Todos temos uma tia Didi

Texto: Luiza Santos

Café coado no final da tarde, cuscuz no fogo, máquina de costura, linha de crochê e cheiro de naftalina pela casa: com certeza tia Didi estava por perto. 

Costumo pensar que em uma família grande (mas grande mesmo), nem sempre conseguimos nutrir um sentimento de afeto genuíno por todos. Mas quando se trata de tia Didi, o assunto é outro. Nascida, criada e crescida em Recife, ninguém sabe ao certo quantos anos ela tem. Desde que me entendo por gente, tenho a impressão de que ela sempre foi uma senhora (talvez a falta de registros na juventude faça a gente acreditar nesse tipo de coisa). 

Apesar de tudo, minha história com tia Didi começou quando ela veio para São Paulo para cuidar de mim. Pronto. É assim que nascem as minhas primeiras lembranças de pirralha. Lembro que quando eu estressava minha mãe, aproveitava a minha tia por perto e usava ela de escudo. A coitada acabava levando a chinelada que minha mãe mirava em mim e eu saía voando (um abraço carinhoso para os que foram crianças atentadas!).

Tia Didi nunca foi de meias palavras: se ela falava que ia fazer, ela fazia mesmo. Em uma tarde comum, eu estava estrelando o que seria o sonho mais almejado da maioria das meninas dos anos 2000: o fabuloso salto da Barbie. Lindo e barulhento, ele era sinônimo de estilo e amadurecimento. Desfilando pela rua, um erro subjetivo arruinou o meu momento: pisei no dedão do pé de tia Didi. Ela chorou, a unha caiu, ela chorou de novo. No dia seguinte, ao procurar meu fabuloso salto da Barbie, descobri que ele tinha ido pro lixo.

É claro que uma personalidade tão querida e cítrica arranjaria amigas paulistas, irmãs, camaradas – afinal, na “Terra da Garoa”, é meio difícil viver só -.  Ao lado da Vera e da Cleonice, as tardes rendiam altos papos e fofocas. O maior evento da semana era acompanhar as queridas amigas fazendo sabão com óleo velho e criando apelido para as pessoas da rua (minha tia usava seu maior talento à favor do entretenimento: a criatividade). 

Algum tempo depois, tia Didi voltou para Recife. Tudo bem. Eu já entendia que ela gostava mais de lá. Agora, já mais velha, as circunstâncias são diferentes, mas ela ainda é a mesma – ou quase a mesma -. Tia Didi perdeu o dedinho do pé, e dessa vez nem foi culpa minha. Meio descuidada com a saúde, ela acabou desenvolvendo diabetes em um  nível muito alto. Até hoje, as crianças ainda olham chocadas para o não-dedo de tia Didi. Eu também olho.

Quando eu era mais nova, achava que minha relação com tia Didi era algo como “neta e avó” (já que nunca convivi com as minhas avós). Até tentava chamar ela de vó. Não rolou. Tia Didi só poderia ser tia Didi. E isso me levou a refletir que, no fundo, todos temos uma tia Didi. Não necessariamente tia, não necessariamente Didi, mas uma figura que representa afeto, amor, segurança e nostalgia.