Uma Pedra

Texto: Enzo Campestrin

Às vezes penso que o cotidiano é um animal de garras afiadas. Um ser arisco, soturno, que se alimenta pelas sombras e só dá as caras quando ataca. Cada momento que se vive dentro dessa lógica de rotina diária é mais um milímetro em que essas suas garras avançam para dentro da carne. Mais perigoso ainda é o efeito dessas suas garras. Parece que quanto mais profundo é o corte, menos é possível sentir o ataque da besta.

Ao menos essa foi a sensação que tive, numa manhã qualquer.

O dia teve início como todos os outros, com o som repetitivo e incômodo do despertador. O grasnado agudo do relógio encerra qualquer tipo de delírio, por mais que prazeroso, do sono. Me levanto com os olhos ainda inchados e escuros, que apontam para os ponteiros ao meu lado: dez para as cinco. 

Me lanço para fora da cama e me livro da paz onírica com a água gelada que cai do meu chuveiro. Já desperto, meu corpo se move para fora do banheiro e se insere dentro das roupas, quase que automaticamente. Tão automático quanto é o processo de abrir a garrafa de café, passar a manteiga no pão e ligar a televisão no canal de notícias, que dificilmente serão ouvidas com atenção pela pressa que tenho. Abro a porta, saio, fecho, tranco e entro no elevador. Levo a mão ao bolso e olho o horário no celular: dez para as seis.

Caminhando até o ponto de ônibus, já consigo ouvir o barulho do seu motor se aproximando. Se tivesse demorado mais cinco minutos para sair de casa, teria perdido este e ficaria no mínimo mais meia hora esperando o próximo. Respiro aliviado ao subir as escadas do veículo e me sentar num daqueles bancos preferenciais, torcendo para que nenhum idoso decida seguir o mesmo caminho que eu.

Os mais de 50 minutos em que me desloco estagnado parecem durar a metade e o dobro desse tempo, simultaneamente. Tento recuperar as horas de sono perdidas na noite anterior, mas sem sucesso. Tento então adiantar as demandas do trabalho da forma que posso, mas ter foco dentro de uma caixa de ferro superlotada se mostra uma tarefa não muito simples. Em meio às tentativas, sinto a freada brusca da máquina, finalmente chegando ao ponto da estação de metrô. São sete horas.

Se ter foco em algo já era complicado dentro do ônibus, a ideia de o fazer dentro do trem era, no mínimo, inconcebível. Uma mão segura a mochila pesada à frente do corpo, enquanto a outra busca por ao menos um pequeno espaço nas barras de apoio para se segurar. Me aperto no mutirão e descanso a cabeça na mão que segura a barra, enquanto respiro com dificuldade o ar abafado do vagão. 

Não reclamo mais, sendo sincero. Todos os dias são assim, desde sempre. Não só para mim, mas para cada uma das várias dezenas de pessoas naquele vagão. É assim que funciona e assim tem que ser feito. Desço do trem e me preparo para enfrentar a estação da Sé. Sete e meia. 

É aí que algo diferente acontece. Chegando na plataforma, um grupo de guardas isola a metade esquerda do lugar, enquanto uma multidão se acumula perto da divisória. A cena é confusa, mas o burburinho confirma as minhas suspeitas: Uma pessoa acabara de se atirar nos trilhos do trem. Morreu na hora com o impacto.

Mora aí o objeto da minha reflexão. Naquele momento, a única coisa que conseguia sentir era incômodo. Não pena ou empatia por uma pessoa que há poucos minutos teria tirado a sua própria vida. Não, sentia raiva. Naquele instante, sentia raiva do inconsequente que atrapalhou o tráfego. Qualquer atraso no meu serviço levaria a um desconto no meu salário que me prejudicaria pelo resto do mês, coisa que aquele egoísta não se deu ao trabalho de pensar sobre.

Dor? Peço desculpas, mas não era parente meu. Mal era um ser humano. Na hora, era apenas uma pedra bem grande no sapato coletivo. E isso afirmo com certeza, porque era possível ver na expressão de desânimo de cada um dos passageiros ao meu lado os seus pensamentos repletos de ódio.

Esperei 20 minutos até a normalização da circulação dos trens. Nesses 20 minutos, recobrei a consciência. Por um desvio na rotina, fui capaz de regurgitar qualquer tipo de compaixão a uma vida perdida diante dos meus olhos. Não só eu, mas a massa toda ignorou a morte. Isso porque a morte transtornou o sistema.

Às vezes, penso que esse tal sistema odeia gente. Que ele é responsável por tudo de ruim que todos passam todos os dias. Que esse que se jogou poderia facilmente ser eu daqui a alguns anos. Quase me revoltei, mas então vi o horário: oito horas.

Segui em frente.