Tudo Bem

Texto: Frederico Gomes

Um dia desses acordei atrasado.

Tinha acabado de voltar de viagem, e, depois de quase uma semana, pude dormir de novo na minha cama. Não me desesperei, afinal, ainda tinha tempo suficiente para me arrumar e sair no horário de sempre. Segui com minha rotina normal, mas, ao terminar de me arrumar, percebi que não iria conseguir pegar o ônibus das 9:30, o que eu sempre pego.

Tudo bem. Isso só significava que não ia conseguir almoçar no bandejão, como sempre faço, e que pegaria o ônibus das 10:00. Acabei sendo envolvido pelos trabalhos da faculdade, e, quando vi o horário, já eram dez horas.

Tudo bem. O ônibus está sempre atrasado mesmo. Peguei minhas coisas e fui para o ponto, cheguei lá em cinco minutos. Depois de um tempo, chega uma moça e me pergunta, apontando para o leste: “Você vai para lá?”. Respondi que sim, e logo ela me disse que o ônibus naquele sentido acabara de passar.

Tudo bem. Poderia pegar o ônibus no outro sentido, só precisava chegar na Raposo Tavares. Sorte a minha que esse ônibus passa às 10:10, e não costuma atrasar. Comecei a conversar com a moça sobre o transporte público em Cotia, falando mal, obviamente.

10:10, e nenhum sinal do ônibus. 

Às 10:15, preocupado com o atraso anormal, resolvo olhar os horários no Google Maps. Para a minha surpresa, o aplicativo dizia que o ônibus havia passado há três minutos, e que o próximo viria apenas daqui a meia hora. Não tive coragem de contar isso para a moça, que há dez minutos me disse que o ônibus “já está chegando”.

Parte de mim não quis acreditar, já que o ônibus que passou há pouco tempo eventualmente daria uma volta e passaria no outro sentido. Outra parte começou a se desesperar, pensando em tudo que poderia dar errado: o trânsito na rodovia piorar (afinal, depois das dez da manhã, sem o rodízio, muita gente sai de casa) e ter que ficar lá na Raposo por mais vinte minutos esperando um ônibus para São Paulo. E o pior, chegar atrasado no jovem aprendiz.

Às 10:20, começo a cogitar ir à pé para algum ponto em que passe um ônibus intermunicipal. Mas os 40 minutos de caminhada, com subida, sob o sol (que já estava de rachar), logo me fizeram desistir.

Às 10:25, a moça me diz: “Em Cotia, se você tem um compromisso ao meio dia, tem que sair às nove horas”. Ela tinha uma consulta médica no centro às doze horas, e estava com medo de perder. Nesse momento, tive vontade de levar o assunto para política e criticar Deus e o mundo pelo que fizeram na região. Porém, algo me dizia que não deveria fazer isso, especialmente depois das eleições municipais mais polarizadas da história da cidade.

Às 10:30, qualquer barulho de motor mais ruidoso já me chamava a atenção. Estava me sentindo como o meu cachorro, que, com qualquer barulho de carro, sai correndo para ver se são meus pais.

Às 10:40, finalmente, passou um ônibus. Em um síncrono suspiro de alívio e indignação, eu e a moça atravessamos a rua para embarcar. Enquanto isso, em minha cabeça, só conseguia pensar: “Tem como esse dia piorar?”.

Não, não tinha. Ao chegar na rodovia, esperei pouco para pegar o próximo ônibus, que não veio muito cheio, e consegui ir sentado. O trânsito, que parecia ruim, foi melhorando. Em São Paulo, almocei tranquilo, e cheguei no jovem aprendiz com tempo de sobra para escrever essa crônica.

Tudo bem.