A espera do viver
Texto: Isabella Zanelli
Desde pequenos, aprendemos a dar valor a coisas que ainda não podemos tocar. Eu lembro dos adesivos novos no caderno do começo do ano escolar. Cada um deles era escolhido com cuidado, brilhando com personagens e cores, como se carregasse a promessa de um ano inteiro de aventuras. Era só abrir o caderno, olhar para aquele adesivo tão bonito e pronto: eu travava.
“Será que vale a pena gastar ele agora?” eu me perguntava. O adesivo ficava guardado, intocado, numa gaveta que ia ficando cada vez mais cheia de promessas adiadas, enquanto eu esperava o momento certo que nunca chegava. Eu guardava, guardava… e esquecia. Aquilo que era tão precioso, tão “para depois”, virava uma coisa meio perdida no tempo.
Esperar não é só sobre ter paciência, é quase como um desejo pelo futuro, uma esperança de que ele vá ser sempre melhor do que o presente. Outro dia, me vi vivendo uma dessas cenas. Estava em uma viagem para o litoral – há anos não ia para praia -, aquela vontade de entrar no mar e finalmente matar essa saudade. Porém, optei por esperar o dia seguinte, não queria molhar meu cabelo… No outro dia, assim que saímos de casa, caiu a primeira gota. E logo veio outra, depois mais uma, e o céu desabou numa chuva daquelas. Todo o calor da emoção foi embora, trocado por uma tempestade que me mandou direto pra casa.
São pequenas frustrações, eu sei, mas será que são só elas que nos acompanham? Às vezes, a espera é maior, quase uma promessa que se estende por toda vida. Quantas vezes nos pegamos esperando algo: o trabalho que vai nos completar, o amor que vai nos salvar, o momento que vai justificar tudo? Parece que sempre estamos perto o suficiente, mas nunca ao alcance. E o tempo, com seu ritmo próprio, vai jogando conosco, empurrando esse amanhã para um depois desconhecido.
Muitas vezes ficamos guardando momentos, ideias, desejos, como quem coleciona adesivos bonitos e os esconde numa gaveta para um dia usar. Frequentemente, me encontro pensando sobre aqueles pequenos momentos onde só deixamos acontecer, sem pensar no momento certo. Aquela vez em que, sem pensar muito, usamos o adesivo no caderno, só porque era bonito e pronto. Ou quando pulamos no mar sem pensar no cabelo, só para aproveitar aquele instante, sem pensar se era o correto ou o planejado.
Esperar é uma arte, mas viver sem pensar tanto também tem sua beleza. Talvez viver seja mais sobre o movimento do que sobre a promessa. Porque o tempo vai passar de qualquer jeito, os adesivos vão amarelar e o momento certo talvez nunca chegue. Quem sabe a resposta esteja em simplesmente começar a usar os adesivos, um a um, sem grandes planos. Afinal, é ali, na imperfeição do agora, que a vida acontece.