A Bossa Nova dos 18
Texto: Isabella Lopes
5, 4, 3, 2, 1… Feliz Ano Novo! Mas, dessa vez, a virada para os 366 dias que viriam carregava um peso amargo de incerteza. A escola — meu maior parâmetro até então — havia acabado e os resultados dos tão sofridos vestibulares estavam por vir. Faltava algo certo ao qual eu pudesse me segurar.
Crescer é uma coisa engraçada. Quando se é criança, o maior pesadelo é acabar preso na areia movediça, ser capturado por alienígenas de um desenho animado ou ter botões costurados no lugar dos olhos. No início da adolescência, os grandes desafios são encontrar um grupo em que você se encaixe e ajudar sua cantora pop favorita a ganhar um prêmio por votação na internet. Para essa garota de 17 anos e tantos outros jovens espalhados por aí, o mais sombrio medo — que morava entre o fim da infância e o início da vida adulta — era o fracasso, o sentimento de ficar para trás em um jogo de tabuleiro. O mundo, antes cheio de glitter e arco-íris, se tornou mais cinza, tudo é mais acelerado e mal se sabe o que é descansar.
Em um certo dia em que, até então, não tinha nada de especial, minha vida mudou. “Convocada para matrícula na 1ª chamada” era o que estava escrito no site do vestibular. Eu havia conseguido entrar na Universidade de São Paulo, a maior da nossa tão querida América Latina.
Entre desejos de boa sorte e muitas lágrimas, aquela garota que acabara de completar 18 anos estava fisicamente sozinha no lugar mais movimentado do país. O ambiente de cidade pequena deu lugar ao ritmo frenético de São Paulo. Dificilmente eu encontraria um conhecido na rua; painéis luminosos estavam em todos os cantos; e é possível pedir delivery de comida a literalmente qualquer momento do dia. Mudar pode ser assustador, mas não há graça se tudo continua da mesma forma sempre.
Quando as águas de março fecharam o verão — mas não levaram as altas temperaturas embora — teve início essa nova fase. Ela tem uma aparência de vestido amarelo num dia ensolarado, de tomar sorvete na cama após um dia cansativo de trabalho ou de comer aquela primeira pipoca com manteiga no cinema. O velho sonho jovem presente em clássicos como Clube dos Cinco e A Sociedade dos Poetas Mortos estava de volta, mais forte que nunca. Eu era a louca, desvairada e sonhadora descrita por Todd Anderson.
Porém, nem tudo é feito de flores e chocolate. Quando eu era pequena, acreditava que os adultos sabiam responder todas as perguntas que tinham no mundo, mas conquistar a maioridade é perceber que a vida é um grande texto cheio de pontos de interrogação e que as certezas são raras e frágeis. É entender que não se é imune à dor, à solidão e à tristeza como um super-herói dos quadrinhos e que existem coisas que doem bem mais do que se gostaria. É descobrir que o mundo não é justo como na TV e que não existem respostas para tudo.
Embora as quedas e decepções existam, a vida nunca para de ser fascinante. Quem sabe eu ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola, sozinha. Cansada com minhas meias três quartos…