Sofre o torcedor
Texto: Gustavo Radaelli
Jogam Afeganistão e Brasil, e seu coração se divide. Nasceu afegão; mas, aos 18 anos, teve que sair de seu país e se refugiar na América Latina. Teve que começar tudo de novo. Resultado: Lingua, família e costumes agora eram diferentes; precisou abraçar o verde e amarelo, mesmo que o verde e amarelo não tivesse o abraçado de volta. Trocou o kabuli pela feijoada, o attan pelo samba, seu corpo era cada vez mais brasileiro, mas sua alma ainda estava no Oriente Médio.
Uma tarde de domingo, jogavam seus dois países, estava com sua torcida dividida. Tentou se fazer indiferente ao campeonato, desligou seu celular e buscou caminhar pelas ruas. Em tempos de Botafogo e Fluminense, somente era possível saber do resultado do jogo pelo rádio de pilha ou no jornal do dia seguinte. Hoje, estava cansado das atualizações do mundo em tempo real; era ameaçado pelos mísseis que nunca paravam, bombardeados pelos noticiários.
Pensou ter conseguido abandonar as dificuldades da terra natal, mas as misérias não deixavam de o aterrorizar. Era constantemente alcançado pela crise, fome e ameaças que se esgueiravam por diversos meios. O Talibã o seguia nas redes sociais; a desgraça de companheiros presos no aeroporto era anunciada pelas rádios; nem seus semelhantes tinham paz nas televisões, com a guerra transformada em entretenimento para o público.
Só por aquele dia, tentou fugir dos acontecimentos e se distanciar do jogo que palpitava seu coração. Talvez tentasse buscar refúgio no cinema, mas nem o espaço da sétima arte tinha salvação. Todos os cantos estavam conectados, a rodada era presenciada em todas as telas. Camisas amarelas, e algumas poucas vermelhas, vibravam nos bares; telões ocupavam as vielas e o público se esquecia das desgraças noticiadas antes do futebol de quarta.
Caminhou até o parque, pensou que pelo menos as árvores não comentariam sobre o jogo em seus ouvidos. Na sua frente ia uma família: O marido levava ao colo um menino pequeno e a mulher, grávida, conduzia duas outras crianças, que jogavam no celular. Ambos os pais, belos, iam andando assim que toparam com um cidadão que, encostado em um tronco, assistia ao celular. O afegão observava paralizado, até que o homem se aproximou ao outro e falou:
— Por favor, quanto foi o jogo?
O corpo do observador tremia, sua cabeça resgatava na memória os horrores testemunhados em seu passado, sua testa suava e seu peito, acima de tudo, doía. Nem deu tempo dele escutar por completo a resposta do cidadão, sua carcaça já estava no chão. Em tempos de Botafogo e Fluminense, não teria sofrido um enfarte o torcedor.