{"id":1066,"date":"2025-11-08T17:21:29","date_gmt":"2025-11-08T19:21:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/?p=1066"},"modified":"2025-11-08T17:23:19","modified_gmt":"2025-11-08T19:23:19","slug":"a-ascensao-dos-brics-no-seculo-xxi-e-a-busca-por-uma-descolonizacao-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/a-ascensao-dos-brics-no-seculo-xxi-e-a-busca-por-uma-descolonizacao-global\/","title":{"rendered":"A ascens\u00e3o dos BRICS no s\u00e9culo XXI e a busca por uma descoloniza\u00e7\u00e3o global"},"content":{"rendered":"<p>Autor: F\u00e1bio Thomazella<br \/>\n<a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-content\/uploads\/sites\/404\/2016\/05\/WhatsApp-Image-2025-11-07-at-10.47.01.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-content\/uploads\/sites\/404\/2016\/05\/WhatsApp-Image-2025-11-07-at-10.47.01.jpeg\" alt=\"\" width=\"313\" height=\"280\" class=\"alignleft size-full wp-image-1065\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-content\/uploads\/sites\/404\/2016\/05\/WhatsApp-Image-2025-11-07-at-10.47.01.jpeg 313w, https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-content\/uploads\/sites\/404\/2016\/05\/WhatsApp-Image-2025-11-07-at-10.47.01-300x268.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 313px) 100vw, 313px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\tConforme observou o fil\u00f3sofo argentino Enrique Dussel (2000), a modernidade adquiriu um car\u00e1ter global a partir de 1492, com o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica. Nessa vis\u00e3o, a modernidade se vincularia \u00e0 expans\u00e3o mar\u00edtima ib\u00e9rica e \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o dos imp\u00e9rios coloniais europeus, processos que transformaram o planeta em cen\u00e1rio de uma Hist\u00f3ria Mundial \u00fanica. Antes desse per\u00edodo, imp\u00e9rios e sistemas culturais coexistiam de forma relativamente isolada. A centralidade adquirida pela Europa na Hist\u00f3ria Mundial constitui, portanto, um dos elementos fundamentais da Modernidade. Dussel identifica, ainda, uma segunda fase da Modernidade, marcada pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e pelo Iluminismo no s\u00e9culo XVIII, tamb\u00e9m centrados na Europa, com a Inglaterra emergindo como pot\u00eancia hegem\u00f4nica mundial at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX. Esse dom\u00ednio hist\u00f3rico se consolidou especialmente ap\u00f3s o sucesso dos empreendimentos imperiais europeus na \u00c1frica e na \u00c1sia ao longo do s\u00e9culo XIX. Destarte, nos \u00faltimos quinhentos anos, a Europa moderna constituiu as demais culturas como \u201cperiferia\u201d dentro da ordem mundial.\t<\/p>\n<p>\tA partir de 1945, por\u00e9m, a Europa deixa sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica para uma ex-col\u00f4nia: os Estados Unidos da Am\u00e9rica. Juntos, criam uma comunidade de pa\u00edses cuja coes\u00e3o de valores era not\u00e1vel. O \u201cOcidente coletivo\u201d, ao incluir os EUA, formava uma comunidade pr\u00f3spera, que concentrava enorme parte de riqueza mundial, em detrimento dos pa\u00edses do Sul Global, que, no entanto, compunham a maior parte da popula\u00e7\u00e3o humana. Anne McClintock (1992) demonstrou como o capital financeiro estadunidense e suas corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, ao controlar fluxos globais de capitais, commodities, armas e informa\u00e7\u00e3o, exerceram um poder compar\u00e1vel ao de antigos regimes coloniais formais. Nesse contexto, a consolida\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como moeda de reserva mundial tornou-se o principal mecanismo de perpetua\u00e7\u00e3o desse dom\u00ednio estrutural. Tal injusti\u00e7a estrutural criou grandes desigualdades entre o Norte e o Sul do globo. No entanto, a superioridade da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental come\u00e7ou a passar por contesta\u00e7\u00f5es surpreendentes no s\u00e9culo XXI. <\/p>\n<p>\tO surgimento de um competidor econ\u00f4mico aos EUA, a China, enfraqueceu a ordem ocidental herdeira das estruturas do colonialismo dos \u00faltimos cinco s\u00e9culos. Por meio de reformas que integraram um Estado forte a uma economia de mercado, a China experimentou um crescimento econ\u00f4mico impressionante em menos de cinq\u00fcenta anos, consolidando-se como a maior pot\u00eancia manufatureira e exportadora do mundo e alcan\u00e7ando o maior PIB em paridade de poder de compra (ppc). Centenas de milh\u00f5es de chineses sa\u00edram da pobreza, e o pa\u00eds alcan\u00e7ou n\u00edveis de renda m\u00e9dia. Paralelamente, outros pa\u00edses emergentes aumentaram sua participa\u00e7\u00e3o na riqueza global, exigindo reformas nas institui\u00e7\u00f5es internacionais de governan\u00e7a, para que estas refletissem de maneira mais fiel a nova distribui\u00e7\u00e3o de poder mundial, cada vez mais multipolar. Assim, processou-se uma gradual \u201cdesocidentaliza\u00e7\u00e3o\u201d da riqueza planet\u00e1ria, estimulando questionamentos \u00e0s atuais estruturas de governan\u00e7a global dominadas pelos pa\u00edses ocidentais e frequentemente percebidas por na\u00e7\u00f5es do Sul Global como desiguais, unipolares e pouco democr\u00e1ticas.<br \/>\nNesse contexto, o Grupo BRICS \u00e9 de import\u00e2ncia fundamental. O acr\u00f4nimo designa as iniciais de cinco relevantes economias emergentes (Brasil, R\u00fassia, China, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul) e vem se fortalecendo cada vez mais. Nas \u00faltimas c\u00fapulas, o grupo se expandiu, incorporando novos membros como Ar\u00e1bia Saudita, Egito, Eti\u00f3pia, Ir\u00e3, Emirados \u00c1rabes Unidos e a Indon\u00e9sia, al\u00e9m de 13 novos pa\u00edses parceiros como Cuba, Tail\u00e2ndia e Vietn\u00e3. Os novos participantes incluem pa\u00edses estrat\u00e9gicos para o com\u00e9rcio internacional e grandes produtores de petr\u00f3leo. Juntos, perfazem agora 48,5% da popula\u00e7\u00e3o mundial, 24% das trocas comerciais e 39% do PIB global em ppc. (BRICS Brasil, 2025). Seu tamanho e for\u00e7a permitem rivalizar com as institui\u00e7\u00f5es estabelecidas pelo Ocidente, como o G7, mas tamb\u00e9m o FMI e o Banco Mundial, na promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento e na governan\u00e7a econ\u00f4mica mundial. <\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 importante analisar porque o BRICS constitui uma oportunidade importante aos pa\u00edses em desenvolvimento. Conforme explicou Frantz Fanon (1961), as independ\u00eancias dos pa\u00edses do Terceiro Mundo na segunda metade do s\u00e9culo XX n\u00e3o alteraram significativamente as estruturas econ\u00f4micas que levavam essas na\u00e7\u00f5es ao subdesenvolvimento. Assim, as massas populares lutavam contra a mesma mis\u00e9ria e falta de infraestrutura que existia anteriormente ao desligamento das metr\u00f3poles. As estruturas econ\u00f4micas continuavam baseadas na depend\u00eancia dos capitais ocidentais, o que obviamente gerava uma consider\u00e1vel press\u00e3o econ\u00f4mica para que esses pa\u00edses mantivessem tais estruturas. Conforme destaca Fanon: \u201ca apoteose da independ\u00eancia transforma-se na maldi\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia.\u201d(FANON, 1961, p.94)<br \/>\nAs jovens na\u00e7\u00f5es permaneciam, dessa forma, num estado de retrocesso, caracterizado pela depend\u00eancia de capitais externos, o que gerou muitas vezes, d\u00edvidas impag\u00e1veis denominadas em d\u00f3lares. As institui\u00e7\u00f5es ocidentais, cuja fun\u00e7\u00e3o seria promover o desenvolvimento dos pa\u00edses mais pobres, funcionaram, muitas vezes, como mecanismos de instrumentalizar a hegemonia ocidental, impondo \u201ccondicionalidades\u201d relacionadas, principalmente, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da liberaliza\u00e7\u00e3o, desregula\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o de seus mercados. Al\u00e9m disso, tais institui\u00e7\u00f5es foram acusadas de perpetuar a pobreza dos pa\u00edses do Sul Global, apoiando-se em um modelo econ\u00f4mico de exporta\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e g\u00eaneros agr\u00edcolas para os mercados internacionais, que muitas vezes inviabilizou o cultivo de g\u00eaneros de subsist\u00eancia e contribuiu para o problema da fome no mundo, al\u00e9m de ratificar uma depend\u00eancia excessiva dos mercados consumidores ocidentais. <\/p>\n<p>Assim, segundo Fanon, o antigo pa\u00eds dominado se tornou um pa\u00eds economicamente dependente. Tais circuitos econ\u00f4micos herdados do per\u00edodo colonial (infraestrutura voltada para a exporta\u00e7\u00e3o e a ocupa\u00e7\u00e3o de terras agricult\u00e1veis por g\u00eaneros de exporta\u00e7\u00e3o) mantinham esses pa\u00edses na pobreza absoluta. Poucos investimentos de longo prazo eram feitos e muitas contrapartidas requisitadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 compra de produtos de maior valor agregado da antiga metr\u00f3pole, o que dificultava ainda mais o equil\u00edbrio financeiro. Ainda, exigia-se uma estabilidade pol\u00edtica e social incompat\u00edvel com os pa\u00edses rec\u00e9m independentes.<\/p>\n<p>No entanto, conforme indica Fanon, a situa\u00e7\u00e3o ficava ainda mais complexa com a falta de preparo das elites nacionais, que n\u00e3o contavam com uma liga\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com as massas e, por isso, ratificavam esse modelo neocolonial predat\u00f3rio pr\u00e9- independ\u00eancia. A burguesia nacional era subdesenvolvida, com poder econ\u00f4mico p\u00edfio, cujo objetivo era simplesmente substituir a burguesia metropolitana. A burguesia nacional desses pa\u00edses usualmente se acomodou aos circuitos de depend\u00eancia, servindo simplesmente de correia de transmiss\u00e3o de um capitalismo neocolonial. A burguesia nacional, nesse esquema, n\u00e3o passava de procuradora da burguesia ocidental. Nesse contexto, a burguesia nacional se voltava cada vez mais para a metr\u00f3pole e n\u00e3o partilhava os benef\u00edcios com o povo. Esse esquema neocolonial n\u00e3o produziu desenvolvimento, mas apenas uma elite ensimesmada. Destarte, a economia dos novos pa\u00edses se integrou \u00e0 economia mundial como dependente. Embora Fanon tenha foco em sua an\u00e1lise no caso africano, seu diagn\u00f3stico \u00e9 v\u00e1lido para todos os pa\u00edses do chamado \u201cSul Global\u201d em maior ou menor grau.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, a emerg\u00eancia do BRICS consolida uma alternativa estrutural \u00e0 ordem capitalista ocidental e uma prov\u00e1vel ruptura com o modelo neocolonial. Diferente dos arranjos hist\u00f3ricos de depend\u00eancia, o bloco atua como uma plataforma de coopera\u00e7\u00e3o flex\u00edvel, baseada em rela\u00e7\u00f5es horizontais que n\u00e3o reproduzem a cl\u00e1ssica hierarquia centro-periferia. Um de seus eixos centrais \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o da autonomia financeira, com a cria\u00e7\u00e3o de mecanismos como o BRICS Pay e o Mecanismo de Coopera\u00e7\u00e3o Interbanc\u00e1ria (ICM), que reduzem a depend\u00eancia do d\u00f3lar e do euro e facilitam transa\u00e7\u00f5es diretas em moedas locais.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de paradigma tamb\u00e9m \u00e9 refor\u00e7ada pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que, ao conceder empr\u00e9stimos em moedas locais, evita o endividamento externo em divisas estrangeiras e a submiss\u00e3o a pol\u00edticas monet\u00e1rias definidas por centros ocidentais. Ademais, tamb\u00e9m se prop\u00f5e a contribuir para a solu\u00e7\u00e3o do enorme d\u00e9ficit de infraestrutura ainda existente nos pa\u00edses em desenvolvimento, com foco na sustentabilidade, valorizando o desenvolvimento end\u00f3geno e n\u00e3o o extrativismo dependente. <\/p>\n<p>Dessa forma, o bloco n\u00e3o apenas enfraquece a hegemonia das institui\u00e7\u00f5es financeiras tradicionais \u2014 historicamente associadas a crises financeiras no Sul Global \u2014, mas tamb\u00e9m oferece um caminho alternativo ao enraizado sistema neocolonial. Embora n\u00e3o corresponda \u00e0 solu\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria imaginada por Frantz Fanon, o BRICS apresenta \u00e0s economias emergentes uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o incondicional ao Ocidente. Por meio de princ\u00edpios como a n\u00e3o interfer\u00eancia e o respeito \u00e0 soberania, o bloco pode construir as bases para uma nova geoeconomia, mais inclusiva e multipolar.<br \/>\nO suposto triunfo do capitalismo ocidental, simbolizado pelo fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica na d\u00e9cada de 1990, n\u00e3o se traduziu em desenvolvimento para as maiorias globais. Como bem observou McClintock (1992), apropriando-se da met\u00e1fora do \u201canjo do progresso\u201d de Walter Benjamin \u2014 que, cego, avan\u00e7a sobre os escombros e as v\u00edtimas deixadas pela civiliza\u00e7\u00e3o \u2014, a celebra\u00e7\u00e3o do \u201cfim da Hist\u00f3ria\u201d proclamado por Francis Fukuyama ocultou a perman\u00eancia de profundas desigualdades e a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o dos pobres do mundo. <\/p>\n<p>McClintock ecoa a cr\u00edtica de Frantz Fanon ao demonstrar que, no cen\u00e1rio interno dos pa\u00edses do Sul Global, a transi\u00e7\u00e3o formal do colonialismo para Estados nacionais independentes n\u00e3o representou uma ruptura substantiva. Sob a fachada p\u00f3s-colonial, as burguesias locais consolidaram-se como herdeiras do aparato administrativo anterior, reproduzindo estruturas de poder e mantendo um modelo econ\u00f4mico baseado na exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas, o que perpetuou a depend\u00eancia e o extrativismo caracter\u00edsticos de s\u00e9culos de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa perpetua\u00e7\u00e3o neocolonial foi sustentada, em grande medida, pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais criadas em Bretton Woods em 1944. De acordo com McClintock, o FMI e o Banco Mundial foram correspons\u00e1veis pela estagna\u00e7\u00e3o e pelo aprofundamento da pobreza no Sul Global. A partir dos anos 1980, sobretudo, a pol\u00edtica monet\u00e1ria ocidental imp\u00f4s um regime de servi\u00e7o da d\u00edvida externa profundamente hostil, com graves custos socioecon\u00f4micos. Sob o v\u00e9u da neutralidade t\u00e9cnica e da expertise econ\u00f4mica, essas institui\u00e7\u00f5es promoveram projetos que refor\u00e7avam a l\u00f3gica neocolonial: a extra\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de excedentes por meio do pagamento de juros da d\u00edvida, a imposi\u00e7\u00e3o de reformas neoliberais como privatiza\u00e7\u00f5es, o incentivo a monoculturas de exporta\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>McClintock (1995, p.95) evidencia a dimens\u00e3o desse mecanismo ao citar que, at\u00e9 1989, o Banco Mundial j\u00e1 havia comprometido US$ 225 bilh\u00f5es em empr\u00e9stimos a pa\u00edses pobres, condicionados \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de \u201cajustes estruturais\u201d. Tais medidas inclu\u00edam cortes dr\u00e1sticos em educa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os sociais, abertura for\u00e7ada de mercados e a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria de recursos naturais para o pagamento de d\u00edvidas. Um relat\u00f3rio interno do pr\u00f3prio Banco Mundial, datado de 1989, conforme tamb\u00e9m referencia McClintock (1995, p.95), reconhecia que esses programas de ajuste teriam como efeito colateral inevit\u00e1vel o agravamento das condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, nutri\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o dos mais pobres.<\/p>\n<p>No entanto, o surgimento do BRICS no s\u00e9culo XXI aponta para um novo paradigma, distinto do sovi\u00e9tico e do ocidental. A ascens\u00e3o da China como novo centro financeiro abriu fontes credit\u00edcias que possibilitaram o desenvolvimento de grandes projetos de infraestrutura em todo o mundo, por meio de sua iniciativa Belt and Road. Da mesma forma, o NDB permite sofisticar a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, por meio da diversifica\u00e7\u00e3o das parcerias desses pa\u00edses, enfatizando a horizontalidade e o desenvolvimento aut\u00f4nomo. O grupo BRICS constitui, assim, um caminho para uma integra\u00e7\u00e3o global mais equitativa, com \u00eanfase em valores como a soberania e independ\u00eancia. A expans\u00e3o recente do grupo \u00e9 sinal da sua import\u00e2ncia crescente como contraponto a comportamentos hegem\u00f4nicos, contribuindo para a constitui\u00e7\u00e3o de um mundo multipolar. Nesse contexto, \u00e9 importante mencionar que, em 2023, pela primeira vez, os pa\u00edses dos BRICS+ superaram o PIB ppc do G7 e a perspectiva \u00e9 que a diferen\u00e7a continue aumentando no futuro. (GAVRILENKO e SHENSHIN, 2024, p.45)<\/p>\n<p>Em 2025, o Brasil presidiu o grupo e sediou a C\u00fapula dos BRICS ocorrida no Rio de Janeiro entre 6 e 7 de julho. Na Declara\u00e7\u00e3o Final com t\u00edtulo: \u201cFortalecendo a Coopera\u00e7\u00e3o do Sul Global para uma Governan\u00e7a mais inclusiva e sustent\u00e1vel\u201d, os membros enfatizaram a necessidade urgente de reforma das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods, para torn\u00e1-las mais \u00e1geis, eficazes, confi\u00e1veis, inclusivas, representativas. Ainda, a Declara\u00e7\u00e3o refor\u00e7ou a necessidade de reforma da estrutura de governan\u00e7a econ\u00f4mica internacional para refletir as transforma\u00e7\u00f5es na economia mundial desde sua cria\u00e7\u00e3o, advogando a maior representa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses em desenvolvimento e emergentes. (MRE, 2025)<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o ocidental \u00e0 ascens\u00e3o dos BRICS materializou-se em 2025 por meio da pol\u00edtica comercial agressiva de Donald Trump, que implementou tarifas punitivas n\u00e3o apenas contra a China, mas tamb\u00e9m contra o Brasil, sob o pretexto de combater pr\u00e1ticas comerciais &#8220;desleais&#8221;. No entanto, a ofensiva n\u00e3o tem sido bem-sucedida at\u00e9 aqui em seu objetivo de fragmentar o bloco, refor\u00e7ando a independ\u00eancia e a soberania desses pa\u00edses perante a hegemonia ocidental e demarcando uma nova era nas rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Em suma, a ascens\u00e3o dos BRICS como polo geoecon\u00f4mico global representa uma inflex\u00e3o de propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, revertendo mais de quinhentos anos de dom\u00ednio ocidental sobre o mundo. Ademais, oferece um contraponto estrutural in\u00e9dito \u00e0s estruturas assim\u00e9tricas de configura\u00e7\u00e3o do poder global, que perpetuaram desigualdades e dificultaram a promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento. Ao promover sistemas financeiros alternativos, incentivar o com\u00e9rcio em moedas locais e defender uma governan\u00e7a internacional fundada na multipolaridade, sustentada por valores como soberania, independ\u00eancia e desenvolvimento aut\u00f4nomo, o bloco constr\u00f3i as bases de uma descoloniza\u00e7\u00e3o efetiva, n\u00e3o apenas pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m econ\u00f4mica, ainda que enfrente resist\u00eancias previs\u00edveis e o desafio constante de evitar novas formas de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<br \/>\nBRICS Brasil. Site da presid\u00eancia brasileira. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/brics.br\/pt-br. Acesso em: 15 jun. 2025.<br \/>\nBRICS BRASIL. Afinal, o que \u00e9 o BRICS? Planalto, 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.gov.br\/planalto\/pt-br\/agenda-internacional\/brics\/afinal-o-que-e-o-brics. Acesso em: 29 jun. 2025.<br \/>\nDUSSEL, Enrique. Europa, modernidad y eurocentrismo. In: LANDER, Edgardo (Org.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales, perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000. p. 41-53.<br \/>\nFANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradu\u00e7\u00e3o de Serafim Ferreira. 1. ed. Lisboa: Ulisseia, 1961. Capa de Sebasti\u00e3o Rodrigues.<br \/>\nGAVRILENKO, Vladimir; SHENSHIN, Victor. BRICS expansion: a geopolitical triumph of partner countries. BRICS Law Journal, [S.l.], v. 11, n. 3, p. 9\u201353, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.21684\/2412-2343-2024-11-3-9-53. Acesso em: 15 jun. 2025.<br \/>\nMcCLINTOCK, Anne. The Angel of Progress: Pitfalls of the Term &#8220;Post-Colonialism&#8221;. Social Text, n. 31\/32, p. 84-98, 1992.<br \/>\nMINIST\u00c9RIO DAS RELA\u00c7\u00d5ES EXTERIORES. Declara\u00e7\u00e3o de L\u00edderes do BRICS \u2014 Rio de Janeiro, 06 de julho de 2025. Bras\u00edlia: MRE, 06 jul. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.gov.br\/mre\/pt-br\/canais_atendimento\/imprensa\/notas-a-imprensa\/declaracao-de-lideres-do-brics-2014-rio-de-janeiro-06-de-julho-de-2025. Acesso em: 20 out. 2025.<\/p>\n<p>SOBRE O AUTOR<br \/>\nF\u00e1bio Thomazella \u00e9 graduado em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (2013) e em Direito (2021) pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Advogado, \u00e9 Mestre (2022) e atualmente doutorando em Direito Internacional pela mesma institui\u00e7\u00e3o. Seus principais interesses concentram-se em Direito Internacional Econ\u00f4mico e, de forma mais ampla, em Direito Internacional P\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: F\u00e1bio Thomazella Conforme observou o fil\u00f3sofo argentino Enrique Dussel (2000), a modernidade adquiriu um car\u00e1ter global a partir de&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":723,"featured_media":1065,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-1066","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo-de-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/users\/723"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1066"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1069,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066\/revisions\/1069"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/gebrics\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}