Em busca do diagnóstico
Texto: Beatriz La Corte
Era uma noite de domingo e o país inteiro se sentava em frente à televisão. O evento passava como qualquer outro naquele país contagiante: as pessoas vestiam-se do pé à cabeça com os símbolos dos seus times, as músicas preenchiam a trilha sonora da temporada e, cada vez mais, o calor e entusiasmo dos torcedores só acabavam quando a bala disparava e a história aparecia no jornal. Naquele dia, nos bares, nas casas de família e na grande Avenida Paulista os telões confirmavam o que os adultos ansiosos já sabiam: o Capitão havia ganhado. As casas verde-amarelas vibravam – a sensação de ser maioria, de ter vencido aqueles canalhas prepotentes, de serem validados, ecoava pelas paredes. As casas vermelhas sofriam – confusas – percebendo que os seus tão belos princípios não eram maioria naquela nação.
Já havia anos que a situação estava sensível, mas, naquele ano, tudo ficou ainda mais intenso. De repente, parecia que todos tinham visto seus vizinhos e familiares pela primeira vez. “Ele sempre foi assim e eu não percebia ou do nada ele ficou doente?”, perguntavam as pessoas umas às outras. Ninguém sabia dizer ao certo, mas, se eu fosse arriscar, diria que um pouco dos dois.
Os cientistas corriam para fornecer um diagnóstico do que estava acontecendo na nação. Os magos e charlatões pregavam suas conclusões mágicas e milagrosas sobre o que acontecia – e os desesperados assimilavam os sermões com veemência.
“O problema é que o Governo começou a dar dinheiro para as pessoas e agora elas não querem trabalhar”, dizia o tio Michel em seu canal de Youtube sobre investimentos. “Por isso que o mundo tá desse jeito, olha a coisa que os jovens tão ouvindo”, comentava a tia Anália no Instagram de uma menina de 14 anos. “Todo pobre que vota nesse cara é burro”, comentava Gabriela ao lado de seu pai – que era pobre e votava no cara.
Eram ideias tão simples e tão fáceis que enchia as pessoas de esperança. No início, elas saíam da realidade em busca da fantasia, do mundo melhor. Tudo começou a dar errado quando começaram a partir da fantasia e querer encaixá-la a todo custo no mundo real. Que frustração era! Parecia que a cada regra existiam 500.000 exceções. Cada um tinha seu sonho e era de partir o coração viver num mundo tão pior do que eles sonhavam. E quais eram esses sonhos? O Jefferson queria poder falar o que quisesse na própria casa sem ser censurado pela filha politicamente correta. A Vitória queria ser chamada de Vitória e queria que as pessoas a tratassem como mulher, igual tratavam a sua mãe. A Dona Ana queria que seu filho não tivesse entrado no mundo do crime. Seu filho, em seu último suspiro, queria que a polícia não tivesse liberdade para julgar antes da Justiça. E a