{"id":584,"date":"2024-12-01T15:26:21","date_gmt":"2024-12-01T17:26:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/?p=584"},"modified":"2024-12-01T15:27:32","modified_gmt":"2024-12-01T17:27:32","slug":"professor-da-unicamp-questiona-faz-ainda-algum-sentido-a-cop30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/professor-da-unicamp-questiona-faz-ainda-algum-sentido-a-cop30\/","title":{"rendered":"Professor da Unicamp questiona: &#8220;Faz ainda algum sentido a COP30?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>As Confer\u00eancias das Partes (COPs), organizadas anualmente pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), n\u00e3o est\u00e3o produzindo efeito algum no sentido de promover a mudan\u00e7a de rota necess\u00e1ria para que a humanidade se veja livre de uma grande cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica e clim\u00e1tica. Essa \u00e9 a opini\u00e3o de Luiz Marques, professor do Departamento de Hist\u00f3ria do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (IFCH) da Unicamp que vem se dedicando nos \u00faltimos anos a compreender as intrincadas rela\u00e7\u00f5es entre a crise ambiental e o atual modelo econ\u00f4mico baseado na utiliza\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Fundamentado em uma s\u00e9rie de dados robustos que indicam a ainda acentuada curva de crescimento nas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) causados por atividades como queima de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s, al\u00e9m do desmatamento, Marques faz um questionamento contundente acerca da efic\u00e1cia desses grandes encontro multilaterais. Para o autor, se a COP30, a ser realizada no Brasil em 2025, n\u00e3o apresentar acordos significativos em linha com o objetivo de estabilizar as emiss\u00f5es de GEE, \u00e9 prov\u00e1vel que comece a haver um esvaziamento por parte das na\u00e7\u00f5es e uma perda de legitimidade.<\/p>\n<p>Veja abaixo o artigo completo.<\/p>\n<h3><strong>COP29, a COP Zumbi. Faz ainda algum sentido a COP30?<\/strong><\/h3>\n<p>A 29\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (COP29), realizada no arcabou\u00e7o da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (UNFCCC, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 assinada h\u00e1 mais de 30 anos \u2013, oferece a en\u00e9sima comprova\u00e7\u00e3o de que esse tratado da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) visando \u00e0 conten\u00e7\u00e3o da emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u00e9 um cad\u00e1ver insepulto. A COP29 foi uma COP Zumbi. Que esse tratado seja de h\u00e1 muito letra morta n\u00e3o \u00e9 segredo para ningu\u00e9m. J\u00e1 em 2021, quando da COP26 em Glasgow (Esc\u00f3cia), <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/614871-resumo-dos-resultados-da-cop26-artigo-de-luiz-marques\">escrevi a respeito<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_585\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-content\/uploads\/sites\/1284\/2024\/12\/UNFCCC-COP29-8710.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-585\" class=\"wp-image-585 size-full\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-content\/uploads\/sites\/1284\/2024\/12\/UNFCCC-COP29-8710.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-content\/uploads\/sites\/1284\/2024\/12\/UNFCCC-COP29-8710.jpg 650w, https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-content\/uploads\/sites\/1284\/2024\/12\/UNFCCC-COP29-8710-300x200.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-content\/uploads\/sites\/1284\/2024\/12\/UNFCCC-COP29-8710-400x266.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-585\" class=\"wp-caption-text\">Ativistas do Greenpeace fazem protesto durante a COP29 cobrando a responsabiliza\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias poluidoras. Foto: Marie Jacquemin\/Greenpeace<\/p><\/div>\n<p>\u201cSalvo engano meu (e gostaria muito de estar enganado), a Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, nascida em 1992, est\u00e1 morta . Morreu em Madri, em 2019, e o enterro foi em Glasgow. A Missa de S\u00e9timo Dia ser\u00e1 no Egito, em 2022 (COP27), e a missa de um ano ser\u00e1 oficiada nos Emirados \u00c1rabes Unidos, em 2023 (COP28), uma das capitais do petr\u00f3leo. [\u2026] A COP28 ser\u00e1 quase como um ritual macabro da vit\u00f3ria final dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. At\u00e9 l\u00e1, as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa estar\u00e3o bem acima dos n\u00edveis atingidos em 2019\u201d.<\/p>\n<p>Voltei ao tema em 2022, escrevendo para o Jornal da Unicamp sobre a COP27. Intitulado \u201cA Conven\u00e7\u00e3o-Quadro do Clima morreu. E agora?\u201d, o artigo afirmava que o tratado n\u00e3o apenas morrera, mas que havia nascido morto, porque n\u00e3o levara em conta os progn\u00f3sticos do Primeiro Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas), de 1990. Relembremos o<a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/site\/assets\/uploads\/2018\/03\/ipcc_far_wg_I_full_report.pdf\"> que disse ent\u00e3o o IPCC<\/a>:<\/p>\n<p>\u201cBaseado nos resultados dos modelos atuais, predizemos, no Cen\u00e1rio A do IPCC (Business-as-Usual) de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, uma taxa de aumento da temperatura m\u00e9dia global durante o pr\u00f3ximo s\u00e9culo de cerca de 0,3\u00b0C por d\u00e9cada (com uma faixa de incerteza de 0,2\u00b0C a 0,5\u00b0C por d\u00e9cada). [\u2026] Isso resultar\u00e1 em um prov\u00e1vel aumento na temperatura m\u00e9dia global de cerca de 1\u00b0C acima do valor atual at\u00e9 2025 e 3\u00baC antes do final do pr\u00f3ximo s\u00e9culo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1990, o IPCC previa, acertadamente:<\/p>\n<p><strong>(1)<\/strong> A taxa de aquecimento por d\u00e9cada sucessiva a 1990. De fato, o aquecimento m\u00e9dio global (terrestre e mar\u00edtimo combinados) aumentou \u00e0 taxa de 0,22\u00baC por d\u00e9cada entre 1991 e 2023 e 0,33\u00baC por d\u00e9cada entre 2011 e 2023. Al\u00e9m disso, entre 2011 e 2023, o aquecimento apenas oce\u00e2nico aumentou \u00e0 taxa gigantesca de 0,26\u00baC por d\u00e9cada e o aquecimento m\u00e9dio global apenas terrestre (atmosfera superficial) <a href=\"https:\/\/www.ncei.noaa.gov\/access\/monitoring\/climate-at-a-glance\/global\/time-series\/globe\/tavg\/land\/12\/12\/1850-2024?trend=true&amp;trend_base=10&amp;begtrendyear=2011&amp;endtrendyear=2024\">aumentou 0,5\u00baC por d\u00e9cada<\/a>.<\/p>\n<p><strong>(2)<\/strong> O aquecimento m\u00e9dio global deveria cruzar 1,5\u00baC at\u00e9 2025. Em 1990, o aquecimento m\u00e9dio global j\u00e1 era de cerca de 0,5\u00baC. Portanto, a previs\u00e3o de um aquecimento de cerca de 1\u00baC at\u00e9 2025 \u201cacima do valor atual\u201d realizou-se em 2024. De fato, em 15 dos \u00faltimos 16 meses a temperatura m\u00e9dia ficou mais de 1,5\u00baC acima da do per\u00edodo pr\u00e9-industrial. Na mosca!<\/p>\n<p>Os signat\u00e1rios da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro ignoraram esse veredito. Resultado: em 2023, as emiss\u00f5es globais de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram 1,3% em rela\u00e7\u00e3o a 2022, batendo o recorde de 57,1 bilh\u00f5es de toneladas. E entre 2015 (Acordo de Paris, COP21) e 2024, as emiss\u00f5es de CO2 aumentaram 8%.<\/p>\n<p>Assim, se as COP26, COP27 e COP28 j\u00e1 eram rituais p\u00f3stumos do Acordo do Clima, a COP29 parece mesmo uma COP Zumbi, ou um revival da pataf\u00edsica de Alfred Jarry, a \u201cci\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias e das leis que regem as exce\u00e7\u00f5es\u201d, que inspirou os surrealistas da gera\u00e7\u00e3o de 1948. De resto, o presidente do Azerbaij\u00e3o, Ilhan Aliyev, faz lembrar o Ubu Rei, protagonista da pe\u00e7a hom\u00f4nima (1896) de Jarry, ao repetir, na abertura da COP, que \u201co petr\u00f3leo \u00e9 um presente de Deus\u201d. Mas h\u00e1 uma passagem nada surrealista, ali\u00e1s bem realista, em seu discurso, que a imprensa europeia divulgou de modo mais discreto:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 dois anos, o Azerbaij\u00e3o e a Comiss\u00e3o Europeia assinaram uma declara\u00e7\u00e3o de parceria estrat\u00e9gica no campo da energia. Isso n\u00e3o foi uma ideia nossa e sim da Comiss\u00e3o Europeia. [\u2026] Pediram nossa ajuda e a demos. [\u2026] Dois anos atr\u00e1s, quando assinamos essa declara\u00e7\u00e3o, dois pa\u00edses europeus recebiam nosso g\u00e1s. Hoje s\u00e3o oito. Oito dos dez pa\u00edses aos quais exportamos nosso g\u00e1s s\u00e3o europeus. A Comiss\u00e3o Europeia tamb\u00e9m nos pediu para dobrar nossa oferta de g\u00e1s para a Europa at\u00e9 2027\u201d.<\/p>\n<p>O Azerbaij\u00e3o \u00e9, sabidamente, o ber\u00e7o hist\u00f3rico do petr\u00f3leo, mas sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje marginal. Segundo o Worldometers, ele \u00e9 o 24\u00ba maior produtor de petr\u00f3leo do mundo, produzindo cerca de 850 mil barris de petr\u00f3leo por dia (0,7% da produ\u00e7\u00e3o mundial), menos da metade da produ\u00e7\u00e3o da Noruega (2 milh\u00f5es de barris\/dia) e 17 vezes menos do que os EUA, o primeiro produtor mundial (quase 15 milh\u00f5es de barris\/dia). E, se ele continua hoje sendo um Petroestado, isso tem a ver com a crescente demanda de seus clientes europeus, que posam de l\u00edderes de uma fict\u00edcia transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>1. As COPs e o mundo real<\/strong><\/p>\n<p>Fict\u00edcia, sem d\u00favida. Em 2023, o artigo 23 do documento resultante da COP28, em Dubai (Emirados \u00c1rabes Unidos), sublinhava a necessidade de \u201ctransitar para fora dos combust\u00edveis f\u00f3sseis nos sistemas energ\u00e9ticos, de uma forma justa, ordenada e equitativa, acelerando a a\u00e7\u00e3o neste dec\u00eanio cr\u00edtico, de modo a atingir a meta de zero emiss\u00f5es l\u00edquidas at\u00e9 2050, <a href=\"https:\/\/unfccc.int\/sites\/default\/files\/resource\/cma2023_L17_adv.pdf\">em acordo com a ci\u00eancia<\/a>\u201d. \u00c9 grotesco que a primeira men\u00e7\u00e3o ao termo \u201ccombust\u00edveis f\u00f3sseis\u201d ocorra mais de 30 anos ap\u00f3s a assinatura da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro sobre o clima. E \u00e9 tanto mais grotesco porque nada de concreto substancia essa declara\u00e7\u00e3o da COP28. Nada \u00e9 dito, sobretudo, sobre o fim dos subs\u00eddios governamentais \u00e0 ind\u00fastria dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Segundo Kristalina Georgieva, diretora-geral do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), em 2023 os governos gastaram cerca de US$ 1,3 trilh\u00e3o em subs\u00eddios diretos aos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Isso posto, acrescenta: \u201cSe levarmos em conta os subs\u00eddios indiretos, o fato de n\u00e3o precificarmos o carbono e os impactos sanit\u00e1rios da polui\u00e7\u00e3o causada pelos combust\u00edveis f\u00f3sseis, estamos falando em um total de US$ 7 trilh\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Voltemos ao mundo real. Neste, os Estados Unidos de Trump sair\u00e3o novamente da conven\u00e7\u00e3o do clima. A deser\u00e7\u00e3o do segundo maior emissor de GEE do mundo \u00e9 obviamente uma p\u00e9ssima not\u00edcia, mas seu impacto \u00e9 mais psicol\u00f3gico do que efetivo, porque sua presen\u00e7a nas COPs sempre atrapalhou mais do que ajudou as negocia\u00e7\u00f5es. A frase do ex-presidente George Bush (pai), no Rio de Janeiro em 1992, continua atual\u00edssima: \u201cO modo de vida dos EUA n\u00e3o est\u00e1 aberto a negocia\u00e7\u00f5es. Ponto final\u201d (\u201cThe American way of life is not up for negotiations. Period.\u201d). De resto, at\u00e9 finais de 2023, o atual presidente norte-americano, Joe Biden, aprovara quase 50% mais licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s em terras federais do que Trump em seus primeiros tr\u00eas anos de governo. O mundo real \u00e9 tamb\u00e9m o que nos revela o \u00faltimo relat\u00f3rio da Global Oil &amp; Gas Exit List (Gogel), que inclui 1.769 empresas, respons\u00e1veis \u200b\u200bpor 95% da produ\u00e7\u00e3o global de <a href=\"https:\/\/gogel.org\/\">petr\u00f3leo e g\u00e1s<\/a>. Em 2023, a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s atingiu um recorde hist\u00f3rico: 55,5 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo equivalente (bboe), ultrapassando, assim, o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-covid-19.<\/p>\n<p>Em suma, o mundo real \u00e9 este: malgrado 29 COPs, estamos transitando cada vez mais em dire\u00e7\u00e3o aos combust\u00edveis f\u00f3sseis. A COP28, em Dubai, estabeleceu o compromisso de mobilizar (rid\u00edculos) US$ 702 milh\u00f5es por ano para o \u201cFundo de Perdas e Danos\u201d dos pa\u00edses mais pobres. Enquanto isso, as empresas de petr\u00f3leo est\u00e3o gastando uma m\u00e9dia de US$ 61,1 bilh\u00f5es em explora\u00e7\u00e3o anualmente. Os dados mostram que 578 empresas pretendem explorar 239,3 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo equivalente (bboe) de novos recursos nos pr\u00f3ximos um a sete anos. As sete empresas com os maiores planos de expans\u00e3o de curto prazo s\u00e3o a Saudi Aramco (19,6 bboe), a QatarEnergy (17,8 bboe), a ADNOC (9,5 bboe), a ExxonMobil e a Gazprom (9,4 bboe cada), a TotalEnergies e a Petrobras (8 bboe cada). Quase dois ter\u00e7os dos planos de expans\u00e3o de curto prazo dessa ind\u00fastria ultrapassam o cen\u00e1rio da Ag\u00eancia Internacional de Energia para emiss\u00f5es l\u00edquidas zero at\u00e9 2050. Em uma confer\u00eancia de energia em Houston, em mar\u00e7o \u00faltimo, o CEO da Saudi Aramco, Amin Nasser, disse: \u201cDev\u00edamos abandonar a fantasia de descontinuar a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s\u201d (\u201cWe should abandon the fantasy of phasing out oil and gas.\u201d). Nasser referia-se \u00e0 declara\u00e7\u00e3o da COP28, de resto, convenientemente \u201cesquecida\u201d no documento final da COP29, assim como no do G20.<\/p>\n<p><strong>2. Os pa\u00edses ricos pagar\u00e3o muito caro por sua desfa\u00e7atez<\/strong><\/p>\n<p>Uma \u00f3tima an\u00e1lise a respeito da situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica atual foi proposta por Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alvez, com o t\u00edtulo: <a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods13\/meta-de-15oc-esta-mais-morta-do-que-uma-porta\/\">\u201cMeta de 1,5 oC est\u00e1 mais morta do que uma porta\u201d<\/a>. O artigo tem por ep\u00edgrafe uma frase pronunciada na abertura da COP29 por Ant\u00f3nio Guterres, secret\u00e1rio-geral da ONU: \u201cEste ano de 2024 tem sido uma aula magistral de destrui\u00e7\u00e3o humana\u201d (\u201cThis year has been a masterclass in human destruction.\u201d).<\/p>\n<p>De fato, a COP29 trouxe a novidade de destruir at\u00e9 as apar\u00eancias. Ela foi a COP do dinheiro, da nova sopa de letrinhas, dessa vez NCQG (New Collective Quantified Goal), ou Novo Objetivo Coletivo Quantificado. Tratava-se de uma nova quantifica\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia de recursos dos pa\u00edses ricos para os pa\u00edses pobres, de modo a aumentar as chances de viabilizar a descarboniza\u00e7\u00e3o de suas economias. Nesse sentido, a COP29 foi a da desfa\u00e7atez dos pa\u00edses ricos e a do enfrentamento mais expl\u00edcito entre Norte e Sul, de modo que, ao final, faltaram os aplausos m\u00fatuos, com seus habituais abra\u00e7os e tapinhas nas costas. Os pa\u00edses pobres, com raz\u00e3o, consideraram a proposta prevalecente dos pa\u00edses ricos \u201cum insulto\u201d e uma \u201cflagrante viola\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a clim\u00e1tica\u201d. Ap\u00f3s a batida final de martelo e a ova\u00e7\u00e3o de al\u00edvio, Chandni Raina, representante da \u00cdndia, exclamou: \u201cA \u00cdndia n\u00e3o aceita essa proposta em sua forma atual. Esse documento \u00e9 uma ilus\u00e3o de \u00f3tica\u201d. Foi aclamada pelos representantes de Cuba, da Bol\u00edvia e da Nig\u00e9ria. N\u00e3o por acaso, Marina Silva declarou que \u201ca COP29 foi uma experi\u00eancia dolorosa\u201d.<\/p>\n<p>Como observado por Claudio Angelo, do Observat\u00f3rio do Clima, os pa\u00edses ricos \u201cclaramente chegaram para se livrar de suas obriga\u00e7\u00f5es\u201d. E dado que os rid\u00edculos US$ 300 bilh\u00f5es anuais at\u00e9 2035, finalmente acordados, vir\u00e3o em grande parte na forma de empr\u00e9stimos, ele bem lembrou que \u201cter financiamento clim\u00e1tico como o texto atual prop\u00f5e s\u00f3 vai aprisionar ainda mais esses pa\u00edses,\u201d j\u00e1 atolados em d\u00edvidas.[11] Para come\u00e7o de jogo, os pa\u00edses ricos deveriam simplesmente cancel\u00e1-las. O balan\u00e7o da COP29 feito por Ali Mohamed, enviado especial do Qu\u00eania e porta-voz do Grupo \u00c1frica, n\u00e3o poderia ser mais claro: a proposta final foi \u201cfraca demais, demasiado tardia e amb\u00edgua. [\u2026] Quando a \u00c1frica perde, o mundo perde\u201d.[12] Sim, o mundo todo perde, e n\u00e3o por \u00faltimo os pa\u00edses ricos. Alissa Kleinnijenhuis lembra, com raz\u00e3o, que quando se fala em transfer\u00eancia de recursos, \u201ca escala \u00e9 o nome do jogo\u201d. Ora, os pa\u00edses ricos n\u00e3o entenderam o que est\u00e1 em jogo: \u201cPagar agora os pa\u00edses pobres para ajud\u00e1-los a se descarbonizar ou enfrentar uma escalada de preju\u00edzos clim\u00e1ticos em casa\u201d. O impacto das emiss\u00f5es de GEE, e portanto, do aquecimento \u00e9 sentido globalmente. Assim, o aumento dessas emiss\u00f5es de parte dos pa\u00edses pobres j\u00e1 est\u00e1 sendo sentido ao norte do Mediterr\u00e2neo (Val\u00eancia que o diga) e ser\u00e1 sentido cada vez mais. A Europa \u00e9 o continente que mais rapidamente se aquece desde 1980. Em 2022, o aquecimento m\u00e9dio anual j\u00e1 a\u00ed atingira 2,3 \u00b1 0,2 \u00b0Cem rela\u00e7\u00e3o a 1850-1900 (Copernicus\/OMM), quase o dobro, portanto, do aquecimento m\u00e9dio global naquela data. N\u00e3o custa relembrar o European Environmental Report de 2024:<\/p>\n<p>\u201cA Europa \u00e9 o continente que mais rapidamente se aquece no mundo. O calor extremo, outrora relativamente raro, est\u00e1 se tornando mais frequente \u00e0 medida que os padr\u00f5es de precipita\u00e7\u00e3o mudam. Chuvas torrenciais e outros extremos est\u00e3o se agravando e, nos \u00faltimos anos, registraram-se inunda\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas em v\u00e1rias regi\u00f5es. Ao mesmo tempo, o sul da Europa deve sofrer diminui\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis de precipita\u00e7\u00e3o e secas mais graves. Tais eventos, combinados com fatores de risco ambiental e social, imp\u00f5em grandes desafios em toda a Europa\u201d.<\/p>\n<p>Kleinnijenhuis lembra tamb\u00e9m que o compromisso anterior de transferir US$ 100 bilh\u00f5es por ano at\u00e9 2020 s\u00f3 foi alcan\u00e7ado em 2022 e, mais importante, \u201capenas US$ 25 bilh\u00f5es na forma de investimentos sem obriga\u00e7\u00e3o de pagamento. O resto foi sobretudo providenciado por financiamentos privados e empr\u00e9stimos\u201d. Os juros banc\u00e1rios dos bancos dos pa\u00edses ricos s\u00e3o a alma do neg\u00f3cio do clima\u2026<\/p>\n<p><strong>3. A COP30 ser\u00e1 capaz de ressuscitar a Conven\u00e7\u00e3o-Quadro?<\/strong><\/p>\n<p>A Papua-Nova Guin\u00e9 boicotou a COP29. Em vista das \u201cpromessas vazias e da ina\u00e7\u00e3o\u201d, preferiu adotar a \u201cpol\u00edtica da cadeira vazia\u201d. Justin Tckatchenko, ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do pa\u00eds, descreveu-a como \u201cuma total perda de tempo\u201d:<\/p>\n<p>\u201cAs \u00faltimas tr\u00eas COPs andaram em c\u00edrculos, n\u00e3o produzindo resultados tang\u00edveis para os pequenos Estados insulares. A COP29 n\u00e3o ser\u00e1 diferente. Ent\u00e3o a Papua-Nova Guin\u00e9 n\u00e3o participar\u00e1 no n\u00edvel pol\u00edtico. A comunidade internacional demonstrou total falta de respeito por pa\u00edses como o nosso, que desempenham um papel crucial na mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Estamos cansados \u200b\u200bde ser marginalizados. As promessas feitas pelos principais poluidores n\u00e3o passam de conversa fiada. Elas imp\u00f5em barreiras imposs\u00edveis para que tenhamos acesso aos fundos cruciais de que precisamos para proteger nosso povo\u201d.<\/p>\n<p>Finalmente um pa\u00eds teve a coragem de dizer que o rei est\u00e1 nu. Nesse jogo de cartas marcadas, todos fingem negociar o que j\u00e1 foi decidido antes e prometem o que n\u00e3o cumprir\u00e3o. Por que cumpririam, se n\u00e3o h\u00e1 governan\u00e7a global capaz de impor san\u00e7\u00f5es aos transgressores? Peter Wadhams, especialista do \u00c1rtico, refor\u00e7a essa percep\u00e7\u00e3o: \u201cO governo [brit\u00e2nico] pode afirmar seu compromisso de que em 30 anos reduzir\u00e1 nossas emiss\u00f5es de CO2 em 80%. Ele pode citar o n\u00famero que quiser nesse compromisso, porque n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AEM2NhPw--U\">cumpri-lo<\/a>\u201d. Em 2015 (COP21), o Brasil assumiu o compromisso de diminuir suas emiss\u00f5es de GEE at\u00e9 2030 em 37% em rela\u00e7\u00e3o a 2005. A Figura 2 mostra a realidade.<\/p>\n<p>Em 2021, as emiss\u00f5es aumentaram 12,2% em rela\u00e7\u00e3o a 2020 e em 2022 aumentaram ainda mais. Em 2023, elas come\u00e7aram a diminuir, mas est\u00e3o ainda acima das de 2007 (e observe-se que a contabilidade das emiss\u00f5es brasileiras n\u00e3o leva em conta as emiss\u00f5es de metano das hidrel\u00e9tricas e tampouco, salvo engano meu, as emiss\u00f5es liberadas pelos inc\u00eandios). Na COP28, a Col\u00f4mbia subscreveu o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Combust\u00edveis F\u00f3sseis, enquanto o Brasil preferiu aceitar o convite para aderir \u00e0 vers\u00e3o expandida da Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo (OPEP+) e levou por isso, merecidamente, o pr\u00eamio F\u00f3ssil do Dia, conferido desde 1999 pela Climate Action Network (CAN). E, como se n\u00e3o bastasse esse vexame, em 13 de dezembro de 2023, no dia seguinte ao t\u00e9rmino da COP28, a Ag\u00eancia Nacional de Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis (ANP) promoveu o obsceno \u201cLeil\u00e3o do Fim do Mundo\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 raz\u00f5es para acreditar que a COP30 representar\u00e1 a miraculosa ressurrei\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro do Clima? Se esse milagre n\u00e3o acontecer, se a COP30 continuar sequestrada pelo petr\u00f3leo e pelo agroneg\u00f3cio, se os lobbies do Big Oil e do Big Ag continuarem a sentar \u00e0 mesa das negocia\u00e7\u00f5es, o mais prov\u00e1vel (e desej\u00e1vel) \u00e9 que mais pa\u00edses sigam o exemplo corajoso da Papua-Nova Guin\u00e9. Veremos\u2026<\/p>\n<p>Este texto n\u00e3o reflete, necessariamente, a opini\u00e3o do projeto GovAmb.<\/p>\n<p>Publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/jornal.unicamp.br\/artigo\/2024\/11\/28\/luiz-marques\/cop29-a-cop-zumbi-faz-ainda-algum-sentido-a-cop30\/\">Jornal da Unicamp<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Confer\u00eancias das Partes (COPs), organizadas anualmente pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), n\u00e3o est\u00e3o produzindo efeito algum no sentido&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":23646,"featured_media":585,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-584","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/584","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23646"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=584"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/584\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":587,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/584\/revisions\/587"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/media\/585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=584"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=584"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/govamb\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=584"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}