As mesmas 24 horas
Texto: Gabriela Duarte
Jovem, estudante, trabalhadora. Acordei mais um dia tentando fazer tudo ser diferente. Afinal, dizem que todo mundo tem as mesmas vinte e quatro horas, não é? Quatro da manhã: o banho já estava em andamento. Cinco horas: a marmita pronta e guardada na bolsa. Sete horas: duas horas de estrada, mas ainda longe de chegar ao destino. Quase nove da manhã, e o som que ninguém quer ouvir ecoa:
— O ônibus quebrou!
Descemos, aguardamos o próximo. Estou atrasada. Mais um dia comum, marcado pelo peso diário que sufoca os sonhos, pelos minutos que escorrem das minhas mãos como areia. A sensação é de que minha vida vale menos, que o tempo que gasto nunca será suficiente.
Mas é preciso seguir. No ônibus lotado, tento adiantar o trabalho daquela matéria dificílima, enquanto aproveito a lentidão do sinal para, finalmente, comprar aquele tênis tão desejado. Ninguém precisa saber em quantas vezes foi parcelado. Nos raros 20 minutos em que consegui me sentar, suspirei. Um pequeno luxo: fechar os olhos, mergulhar por segundos num sono profundo. Até que o medo de perder o ponto me acorda bruscamente. É sempre assim. O eterno retorno do mesmo. A grande maré sem pausa de horas.
— Corre! Você está atrasada.
Permanentemente atrasada. Atraso que me torna refém dos meus próprios sonhos. É normal ser tão difícil assim?
— Mas calma — me digo — é o curso dos seus sonhos. O emprego que você precisa. A mensagem da minha mãe chega, e eu sorrio:
— Viu que a mamãe fez purê de batatas?
Não só vi, como senti o cheiro, o gosto, o desejo de estar em casa. Esse pequeno fragmento de afeto é um oásis em meio à avalanche de minutos até o fim do expediente. Me pergunto se é errado querer mais tempo. Ou será que é honroso viver nesse sacrifício constante, num looping interminável de dias, horas, minutos, semestres, anos?
Mas o relógio segue girando. Eu tenho as mesmas vinte e quatro horas que todos, dizem. Só que essas horas não me parecem iguais. Perco mais de quatro no transporte. Não consigo estudar com qualidade, dormir com qualidade, comer com qualidade. Amar com qualidade. Não consigo, simplesmente, existir dignamente.
Se eu tivesse um carro, se as contas estivessem pagas, se morasse perto de onde preciso estar… Presumo que seria diferente. Ouvir que cada um tem suas batalhas é bonito e real, mas algumas batalhas esmagam mais do que outras.
Quase onze da noite:
— A aula acabou!
Ouço com alívio. Mas me sinto culpada. Cansada demais para aproveitar o que deveria ser a construção do meu maior sonho. Não dá tempo para lamentar. É hora de correr e não perder o ônibus de volta. E, mais uma vez, não me perder na dança monótona de mais um dia exaustivo.