Vale a pena ver de novo

Texto: Maria Clara Ramos

Quando eu era criança, minhas primas e eu passávamos nossas tardes na casa de minha avó, Dona Maria Alcina. Meus pais, assim como meus tios, trabalhavam durante o dia, e por isso eu, Maria Luiza e Beatriz ficávamos sob os cuidados e carinhos da matriarca. Minha relação com minhas primas sempre foi muito próxima, apesar da diferença entre nossas idades. Bia é quatro anos mais velha que Malu, que é quatro anos mais velha que eu. Mas nós sabíamos aproveitar a companhia umas das outras, e para minha alegria e desespero de minha avó, as irmãs sempre tinham ideias muito criativas para passar o tempo e bagunçar os móveis da casa.

Nos fins de tarde, nossas aventuras na sala de estar eram interrompidas quando Dona Maria Alcina se acomodava em seu sofá e ligava a televisão para seu compromisso diário: assistir ao novo – ao menos para mim eles eram novidade – capítulo exibido no Vale a Pena Ver de Novo, quadro da TV Globo que reprisa antigas novelas populares da emissora. Algumas das produções eram reprises de remakes de novelas que, por suas vezes, já antes tinham sido reprisadas diversas vezes. Maria Alcina assistiu todas aquelas tramas na primeira, na segunda, e certamente na terceira vez em que elas foram ao ar. Mas depois de muitos anos, as reviravoltas já conhecidas se perdiam na memória, e ela podia assistir a Anjo Mau ou a O Cravo e a Rosa quase como se fosse a primeira vez. Depois de um dia atarefado, os eventos dos personagens no Vale a Pena Ver de Novo dominavam sua atenção – e a televisão da sala também.  

 Conformadas com a programação, eu, Bia e Malu nos espalhávamos nos sofás e poltronas da sala e fazíamos companhia para a vovó. Nós quatro assistíamos atentamente às cenas, mas nunca em silêncio. Elemento importante daquele ritual era expor nossas opiniões sobre o que estávamos assistindo. Comentávamos sobre os planos das vilãs, sobre a inocência dos mocinhos, sobre os diálogos melodramáticos, sobre tudo. Minha parte favorita sempre foi acompanhar as reações de Maria Alcina. Além de tentar alertar os personagens do outro lado da tela sobre o que aconteceria na trama ou sobre em quem deveriam confiar, – eram comuns falas como “Não bebe isso, sua boba, ele envenenou o copo!” – minha avó prestava atenção aos menores detalhes das cenas. Em grandes momentos de tensão, de discussões acaloradas ou importantes revelações nos capítulos, ela comentava sobre a beleza do jogo de xícaras em uma mesa ao fundo da cena, ou sobre a cor do vestido de uma figurante. Ao ouvirmos as observações fora de hora, eu e minhas primas nos olhávamos confusas por um instante antes de cairmos na risada.

Por mais dramática e intensa que fosse a história transmitida, quem ouvia de outro cômodo nossas gargalhadas poderia acreditar que assistíamos a um filme de comédia. Alguns momentos nas novelas eram realmente engraçados, mas os comentários e piadas feitos por nós eram a verdadeira diversão para mim. Adorávamos tentar tirar risadas umas das outras.

Com o tempo, a televisão da sala foi deixando de ser o carro chefe do entretenimento da casa. Os computadores, celulares e tablets ganharam a atenção de Bia e Malu, bem como a minha. Ainda ficávamos as três na sala, próximas a minha avó, mas cada uma em uma tela, concentradas assistindo um vídeo ou programa diferente. Ali não contávamos mais piadas, não tentávamos mais fazer as outras rir, pois estávamos imersas em nosso próprio mundo, sem um contexto em comum. Assim, as sessões de novela na sala de estar se perderam com o tempo.

Nos últimos anos, vi anúncios do Vale a Pena Ver de Novo promovendo reprises de novelas que eu já tinha assistido quando mais nova naquela sala de estar. Depois de crescida, nunca mais assisti àquelas reexibições. O interesse pelas telenovelas ficou no passado. As lembranças das tardes com Bia, Malu e Maria Alcina, no entanto, me acompanham até hoje. Repriso as nossas histórias em minha memória sempre que posso.