusos. Em mais de cinquenta anos de era espacial, o país não conseguiu desenvolver um foguete lançador próprio. É argumento de duas pesquisadoras da Universidade Estatal de Moscou, com moldura geopolítica evidente — mas o diagnóstico factual sobre o lançador é incontroverso.
A assimetria tecnológica dentro do bloco é o obstáculo mais evidente. Não por acaso, a redução dessas assimetrias foi um dos três temas centrais do encontro das agências espaciais do BRICS em Brasília, durante a presidência brasileira, ao lado da sustentabilidade no uso do espaço e do avanço da constelação. E a expansão do grupo tende a agravar o problema antes de resolvê-lo: com a entrada de Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos em 2024, o BRICS passou a reunir cerca de 46% da população mundial e mais de um quarto da economia global (Brett, 2024), com capacidades espaciais ainda mais díspares entre si.
Silva e Benvenuto (2022) apontam na mesma direção ao concluir que, para além de novas agendas, falta ao bloco desenvolver plataformas aplicáveis de controle e operacionalização das práticas de cooperação — uma gestão comum pautada em boa governança.
Há ainda um problema mais incômodo, e que convém não varrer para baixo do tapete: nem toda tecnologia produzida no BRICS é tecnologia verde. Analisando os cinco países entre 1990 e 2022, Dobrowolski e colaboradores (2025) encontraram que o aumento no número de patentes está associado a aumento das emissões de carbono, e não a redução. A explicação dos autores é direta: a tecnologia empregada no bloco é intensiva em recursos e está orientada ao crescimento econômico, não à sustentabilidade. Satélite ambiental é a exceção virtuosa dentro de um parque tecnológico que, no agregado, ainda empurra as emissões para cima.
Há também o problema da continuidade orçamentária, e a dimensão geopolítica que ninguém no bloco menciona em voz alta. Uma constelação do BRICS é, inevitavelmente, uma alternativa aos sistemas ocidentais de observação da Terra. Isso levanta questões de interoperabilidade, soberania de dados e o velho dilema do uso dual — a mesma câmera que conta árvores derrubadas também conta outras coisas.
A cooperação técnica funciona — e a prova é estatística
Vale contrapor um dado ao ceticismo. No mesmo estudo econométrico, os subsídios de cooperação técnica entre os países do bloco aparecem com efeito negativo e estatisticamente significativo sobre as emissões de carbono, em todos os modelos testados: quanto mais cooperação técnica, menos emissão (Dobrowolski et al., 2025). O achado é robusto a heteroscedasticidade, autocorrelação e dependência entre países.
Ou seja: a tese de que cooperar tecnicamente dentro do BRICS gera ganho ambiental mensurável não é retórica de comunicado de cúpula. Tem respaldo empírico em série de 33 anos.
Os mesmos autores recomendam, entre as medidas de política, o investimento em monitoramento por satélite e sistemas baseados em inteligência artificial para rastrear atividade pesqueira, fazer cumprir regulações e detectar pesca ilegal, não declarada e não regulamentada nos países do bloco. É uma frente de uso ambiental da constelação que ainda mal começou — e talvez a próxima a se desenvolver, dado que os países do BRICS estão entre os maiores operadores marítimos do mundo.
O teste que vem
O saldo até aqui é concreto. Em vez de cada país perseguir sozinho uma capacidade espacial completa, o BRICS optou por somar o que já tinha em órbita. O resultado é uma rede capaz de acompanhar o desmatamento amazônico, o avanço e o recuo da areia no norte da China, secas e incêndios na África Austral e o degelo himalaico.
O teste seguinte é mais difícil. Sair de seis satélites reaproveitados para uma constelação projetada e lançada em conjunto exige um grau de coordenação técnica, orçamentária e política que o bloco ainda não demonstrou ter. É nesse ponto que se decidirá se a cooperação espacial do BRICS é um gesto diplomático bem-sucedido ou uma infraestrutura permanente de resposta à crise climática no Sul Global.
Por ora, ela é as duas coisas ao mesmo tempo.
Sobre a autora: Gabriela de Fátima é engenheira florestal pela ESALQ/USP e mestranda em International Development Policy and Governance pela China Agricultural University. Atua no CICRAL Brasil e no GEBRICS/USP, com foco em governança global, Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e cooperação Sul-Sul.
Fontes bibliográficas:
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