Esperança de Seda

Texto: Giulia Polizeli

A minha família, apesar de seu histórico em uma pequena cidade do interior de São Paulo, nunca foi muito religiosa. Ainda assim, minha avó sentava-se no sofá todos os dias, religiosamente, para assistir à novela das seis. Nunca tive muito interesse em novelas, minha avó, minha mãe, minhas professoras e até mesmo minhas colegas de turma falavam sobre, mas para mim, a palavra nunca se passou de nada, além disso: uma palavra.  

Não me lembro exatamente o motivo que me levou a estar na sala-de-estar naquele dia, afinal, os finais da tarde estavam sempre reservados para a minha avó, mas ali eu estava e quando a novela começou, ali eu fiquei. Foi como abrir os olhos para um novo mundo mágico que sempre esteve na minha frente, mas que nunca me permiti ver.

A mocinha, que cresceu no interior, assim como eu, mudou para a cidade e conseguiu todos os seus sonhos ao lado de um mocinho que conheceu no meio do caminho. Pela primeira vez, entendi o que era estar encantada com algo. Ela era como eu, tirando o laço de fita rosa em seu cabelo que estava em todas as cenas, a sensação era de olhar para um portal mágico no futuro. Esperança de um novo caminho para seguir.

 O ritual religioso de minha avó se transformou em algo nosso. Todos os dias, quando chegava da escola, corria para fazer minhas lições de casa e estar em frente à televisão às seis em ponto. Alguns dias, chegava a sala-de-estar antes mesmo que ela estivesse lá e minha avó brincava:

— Para quem disse que não gostava de novela, né, minha filha?

Não me importava com a provocação porque logo depois ela passava a mão pelo meu cabelo e sentava na almofada ao lado da minha. Depois disso, o mundo desaparecia, eu desaparecia e não sobrava nada além da mocinha na televisão e o mocinho ao seu lado. O que restava era uma versão de tudo que eu queria, tudo que eu poderia ser quando crescesse como ela.

Foi na tarde de um dia qualquer, que não me lembro a data, mas nunca vou esquecer, quando minha avó entrou na sala faltando poucos minutos para a novela começar. Com as mãos atrás das costas, ela pediu para fechar os olhos. Um minuto depois, havia um laço de seda no meu cabelo, assim como o da mocinha da novela. A prova de que se me esforçasse, poderia ter tudo que queria. Esperança. Nunca mais tirei aquele laço do cabelo e quando, finalmente, cresci e mudei para a cidade grande, ele se tornou um amuleto da sorte. Sempre comigo.

Durante a minha infância, o pôr-do-sol tinha sempre o mesmo barulho. Estático. Quase como um ruído. Ele acontecia de segunda a sábado, sempre no mesmo horário. Demorei muitos anos para entender que aquele barulho, na verdade, não era do sol e sim, o barulho da televisão ligando. Aos 42 anos, escuto o mesmo barulho estático depois de muito tempo.

A casa de minha avó ainda é a mesma, assim como o pôr-do-sol que entra pela janela. No nosso primeiro dia no campo, após anos na cidade, entrar por essas portas é como ter 10 anos novamente, sentada na frente da televisão para assistir minha novela preferida. Por um momento, sinto como se voltasse no tempo porque em frente a televisão a uma garotinha muito parecida comigo assistindo à mesma novela que eu assistia no Vale A Pena Ver De Novo.

Da mesma forma que vi quem eu poderia ser na televisão anos atrás, vejo o reflexo de quem fui nos olhos brilhando da menina à minha frente. O próximo acontecimento me parece nada menos do que algo que vinha há muito tempo. Eu tomo o lugar na almofada vazia do sofá e tiro o laço de fita do meu cabelo, passando-o para o dela. Vejo a mudança acontecendo. Um mundo novo. Esperança.