{"id":628,"date":"2022-05-27T11:50:05","date_gmt":"2022-05-27T13:50:05","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/gepim\/?p=628"},"modified":"2022-05-27T11:50:05","modified_gmt":"2022-05-27T13:50:05","slug":"reivindicacoes-constitucionais-dos-povos-aborigenes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/gepim\/reivindicacoes-constitucionais-dos-povos-aborigenes\/","title":{"rendered":"Reivindica\u00e7\u00f5es constitucionais dos povos abor\u00edgenes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Reivindica\u00e7\u00f5es constitucionais dos povos abor\u00edgenes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Texto por Carlos Perini<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os povos origin\u00e1rios que habitaram a Austr\u00e1lia pr\u00e9-colonial contavam com cerca de 320.000 membros, professando aproximadamente 150 l\u00ednguas e dialetos, distribu\u00eddos de maneira homog\u00eanea pelo continente de 13.000.000 Km\u00b2. Estima-se que os povos abor\u00edgenes tenham habitado l\u00e1 cerca de 65.000 a 75.000 anos antes da chegada dos colonos ingleses, em 1788.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim como todas as experiencias de primeiro contato entre europeus e povos ind\u00edgenas em territ\u00f3rios potencialmente lucrativos para expedi\u00e7\u00f5es coloniais, as hostilidades entre os abor\u00edgenes e os colonos ingleses resultou em viol\u00eancia prolongada, uma dr\u00e1stica diminui\u00e7\u00e3o populacional e uma hist\u00f3ria marcada pela segrega\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na regi\u00e3o de Moorundie, na cidade de Adelaide, atual capital da Austr\u00e1lia Meridional, o<br \/>\ncolono brit\u00e2nico John Eyre adquiriu, da Coroa, 1.411 hectares de terras que eram habitadas pelo povo Ngaiawong. Em 1841, com a finalidade de \u201climpar o territ\u00f3rio\u201d, um grande massacre foi perpetrado pelos habitantes europeus que residiam na regi\u00e3o. Eyre, com a inten\u00e7\u00e3o de cessar as hostilidades, passou a adotar pol\u00edticas paternalistas e prover os Ngaiawong com farinha e a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Entretanto, e \u00e0 \u00f3bvia neglig\u00eancia dos colonos, doen\u00e7as e infec\u00e7\u00f5es provocadas pel contato com os europeus, em poucas d\u00e9cadas, fez com que todo o povo Ngaiawong desaparecesse por completo, assim como sua tradi\u00e7\u00e3o e sua l\u00edngua, que hoje permanecem absolutamente inc\u00f3gnitas, como se jamais tivessem existido.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Este \u00e9 apenas um dos in\u00fameros exemplos de povos que suportaram a cat\u00e1strofe do exterm\u00ednio. Em 1930, o n\u00famero de ind\u00edgenas j\u00e1 havia ca\u00eddo para cerca de 80.000. Em um censo de 2016, entretanto, foram identificados aproximadamente 798.400 ind\u00edgenas vivendo em solo australiano, divididos entre abor\u00edgenes continentais e povos que habitam as Ilhas do Estreito de Torres, o que corresponde a 3,3% de toda a popula\u00e7\u00e3o da Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O desenvolvimento hist\u00f3rico do pa\u00eds foi profundamente marcado pelo distanciamento e pela marginaliza\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, por um lado, e por uma intensa organiza\u00e7\u00e3o social de reivindica\u00e7\u00e3o de direitos, por outro. Os povos origin\u00e1rios foram reconhecidos como cidad\u00e3os apenas no s\u00e9culo XX, adquirindo o direito ao voto apenas em 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As ilhas do Estreito de Torres, localizadas na faixa mar\u00edtima entre o nordeste da Austr\u00e1lia e o sul de Papua-Nova Guin\u00e9, s\u00e3o habitadas por uma propor\u00e7\u00e3o ainda maior de povos ind\u00edgenas. Estes s\u00e3o geralmente referidos de maneira apartada dos abor\u00edgenes continentais porque possuem caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas e culturais mais pr\u00f3ximas dos povos da Melan\u00e9sia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os povos e os territ\u00f3rios das Ilhas do Estreito de Torres foram objeto de disputa internacional entre a Austr\u00e1lia e Papua-Nova Guin\u00e9 e, em 1975, se iniciaram as negocia\u00e7\u00f5es para o que viria a ser o Tratado das Ilhas do Estreito de Torres, ratificado apenas em 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O objetivo do tratado, precipuamente, foi o de delimitar as fronteiras mar\u00edtimas entre a Austr\u00e1lia e Papua-Nova Guin\u00e9 (que havia rec\u00e9m conquistado a independ\u00eancia, em 1975), a divis\u00e3o da soberania das ilhas e a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo da regi\u00e3o. Nele, as comunidades tradicionais s\u00e3o descritas no artigo 12\u00b9 (que reconhece aspectos do direito consuetudin\u00e1rio dos povos origin\u00e1rios) e o artigo 20\u00b2 (que exclui das determina\u00e7\u00f5es sobre pesca as comunidades tradicionais, que poder\u00e3o exercer a atividade sem as limita\u00e7\u00f5es impostas pelo Tratado). Nenhuma medida impositiva de pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o cultural e lingu\u00edstica desses povos pode ser identificada no instrumento internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Desde ent\u00e3o, as reivindica\u00e7\u00f5es dos povos abor\u00edgenes e das Ilhas do Estreito de Torres est\u00e3o concentradas, sobretudo, em seu reconhecimento expresso na constitui\u00e7\u00e3o australiana, desta maneira, buscando maior participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a garantia de seus direitos fundamentais \u00e0 cultura, tradi\u00e7\u00e3o, religi\u00e3o e l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em 2015 foi criado o Referendum Council, um conselho dedicado a estimular o di\u00e1logo com as diversas comunidades ind\u00edgenas a respeito do reconhecimento constitucional e discutir as principais reivindica\u00e7\u00f5es perante o Estado australiano, resultando no relat\u00f3rio final publicado em 30 de julho de 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nele, a conclus\u00e3o adotada consistiu em uma sugest\u00e3o de proposta de emenda constitucional \u201cpara que seja realizado um referendo para prever na Constitui\u00e7\u00e3o Australiana um \u00f3rg\u00e3o que d\u00ea aos povos abor\u00edgenes e das Ilhas do Estreito de Torres uma Voz ao Parlamento da Commonwealth\u201d\u00b3 , denominado de \u201cConselho Makarrata\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ap\u00f3s o t\u00e9rmino dos di\u00e1logos e da publica\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio final, ainda em 2017, foi realizada a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional Nacional das Primeiras Na\u00e7\u00f5es, na regi\u00e3o de Uluru-kata, na Austr\u00e1lia Central. Nela, foi divulgada a Declara\u00e7\u00e3o de Uluru, endossada pelas lideran\u00e7as dos povos abor\u00edgenes e da Ilha do Estreito de Torres, reivindicando a \u201cvoz das Primeiras Na\u00e7\u00f5es\u201d e a cria\u00e7\u00e3o do conselho Makarrata.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Cinco anos ap\u00f3s as hist\u00f3ricas conquistas no campo pol\u00edtico, entretanto, as autoridades e as institui\u00e7\u00f5es australianas permanecem inertes, situa\u00e7\u00e3o que parece n\u00e3o se modificar a curto prazo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As elei\u00e7\u00f5es gerais australianas, que ocorrer\u00e3o em 21 de maio de 2022, n\u00e3o representam grande esperan\u00e7a para as hist\u00f3ricas reivindica\u00e7\u00f5es dos povos abor\u00edgenes: infla\u00e7\u00e3o, COVID-19 e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o as pautas recorrentes e mais populares, e os partidos, distribu\u00eddos no Parlamento da Commonwealth, divergem em como abordar o assunto e colocar em pr\u00e1tica as requisi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ativistas permanecem protestando, mas sem grandes expectativas de que a Declara\u00e7\u00e3o de Uluru, a cria\u00e7\u00e3o do conselho Makarrata e a Voz das Primeiras Na\u00e7\u00f5es sejam temas de preocupa\u00e7\u00e3o institucional, j\u00e1 que o contexto da corrida eleitoral tem se mostrado mais consumido pelas pautas populistas e com maior apelo, subjugando os interesses imediatos dos povos origin\u00e1rios em nome da supremacia da domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E depois de s\u00e9culos de reivindica\u00e7\u00f5es e conquistas, \u00e9 como se lhes fosse dito: \u201cesperaram duzentos anos, esperem at\u00e9 que me eleja.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>\u00b9 Article 12: Where the traditional inhabitants of one Party enjoy traditional customary rights of access<\/strong><br \/>\n<strong>to and usage of areas of land, seabed, seas, estuaries and coastal tidal areas that are in or in the vicinity<\/strong><br \/>\n<strong>of the Protected Zone and that are under the jurisdiction of the other Party, and those rights are<\/strong><br \/>\n<strong>acknowledged by the traditional inhabitants living in or in proximity to those areas to be in accordance<\/strong><br \/>\n<strong>with local tradition, the other Party shall permit the continued exercise of those rights on conditions not<\/strong><br \/>\n<strong>less favourable than those applying to like rights of its own traditional inhabitants.<\/strong><\/h6>\n<h6>\u00b2 Article 20: 1. The provisions of this Part shall be administered so as not to prejudice the achievement of<br \/>\nthe purposes of Part 4 of this Treaty in regard to traditional fishing.<\/h6>\n<h6>\u00b3 Tradu\u00e7\u00e3o livre, do original: to provide in the Australian Constitution for a body that gives Aboriginal<br \/>\nand Torres Strait Islander peoples a Voice to the Commonwealth Parliament;<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ABS 2018b.\u00a0Population projections, Australia, 2017 (base)\u20142066. ABS cat. no.<br \/>\n3222.0. Canberra: ABS.<\/p>\n<p>Commonwealth of Australia. <em>Referendum Council<\/em>. Final report of the referendum council.2017;<\/p>\n<p>LINDQVIST, Sven. <em>Terra Nullius<\/em>: a Journey through no one\u2019s land. The New Press,<br \/>\nNova Iorque, 2007.<\/p>\n<p>National Constitutional Convention. Uluru Statement from the Heart. 2017;<\/p>\n<p>Reuters. <em>As Australia votes, indigenous people press call for inclusion in constitution<\/em>.<br \/>\nDispon\u00edvel em: https:\/\/www.reuters.com\/world\/asia-pacific\/australia-votes-indigenous-<br \/>\npeople-press-call-inclusion-constitution-2022-05-13\/;<\/p>\n<p>Reuters. <em>Aboriginal Australians meet at sacred Uluru to discuss first chance of recognition<\/em>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.reuters.com\/article\/us-australia-constitution- indigenous-idUSKBN18K0P3;<\/p>\n<p>SMITH. Leonard Robert. <em>The Aboriginal population of Australia<\/em>. Canberra: Australian<br \/>\nNational University Press. 1980;<\/p>\n<p>TREATY between Australia and the Independent Satate of Papua New Guinea<br \/>\nconcerning sovereingty and maritime boundaries in the \u00e1rea between the two countries,<br \/>\nincluding the \u00e1rea known as torres strait, and relater matters. Sydney, Austr\u00e1lia, 18 de<br \/>\ndezembro de 1985, dispon\u00edvel em: http:\/\/www.austlii.edu.au\/au\/other\/dfat\/treaties\/1985\/4.html.<\/p>\n<p><strong>Fonte da imagem<\/strong>: Dave Hunt, file image, do site https:\/\/www.abc.net.au\/news\/2014-01-29\/genetic-modification-helps-aboriginal-people-survive-hot-climat\/5225742<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reivindica\u00e7\u00f5es constitucionais dos povos abor\u00edgenes Texto por Carlos Perini Os povos origin\u00e1rios que habitaram a Austr\u00e1lia pr\u00e9-colonial contavam com cerca de 320.000 membros, professando aproximadamente 150 l\u00ednguas e dialetos, distribu\u00eddos de maneira homog\u00eanea pelo continente de 13.000.000 Km\u00b2. 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