Meu Carnaval

Texto: Maria Luiza Vieira

Ainda me lembro do cheiro que sentia quando primeiro li a notícia. Maresia, sal e suor, não qualquer tipo de suor, um suor alcoólico que talvez eu mesma emanava. Era uma segunda feira de carnaval, estava no uber, voltando para casa quando recebi o email. “Parabéns! Bem-vinda à USP, Maria Luiza”. Maria Luiza. Nem acreditei quando vi meu nome, afinal, nem lembrava que tinha me inscrito pra fazer faculdade em São Paulo. 

Contei imediatamente a notícia para minha mãe e suas duas amigas que estavam conosco, foi uma gritaria no carro, provavelmente  ali  perdi minha reputação impecável no uber de 5 estrelas. 

Não lembro o que senti naquela hora. Cheguei em casa morta de sono mas não consegui dormir, trocaria uma vaga de Direito na UFRJ pra viver meu “sonho proibido” de jornalismo? Decidi não pensar muito, afinal das contas, era carnaval! Vivi minha vida normalmente, porém troquei meus flertes com desconhecidos por conversas profundas sobre qual rumo eu deveria seguir. Criei uma espécie própria de IBGE, anotei as respostas de meus amigos, familiares, de desconhecidos, de comerciantes, policiais e taxistas, afinal, quem saberia melhor da minha vida e de qual caminho seguir? Certamente naquele momento não era eu. 

Na quarta feira de cinzas, analisei as respostas, juntei todos os dados possíveis, conversei com meus pais, e tomei a decisão. Iria para São Paulo. Em meio a felicidade de estar indo viver uma vida nova, estava a nostalgia. Estava eu pronta para crescer? Duas semanas passaram, e de repente chegou o dia onde dormiria pela última vez em meu quarto. Lembro de não ter me importado na hora, mas depois fiquei remoendo o momento em minha cabeça. 14 anos dormindo no mesmo cantinho, no mesmo apartamento e em um piscar de olhos, aquela seria a última vez. Agarrei a sensação. 

No ônibus para a capital paulista, minha mãe chorava. No início era um choro tímido, porém logo se transformou em um soluçar. Ela apertava minha mão, como se quisesse me impedir de escapar pelos seus dedos. Eu chorava junto. Abraçadas, tentando impedir ao máximo o tempo correr, em meio a lágrimas, minha mãe disse, quase que em um sussurrar  “Vai menina, o que a vida quer da gente é coragem”.