Miss Gutierrez
Texto: Nicoly modesto
Crescer assistindo o Miss Universo realmente contribuiu com a forma que eu vejo o meu corpo e a minha personalidade junto com as propagandas, os filmes e umas cobranças sempre presentes no meu círculo familiar, mas ao mesmo tempo que atualmente, tudo parece mais moderno e inclusivo, quem está julgando nossa beleza ainda continua preso nos mesmos ideais do começo do século.
Num momento do final do ano, ficava acordada até de madrugada vendo várias mulheres super bonitas passando fantasiadas, discursando sobre como queriam mudar o mundo, e sempre torcendo pelo Brasil e outros países latinos que eram mais fortes na competição e avançavam.
O tempo passou e meu interesse por esse tipo de competição foi diminuindo, tudo era tão irreal, eu não tinha o cabelo liso ou ondulado como elas, nem ideias de como ajudar o planeta com ONGs. Em 2024, ver uma dinamarquesa loira ganhar a competição que a cada edição vai sendo mais “inclusiva” é até engraçado, será que é só para chamar um público que já não se importa ou não se identifica mais com a competição? Acredito que seja algo territorial, mas é só entrar na hashtag #MissUniverso2025 que você percebe que ainda levanta público, mas agora nichado.
Uma colega de trabalho me contou uma história que parece ter saído de um filme americano do começo dos anos 2000, só que ela foi cotada como figurante. Mila é venezuelana, e em meados de 2017 fez uma disciplina de artes plásticas na mesma turma que Sthefanny Gutierrez, também conhecida como Miss Venezuela daquele ano.
Como todo apreciador de concurso sabe, o país é um participante extremamente forte no Miss Universo que já ganhou sete vezes, só ficando atrás dos Estados Unidos, que ganhou nove. Mesmo assim sempre ficou entre as finalistas, este ano ficou no top 5 com Íleana Marquez. O concurso virou febre na Venezuela nos anos 70, depois da grande difusão feita pelos canais de televisão, e nada melhor do que um trabalho realizado a longo prazo.
Presentes, companhia excessiva dos seus colegas, e até privilégios nas avaliações era o que Sthefanny ganhava. Ela nunca fez uma prova, e arrastava admiradores pela faculdade em Caracas. Mila a invejava (quem não se morderia de inveja?) por ter tudo aquilo baseado apenas em sua beleza, além de acabar duvidando da sua própria beleza e capacidade. Nós mulheres quando nos comparamos com outras, esquecemos que a vida das competidoras é feita toda para o acúmulo de títulos, um cuidado e um tempo que nós mortais não investimos.
Estilo o filme “A Substância”, ao mesmo tempo que tinha o prestígio de ser uma deusa admirada e bonita, o lado negativo pesou tanto que Sthefanny não durou muito no curso. Seus admiradores logo se tornaram perseguidores, o número de cartas começou a ficar impossível de aguentar e logo vieram as ameaças de todos os cantos da faculdade. Imagina a situação como se o Neymar resolvesse estudar Educação Física em 2013.
Mila diz que agora vê aquela situação com alívio de ter acabado, o pouco que ela conviveu percebia que a Vice Miss Universo 2018 (sim, ela competiu e ficou em 2° lugar naquele ano) não passava de uma casca vazia, e que nunca teve a oportunidade de conhecer sua personalidade, apenas através das fotos e dos autógrafos. Uma pena que não é tão fácil.