O brasileiro só quer viajar.
Texto: Regina Lemmi
Segunda-feira. 05:30 da manhã. Alarme do celular acionado. Despertei já cansado com a mandíbula tensionada. Maquinalmente, coloquei o uniforme do dia. Uma camisa de botão de mangas curtas e calça social. Perfume para enojar-me ou encantar o outro. Relógio nos pulsos a postos.
O café da manhã, pronto à mesa. Minha esposa tomava um cappuccino. Um ovo cozido, orégano. Eu, um espresso duplo. Uma torrada. Manteiga e sal.
Filhos, não temos. Muito caro. Muito tempo gasto. A minha mulher não clama por um descendente, mas reclama todos os dias, nas horas do café da manhã, que gostaria de viajar. Seja qualquer local: a praia, o interior, as montanhas, o oceano, outro continente.
“Imagina: um lugar em que as montanhas tocam o céu. Onde as rochas carregam uma história secreta. Onde o povo guardava fábulas sobre seus antepassados“, com os olhos brilhando, ela construía um imaginário de um paraíso. Ela cismou que queria ir para o Peru:
“Nem é tão caro para a economia brasileira!”
O efeito paradisíaco, no início, me fascinava. Tocar a areia nos pés, como tinha feito quatro meses atrás. Cheirar do odor das plantas, da mata, inexistente na floresta de prédios de São Paulo. Contar as estrelas distantes de qualquer civilização.
Agora, só olho com indiferença e rancor para o encantamento invejável de minha namorada.
Ela sabia. Trabalhava 6 vezes por semana como atendente de um consultório médico. Já trabalhava como funcionário de um cartório civil. As férias estavam longe do horizonte nessas brisas de outono.
7: 11. Cheguei ao consultório. Liguei o computador. Lento. Sento em minha cadeira de rodas. Vejo a agenda na mesa. Brinco com a caneta. A máquina abriu finalmente. Conferi meus emails. 6 emails encaminhados. Atarefado-me já. Escrevo.
Computador trava. 5 minutos de descanso. Pego um café da máquina. Estico a perna. Duas colegas de trabalho comparam as suas fotos de viagens aos Estados Unidos. O meu chefe parece não se importar.
Uma foto. Duas fotos. Na Disney. Falta apenas mais um brasileiro para contar. Mas volto a trabalhar.
Um outro colega passa pelas duas. Depois passa pela minha mesa. E, com uma risada enfadonha, ele ridiculariza: “Esse pessoal só pensa em viajar né”. Eu ignoro. Percebendo a minha indiferença, ele retoma “Ninguém quer trabalhar, essa é a verdade!”. Eu aceno a cabeça. Apenas para ele ir embora. Volto a escrever no computador.
Horário de almoço. O noticiário na TV fala sobre o projeto de lei contra a escala 6×1. 7 dias da semana, 44 horas por semana reduzidos a 36 horas semanais. Imagina.
“Horas de trabalho, e a organização do trabalho e dos períodos de descanso, pode ter uma influência profunda no estado físico e mental, saúde e bem-estar dos trabalhadores…”
Quero férias. Até resolver isso. Leio estupefato, o cansaço. As pessoas estão cansadas.
“Esse partido tá viajando”, lembrei da moça reclamando próximo de minha cadeira no almoço.
Tenho que bater o ponto. Meu chefe foi embora duas horas antes. Eu preciso terminar as papeladas. Imprimir. Saio às 17h, 9 horas.
Mais um dia passado. Acordo às 05:30 no dia seguinte. Chego ao trabalho. O chefe esqueceu de me atarefar, eu começo a escrever. Escrever. Escrever. Escrever.
O teclado seguindo os meus movimentos. A máquina queimando. Meus dedos queimando. Meus movimentos maquinando.
— O ônibus quebrou!
Descemos, aguardamos o próximo. Estou atrasada. Mais um dia comum, marcado pelo peso diário que sufoca os sonhos, pelos minutos que escorrem das minhas mãos como areia. A sensação é de que minha vida vale menos, que o tempo que gasto nunca será suficiente.
Mas é preciso seguir. No ônibus lotado, tento adiantar o trabalho daquela matéria dificílima, enquanto aproveito a lentidão do sinal para, finalmente, comprar aquele tênis tão desejado. Ninguém precisa saber em quantas vezes foi parcelado. Nos raros 20 minutos em que consegui me sentar, suspirei. Um pequeno luxo: fechar os olhos, mergulhar por segundos num sono profundo. Até que o medo de perder o ponto me acorda bruscamente. É sempre assim. O eterno retorno do mesmo. A grande maré sem pausa de horas.
— Corre! Você está atrasada.
Permanentemente atrasada. Atraso que me torna refém dos meus próprios sonhos. É normal ser tão difícil assim?
— Mas calma — me digo — é o curso dos seus sonhos. O emprego que você precisa.
A mensagem da minha mãe chega, e eu sorrio:
— Viu que a mamãe fez purê de batatas?
Não só vi, como senti o cheiro, o gosto, o desejo de estar em casa. Esse pequeno fragmento de afeto é um oásis em meio à avalanche de minutos até o fim do expediente. Me pergunto se é errado querer mais tempo. Ou será que é honroso viver nesse sacrifício constante, num looping interminável de dias, horas, minutos, semestres, anos?
Mas o relógio segue girando. Eu tenho as mesmas vinte e quatro horas que todos, dizem. Só que essas horas não me parecem iguais. Perco mais de quatro no transporte. Não consigo estudar com qualidade, dormir com qualidade, comer com qualidade. Amar com qualidade. Não consigo, simplesmente, existir dignamente.
Se eu tivesse um carro, se as contas estivessem pagas, se morasse perto de onde preciso estar… Presumo que seria diferente. Ouvir que cada um tem suas batalhas é bonito e real, mas algumas batalhas esmagam mais do que outras.
Quase onze da noite:
— A aula acabou!
Ouço com alívio. Mas me sinto culpada. Cansada demais para aproveitar o que deveria ser a construção do meu maior sonho. Não dá tempo para lamentar. É hora de correr e não perder o ônibus de volta. E, mais uma vez, não me perder na dança monótona de mais um dia exaustivo.