Segredos Exumados

Texto: Fernanda Silva

Sextas-feiras em uma empresa costumam ser “oito ou oitenta”: ou temos um mundo de trabalho caindo sob nossas cabeças ou o ambiente laboral é tomado por um marasmo que deixa até o tempo difícil de passar. Observei o escritório ali do meu posto de recepcionista, me parecia que aquele dia seria como na segunda opção, mas eu estava enganada.

Foi um pouco depois do almoço, por volta das 14h, que notei uma agitação anormal nos corredores. O Sr. Penteado, dono da construtora, estava vermelho e com uma expressão de pânico, atrás dele estavam os advogados da companhia. Todos passavam apressadamente sem nem dizer boa tarde. Só consegui ler os lábios de Heitor, o estagiário do jurídico e meu amigo, que disse: “Depois eu te explico tudo”. 

Bastaram vinte minutos para que Dona Beth, a telefonista fofoqueira chegasse ao meu balcão com aquela costumeira expressão de quem tem uma bomba para contar.

Ei, menina! Você tá sabendo? – Neguei com a cabeça – Tem gente do governo vindo aí, vão investigar a construtora!

Já está espalhando desinformação, Dona Beth? – Heitor surgiu na recepção –  Aliás, estou aqui para falar com a Laura – apontou em minha direção – Por favor, nos dê licença.

A mulher de meia-idade saiu em passos pesados, bufando por não conseguir arrancar a informação que gostaria. O estagiário olhou em reprovação, ele não suportava o comportamento “fifi” da telefonista. 

Sua expressão mudou para preocupação quando voltou para continuar a conversa comigo, logo percebi que não haviam boas notícias. O estudante de direito começou a me explicar que a Comissão da Verdade estava chegando à Século Construções. Ao o que tudo indicava, uma de nossas obras havia sido cenário de uma tortura seguida de morte durante a ditaduta militar. 

O relógio marcava 15h30 quando vários homens e mulheres que carregavam inúmeros documentos em pastas adentraram o prédio ao lado das autoridades. Uma mulher com a expressão séria disse que estavam lá para fazer perguntas sobre uma obra do ano de 1971. Chamei o Dr. Almeida, o chefe do departamento jurídico, através do telefone da recepção, como Heitor havia orientado. Não demorou para que o advogado chegasse e levasse todos para a sala de reuniões. 

Eu sabia que seria errado bisbilhotar mas não resisti dada a gravidade e magnitude da situação. Abandonei meu lugar e adentrei os corredores da empresa indo em direção a sala de reuniões. As palavras não estavam muito claras mas consegui ouvir algumas coisas como: “Base Aérea de Santa Cruz”, “ossadas” e “ditadura militar”

Decidi arriscar um pouco mais, levei meu ouvido até a porta e torci para que ninguém a abrisse. Reconheci a voz da mesma mulher que havia falado há pouco na recepção. 

O sargento já confessou tudo em depoimento, disse que está enterrado na cabeceira da pista, agora só precisamos saber o envolvimento de vocês nisso. 

— O que sabemos foi que ameaçaram os construtores que estavam lá, mandaram esperar jogar o corpo e concretar tudo! – reconheci a voz do Dr. Almeida. 

Uma movimentação na sala me fez disparar para longe do corredor, me escondi no banheiro mais próximo e fiquei até perceber que era seguro. Voltei ao meu posto e decidi esperar que Heitor voltasse para me explicar tudo certinho. 

Não demorou muito para que os membros da Comissão da Verdade passassem pelo meu balcão para ir embora. Meu celular apitou indicando uma mensagem do estagiário que me pediu para esperá-lo para ir embora ao fim do expediente e assim o fiz.

Ao fim da tarde caminhávamos pelas ruas da zona zul de São Paulo enquanto ele me explicava que um Sargento aposentado do exército havia confessado a tortura, execução e ocultação de um corpo durante a construção da  base aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Uma noite os militares chegaram com um jovem militante do Partido Comunista quase morto, e sob a mira de suas armas mandaram os trabalhadores abrirem um espaço na cabeceira da pista inacabada, onde terminaram de assassinar a vítima e jogaram seu corpo. Agora queriam ter certeza se a empresa havia sofrido ameaças ou se havia sido cúmplice do ocorrido.

Não demorou muito tempo para que a história completa saísse na imprensa. As autoridades escavaram a base aérea e encontraram a ossada de ninguém menos que Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel, que havia contado a história sobre o desaparecimento do jovem para todo o país. A empresa havia sido ameaçada, o pai do Sr. Penteado foi instruído a não dizer nada caso quisesse permanecer vivo, mas é claro que ela também tinha uma certa simpatia pelo regime da época, só não puderam provar essa parte.

Demorei para digerir a história. Afinal, quantos outros segredos, crimes e sujeiras aquele lugar escondia? Não sabia se gostaria de pensar nisso. Então, apenas fechei o jornal sentindo meu estômago revirar e retomei meu trabalho esperando o próximo acontecimento que quebraria a rotina da construtora